Eu sei que muito da “cultura” zumbi esbarra em paradoxos e divergências de opinião, mas acho que é possível concordarmos que eles não têm alma, certo? Digo, caso você acredite nelas, é claro. Bom, partindo desse pressuposto, o filme Zombie Strippers é sobre seres sem alma, porém, sexy e – de acordo com a premissa do filme – até mais atraentes que as strippers “vivas”. Destiny é uma stripper zumbi.

Não que o jogo apele para a sensualidade física per se, todos os personagens, sejam mulheres, homens, robôs ou alienígenas não são sexualizados – o que é maneiro. Destiny é extremamente competente em tudo o que é “superficial”, com gráficos incríveis (testei a versão de PS4), mecânicas eficientes e música orquestrada magistralmente – mais de uma vez passei minutos na tela de início do jogo, parado, só escutando a melodia.

Destiny é um shooter AAA com mecânicas de RPG, que permite o jogador escolher entre três raças apenas cosméticas (Despertos, Humanos e Exo) e três classes: Titãs, Arcanos e Caçadores. Cada uma das classes possui duas sub-classes.

Mas, tal qual uma stripper zumbi, essas qualidades apenas ressaltam a completa falta de alma no título desenvolvido pela Bungie (mesma da série Halo). O show de luzes e “sensualidade técnica” só tentam esconder que Destiny é uma casca sem vida.

Noite do Destino

Destiny tenta vender uma história que se passa num futuro longínquo, no qual forças das trevas dominaram a galáxia e a Terra é o último forte protegido pelo Viajante, uma entidade cósmica que, basicamente, não faz nada o jogo inteiro.

O jogador é um Guardião, um soldado da Luz a trabalho do Viajante. Por que? Porque é assim que a Bungie quis. Você não tem nenhum motivo para entrar na batalha, o objetivo que te dão (salvar a galáxia? O universo? A Terra? Sei lá) é tão mal explicado que não foram raros os momentos que eu precisava entrar no site oficial do jogo para entender o que estava acontecendo – e nem isso ajudou.

São quatro raças alienígenas, sendo que os Decaídos (Fallen) e Colmeia (Hive) são praticamente idênticos. Os Cabal são tão mal introduzidos que você só os percebe quando vê que os inimigos que antes só sabiam andar, agora pulam e são gordos. Já os Vex, que são robôs, possuem uma mecânica um pouco diferente: não atire na cabeça como nos outros inimigos, mire na barriga.

Destiny

Tirando as mudanças mínimas de estratégia de combate, não há o menor motivo para combater estes inimigos. Exceptuando os Decaídos e Colmeia, que invadiram a Terra – nunca fica muito claro o porque disso, vai que os humanos invadiram os planetas deles antes? -, os outros dois só estão se defendendo de nós, jogadores.

Claro, Destiny jura que os Vex são tão ruins mas tão ruins, que nem os outros inimigos gostam deles. Mas, cara, em nenhum momento é mostrado como a ameaça Vex é uma ameaça de fato! O jogo obriga o jogador a invadir as terras deles e matá-los sob a promessa de que eles destruirão tudo se continuarem vivos. Mas eles não destruíram nada ainda. Só existem umas lendas de que os robôs são malvadões e, para falar bem a verdade, boa parte das vezes você os encontra lutando contra as outras raças inimigas. Quer dizer…

E tudo isso porque um cara chamado O Orador (The Speaker) jura que escuta as palavras do Viajante – e só ele, tá? Mais ninguém – te falou que você precisa fazer isso. E olha que estou ignorando todo o fato de que o Guardião controlado pelo jogador estava morto há tempos e, ao que tudo indica, não lembra patavinas das guerras entre Luz e Escuridão.

O que fica claro o tempo todo é que a Bungie quis deixar tudo meio vago para, possivelmente, elucidar mais com DLCs. Mas aí fica um pensamento: se você pagou por uma experiência completa, por que contentar-se apenas com lacunas enormes sem sentido?

Despertar do Destino

Existe uma discussão – meio sem sentido – se Destiny é um MMO ou não. Tudo devido ao significado que cada pessoa dá a “massivo”, o primeiro M de MMO. Alguns acham que massivo precisa ser mais de 100 pessoas juntas jogando, para outros (eu incluso), encontrar mais de 10 jogadores aleatoriamente em uma área já classifica o jogo como massivo.

De qualquer forma, Destiny, massivo ou não, possui grande foco no multiplayer. Chego ao ponto de afirmar que Destiny só é realmente suportável e esboça algo mais de diversão apenas se jogado em conjunto.

A repetição das missões do modo história é assustadora. Todas envolvem chegar ao ponto X, colocar o seu Fantasma – uma inteligência artificial dublada por um Peter Dinklage (Tyrion Lanister, de Game of Thrones) sem vontade e/ou mal-dirigido – para escanear algum mecanismo e lutar contra ondas e mais ondas de inimigos.

A única variação são as lutas contra chefes, mais encontradas nas Missões de Assalto. E, amigos, vocês não sabem o que os espera nestas missões. Mas é bem fácil de explicar: inimigos que são esponjas de balas. Ou seja, são chefes, muitas vezes apenas versões maiores de outros inimigos, que não são difíceis de abater, são apenas demorados.

Muito demorados.

E enquanto você perde dezenas de minutos fazendo com que a barra de vida destes chefes baixe, ondas e mais ondas de inimigos vão aparecendo pela fase. Afinal, é a única maneira de realmente deixar a missão difícil.

O que é realmente estranho de toda essa parte cooperativa de Destiny são as decisões da Bungie sobre como e com quem você poderá jogar. As missões do modo história não possuem um matchmaking automático, ou seja, você tem duas escolhas: ou joga com outros amigos, ou encontra um desconhecido vagando pela mesma área que você, chegue perto, aperte o botão R3, escolha a opção “Convidar para o Grupo”, espere abrir uma segunda tela, envie o convite (novamente, para um desconhecido) e espere. Não há maneiras de saber se o tal desconhecido recebeu ou não o seu convite, se ele leu ou não. Você precisa esperar e ver se ele aparece em seu time. Isso em 2014.

Nós já fizemos uma transmissão ao vivo de Destiny que você pode assistir na íntegra

Já para as missões de Assalto, você obrigatoriamente precisa de uma PSN Plus (ou Live Gold, o que já é o normal) e o jogo te coloca automaticamente em um grupo com mais duas pessoas.

Agora o motivo destes dois modos diferentes, que são tão similares, terem dois comportamentos completamente distintos é um grande mistério. Tal qual descobrir se O Orador realmente fala com a bola gigante chamada O Viajante, ou se strippers zumbis têm ou não alma.

Dia do Destino

Outro problema que assola Destiny é a falta de motivo para explorar os seus belos cenários. Mesmo que a beleza em si já seja um motivo para muitos saírem vagando, arrisco em afirmar que a maioria busca uma recompensa palpável. As fases, ou “mundos e lua”, de Destiny são grandes e vazios. Isso pode até ser um simbolismo da decadência interplanetária, mas isso afasta quem procura por algo a mais nas terras estéreis do jogo.

Além da falta de baús de recompensa, existem alguns fantasmas a serem encontrados, mas devido a sua aleatoriedade, a tarefa fica enfadonha rapidamente.

Destiny

Com o objetivo de facilitar a locomoção do ponto A ao B, você ganhará “motos voadoras” que agilizam o percurso. E, meu deus, como a Bungie falhou em não colocar uma missão sequer que utilize destes veículos para algo além de transporte. Inclusive vale um “salve” também para as naves que levam o jogador de planeta a planeta e são usadas apenas para disfarçar telas de carregamento. O único motivo para trocar ou comprar outra é para o jogador mudar um pouco sua tela. Sim, outros jogos já fizeram, mas isso significa que é legal?

Terra do Destino

Como não pode faltar em nenhum shooter AAA, existe o modo competitivo e é ali que Destiny brilha ainda mais pálido.

Passei os últimos dias tentando descobrir em fóruns e vídeos se o modo competitivo é equilibrado de alguma forma, já que o título insiste em colocar os jogadores de níveis desiguais para se enfrentar. Sabem o que descobri? Nada.

Algumas entrevistas com desenvolvedores de Destiny apontam respostas vagas sobre o equilíbrio do modo competitivo. Mas apenas jogadores com a mesma dúvida que eu conseguiram apontar alguma luz sobre o assunto.

O que fica claro é que o dano das armas é igualado, não importa o nível da arma que você use. O mesmo acontece com seus pontos de defesa. Legal, né? Pelo menos você continua com a sua mesma arma e roupa que levou horas para conseguir no modo história. Então, “cosméticamente falando”, isso é bem maneiro.

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Mas… Com níveis diferentes, cada classe ganha poderes diferentes. Além disso, Destiny também permite a evolução própria de cada arma, sendo que as evoluídas acabam recebendo atributos e efeitos diferentes. Por exemplo: eu e você, caro leitor, podemos usar o mesmo tipo de arma. Digamos que você seja um camper como eu (tudo bem, eu já aceitei o estigma) e nós dois usamos um rifle de precisão. Pela lógica do jogo, os dois deveriam dar o mesmo dano, certo? Mas se o meu rifle tem uma evolução que digamos deixa ele mais rápido de recarregar, ou tenha um efeito de penetração maior, eu terei vantagens que você não tem. O que acontece é que o dano base é o mesmo, mas todas essas qualidades a mais estão para o meu lado. Ou seja, deixa de ser uma disputa de habilidade e vira uma lambança.

Na prática, a ideia de balancear o dano e a defesa não funciona, pois quanto maior o nível do jogador, maior a gama de poderes e armas com mais qualidades.

Resumindo: o multiplayer está quebrado.

Ah sim, e já falei que os Arcanos são os mais fortes, com poderes de dano em área superiores a qualquer outra classe?

Diário do Destino

Destiny parece um jogo incompleto. Algo que funcionaria muito bem como um “freemium” ou até mesmo um jogo de assinatura. Assim a Bungie poderia justificar todas as lacunas – de história, de problemas nas mecânicas, de modos de jogo – como “algo sendo construído”. Quando ela vende um jogo claramente inacabado como uma experiência fechada, e ainda cobrará por DLCs, isso só torna a coisa ainda mais injusta.

Mas é necessário apontar a gratificação do combate de Destiny e relembrar que sua trilha sonora são pontos muito fortes. Seja ao abater um inimigo, ao coice da arma e até mesmo o “tato” nos disparos realizados, é difícil não gostar da mecânica do jogo e ela, junto da orquestra que te leva pelas missões, acabam por segurar boa parte do título.

Só que o fato da história acabar bem antes do level máximo (atualmente level 30) e obrigar o jogador a repetir as mesmas fases apenas com inimigos capazes de absorver mais dano só torna a experiência ainda mais desanimadora. E liberar o modo Raid (missões cooperativas com seis jogadores) apenas no level 26 – alcançável apenas com itens específicos que são derrubados aleatoriamente por inimigos – foi o último prego para Destiny.

Análise - Destiny
Destiny é um show sensual de luzes e som que esconde uma casca sem vida. Ele até tenta te cativar com mecânicas recompensadoras e belas músicas orquestradas, mas sua repetição e falta de inspiração acabam com sua diversão.
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