Meu maior receio sobre D4: Dark Dreams Don’t Die era o de que o estúdio responsável, a Access Games, pudesse ter tentado perseguir os caminhos de seu último sucesso de maneira insistente demais, criando um jogo forçado em diversos aspectos.  Swery, o diretor de D4, se viu diante de um hit cult com Deadly Premonition, um jogo deliciosamente esquisito de cabo a rabo, que consegue surpreender o jogador com uma série de dualidades que, no papel, não deveriam conseguir coexistir: personagens ao mesmo tempo caricatos e profundos, diálogos ao mesmo tempo artificias e humanos etc. Todo o material promocional de D4 com que tive contato apresentava só a primeira metade dessas equações, isso é, o referente ao caricato e artificial. Por isso havia o receio de que a Access Games estivesse indo atrás de elementos que, sem dúvidas, são importantes em Deadly Premonintion, mas não eram responsáveis, por si só, em criar todo o charme que aquela história possui.

Que isso seja uma lição, mais uma vez, sobre o quão pouco representativa a divulgação de um jogo pode ser. D4 é com certeza mais caricato do que profundo, porém isso não impede que suas estranhezas e absurdos soem genuínos do começo ao fim, mesmo que algumas das piadas sejam um pouco mais longas do que precisem ser e, por conta de sua estrutura de episódios divididos em temporadas, o conteúdo inicial possua um final abrupto e não satisfatório.

Talvez o fato mais surpreendente de todos em relação a D4 seja sua mecânica de jogo. A melhor comparação que pode ser feita é com The Walking Dead, da Telltale, no sentido de que a aventura está mais próxima de uma história interativa do que de um jogo tradicional. Em Dark Dreams Don’t Die temos o controle de David Young, um detetive que largou a sua profissão formalmente após ter sua esposa, Peggy, assassinada. Young não se lembra dos eventos da noite em que Peggy perdeu a vida, apenas do último sussurro dela: “procure por D”. A partir desse momento, Young passou a caçar essa figura misteriosa, auxiliado por uma habilidade que ele ganhou no dia em que perdeu a esposa. Em condições específicas, certos objetos se tornam Mementos e, ao entrar em contato com um deles, Young pode viajar no tempo a um ponto específico, relacionado ao Memento em questão, dando a ele a possibilidade de levar em frente sua investigação.

D4: Dark Dreams Don't Die

D4: Dark Dreams Don’t Die

Esta se dá mais ou menos como em um jogo de caça a objetos escondidos. Com um ponteiro podemos verificar detalhes de certos objetos espalhados pelo cenário. A maior parte desses detalhes está lá apenas para dar mais cor ao que observamos, como o fato de que o rabo de um esquilo está molhado (curiosamente, na tradução em português a informação dada sobre o mesmo esquilo é de que ele é gordo). São só com alguns objetos específicos que podemos interagir e, dentro destes, um número menor é responsável para levar a trama em frente. Você só sabe que é possível interagir com um objeto passando o ponteiro por cima deles, ou usando uma habilidade de quantidade limitada, que faz com que todos os itens relevantes fiquem brilhantes.

Enquanto isso dá uma cadência lenta ao jogo, sinto que é justamente essa atenção ao metódico que dá uma cor específica a D4. Existe algo no cuidado com que Young abre os armários, que pedem sempre por um imput específico para serem abertos, ou como ele coloca um disco no toca-discos, que tornam toda a ambientação mais verossímil, mesmo que sua premissa e a maior parte de seus eventos sejam completamente absurdos. Em parte, é por conta desse contraste que D4 consegue ser um esquisito tão aproveitável e sem ser forçado, bem como uma obra de David Lynch. Há em igual medida o suficiente para nos sentirmos confortáveis e incomodados, de modo a que nunca baixemos a guarda, mas também nunca vejamos tudo como tão familiar a ponto de querermos nos levantar e ir embora. A falta de respostas a elementos estranhíssimos que são tratados como normais pelos personagens é um dos melhores exemplos disso. Meu caso favorito disso é da Amanda, a “Garota Misteriosa”, que se encontra no apartamento de Young. Eu até agora não sei dizer se ela é uma mulher que pensa que é uma gata ou se é uma gata que Young enxerga como se fosse uma mulher. Seja como for, o jogo não parece ter me dado nenhuma resposta exata sobre esse dilema, nem parece interessado em o fazer – e eu acho que ele é melhor por conta disso.

D4: Dark Dreams Don't Die

D4: Dark Dreams Don’t Die

O clima de Dark Dreams Don’t Die também se beneficia por tudo aquilo que é perdido na tradução quando um estúdio japonês busca recriar em um jogo a sociedade americana. A impressão é de que Swery e sua equipe aprenderam sobre os EUA primariamente através de seriados policiais na TV. Há uma compreensão de como os Estados Unidos são e funcionam, mas detalhes e lacunas são preenchidos com traços muito mais característicos do Japão. A consequência é uma realidade com personagens que agem de acordo com regras bem estabelecidas e específicas, mas que não existem concretamente em nenhum lugar do mundo, por mais que o objetivo seja replicar uma nação em específico. Apesar de um ou outro momento beirarem o preconceituoso, essa característica só serve para acentuar o charme dessa realidade em que D4 se passa.

O ritmo mais vagaroso não é só uma questão de estilo. Quando o título foi anunciado ele era exclusivo ao Kinect e posteriormente foi dito que controles normais funcionariam nele. O sensor de movimentos funciona e, surpreendentemente, alguma sequências de Quick-Time Events são mais prazerosas de serem feitas com o periférico. No entanto, eu rapidamente me cansei de deixar um braço levantado para poder interagir com o cenário e fiquei especialmente sem vontade de realizar constantemente um comando que requer que o jogador incline seu corpo para podermos enxergar partes específicas do cenário. Jogar em uma sala movimentada só deixa tudo mais tedioso porque, a cada vez que alguém passa na frente do sensor, ele pausa o jogo e pergunta quem é que está jogando. Felizmente, D4 funciona com um controle normal, mas, por se tratar de uma adaptação, nem tudo com ele é perfeito. Navegar os menus requer paciência. Foi comum comigo não conseguir chegar na opção que desejava, especialmente na tela de compras, sem que conseguisse entender qual direção que deveria apertar para chegar onde queria. Nessa configuração os QTEs pedem por uma agilidade maior do que a que possuo e alguns minigames, como um que envolve passar o ponteiro por cima de trevos que caem de cima da dela, são desprovidos de desafio com uma alavanca.

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Fora as ocasiões em que desejava que o jogo se movimentasse um pouquinho mais velozmente, o aumento de dificuldade em alguns trechos e de facilidade em outros acaba não sendo um problema porque Dark Dreams Don’t Die é desprovido de qualquer adversidade. O maior empecilho é a perda de Vigor cada vez que Young investiga alguma coisa que, se chegar a zero, fará com que o protagonista desmaie. Acontece que nosso apartamento possui um suprimento infinito de comida, item que recupera nosso vigor. Basta mergulhar no passado e retornar para o nosso lar para que nossa geladeira, armários e micro-ondas estejam repletos de alimentos novamente, anulando qualquer desafio que essa mecânica possa ter. Além disso, Amanda vende diferentes comidas também e, desde que você explore o ambiente, sempre terá créditos de sobra para comprá-las. A única outra forma de falharmos é deixando de executar muitos dos QTEs. Porém é preciso realmente não ter sucesso em muitos deles, pois mesmo errando um bocado deles com o controle eu ainda não cheguei nem perto de perder toda a minha vida.

Esses empecilhos nas mecânicas têm um peso menor no jogo, já que eles nunca são o astro principal em cima do palco. Similarmente a The Walking Dead, D4 está ali para nos pegar pela mão e nos mostrar seu mundo, nos levar através de sua estranha trama e personagens curiosos. Por se tratar apenas da primeira temporada os eventos são cortados de maneira abrupta e dão uma guinada maior do que eu gostaria para uma estética típica de animes. Ainda assim, estou curioso para saber o que está por vir e, por mais que o título não faça nada mecanicamente impressionante, os locais pelos quais passamos nessa jornada são únicos a ele.

Análise - D4: Dark Dreams Don't Die
D4 às vezes caminha vagarosamente demais, mas sua estranha premissa, personagens bizarros e situações surreais compensam eventuais cansaços
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  • Pingback: MotherChip #03 - D4 com Wasteland 2()

  • Fabiano

    Prevejo gente muito brava com esse review (COMO ASSIM É MELHOR QUE DESTINY e bá blá blá)

    • Bruno Grandis

      Pô, tem cara de no mínimo ser mais engraçado que o Destiny.

  • Diego Heinrik

    Opa! Conferir então! Vlw Heitor!

  • Vdomiciano

    Nas parte de considerações e nota poderiam colocar as plataformas que o jogo saiu – pra ficar mais fácil na busca.

    • Guilherme Oliveira

      Tem a ‘tag’ de ‘xbox one’, para achar na busca isso serve.

      • Vdomiciano

        não digo tag, mas sim uma ficha técnica do jogo – pra ficar algo mais formal e pra todo mundo identificar.

        • Guilherme Oliveira

          Ah sim, saquei. Verdade, ficaria bacana mesmo.

        • Heitor De Paola

          Oi Guilherme, tudo bem?

          Nós temos fichas de jogos. No caso do review, linkei na primeria vez que “D4” é mencionado no texto http://overloadr.com.br/jogo/d4-dark-dreams-dont-die/

          As fichas ficam na parte de jogos, ali na barra de cima. A gente sabe que ainda não está completo. Iremos implementar um sistema melhor, em que seja possível listar os jogos de maneira melhor. Só não tivemos tempo de implementar ainda.