Gabriel Knight teve um papel importante na minha formação e identidade. Embora eu tenha tido um envolvimento maior com o terceiro jogo da série, o estilo e qualidade de narrativa da Jane Jensen, sua autora, está presente em todos seus jogos – inclusive os mais recentes, como Gray Matter e Moebius. Até hoje, é difícil pensar em títulos que carreguem suas marcas: o desenvolvimento cuidadoso de personagens e arcos dramáticos e as tramas conspiratórias calcadas na realidade, carregadas de pesquisas históricas e geográficas e repletas de enigmas minuciosamente elaborados.

Apesar da abordagem sobrenatural, a série ficou conhecida nos anos 90 pela forma madura e inteligente de nos envolver em histórias sobre religião, arte, mitologia e ciência, o que, na minha adolescência, me influenciou a querer entender mais profundamente sobre tais assuntos – templários, história das religiões, paganismo e movimentos artísticos. Sua trilha sonora marcante me motivou a estudar piano. Como um todo, a maturidade de Gabriel Knight me tornou um jogador mais exigente.

Com tudo isso, é claro que o lançamento de um remake comemorativo de 20 anos de Gabriel Knight: Sins of the Fathers é algo muito especial para mim. Embora não tenha avançado muito no jogo original, por não dominar tão bem o inglês na época em que joguei, em meados de 1996 – ao contrário de Gabriel Knight 3: Blood of the Sacred, Blood of the Damned, que foi lançado com legendas em português em 1999 – me lembro da sensação de medo que ele me despertava, talvez por não entender muito bem, na ingenuidade cristã dos meus 12 ou 13 anos (antes de me considerar ateu), por que eu estava vendo imagens da Virgem Maria em um jogo sobre rituais africanos. Eu não sabia o que era sincretismo e provavelmente não tinha ouvido falar em New Orleans, mas conseguia identificar alguma relação com o candomblé ou umbanda.

Vinte anos depois, tendo acumulado conhecimentos e experiências em minha vida, jogar o remake de Gabriel Knight, que em sua estutura é uma cópia conforme do original, com atualizações primariamente estéticas, consegui perceber uma coisa: eu (nós) era(mos) realmente muito ingênuo(s). A trama adulta e religiosa de Sins of the Fathers, um romance sobrenatural sobre descoberta espiritual e comprometimento, podia ser considerada controversa na época de seu lançamento original, quando videogames ainda eram vistos pela sociedade como brinquedos inofensíveis, sem as aspirações artísticas da literatura ou do cinema. Com o amadurecimento da linguagem (que, ironicamente, teve contribuição direta de Gabriel Knight), sua trama hoje é apenas boa ficção.

Em 1993, dono de uma pequena loja de livros raros na Rue Bourbon, localizada no famoso French Quarters, bairro de influência francesa de New Orleans, Gabriel Knight é um escritor à beira da falência. Perturbado com pesadelos recorrentes, Gabriel se vê inexplicavelmente interessado em entender uma estranha série de assassinatos e sua relação com rituais voodoo, com o intuito de escrever um novo romance.

Embora a interface tenha sido atualizada, juntamente com os gráficos, músicas e dublagens – perdemos as excelentes dublagens de Tim Curry, como Gabriel, e Mark Hamill como o detetive Mosely, que felizmente foram substituídos por novos e competentes dubladores -, em essência, trata-se da mesma experiência do jogo original. E, sabendo da qualidade de sua narrativa, isso não é um problema.

Gabriel Knight: Sins of the Fathers é aquele tipo de adventure oldschool, que envolve coletar, carregar e combinar dezenas de itens e esgotar possibilidades de diálogos para fazer a história progredir – algo que na maior parte do tempo ocorre com naturalidade, sem que você precise quebrar a cabeça para saber o que fazer em seguida. “Na maior parte do tempo” por que não é como se isso não fosse acontecer, mas caso você se sinta travado, você pode acessar o diário de Gabriel, onde, além de comentários, textos e desenhos de produção das duas versões do jogo, há anotações sobre seu progresso.

Ali o jogo também libera, esporádica e contextualmente, dicas sobre o que fazer em seguida, sem nenhum tipo de penalidade ao jogador. Ainda assim, em certos momentos, me peguei usando walkthroughs na internet – o que considerei parte da experiência, uma vez que não acredito ter terminado algum adventure clássico sem recorrer a eles vez ou outra. Mais curioso ainda: usei walkthoughs do jogo original, e funcionaram.

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Normalmente as ações de Gabriel, apresentadas com o clique sobre o objeto ou personagem a ser interagido, são contextuais, e do tipo clássico, como usar, observar, falar, pegar etc. Tal como o original, isso dá margem à diversas possibilidades que incrementam a narrativa e mostram o tom sarcástico e ligeiramente machista de Gabriel, que ajudam na construção do personagem e sua vindoura redenção. Há, inclusive, como no original, uma narradora, dotada de um carregado sotaque sulista dos EUA, que se encaixa perfeitamente com a rica atmosfera de Louisiana.

Os cenários, que ganharam um tratamento mais realista, impressionam pelo grau de detalhamento e fidelidade à New Orleans – uma característica dos jogos de Jensen. Embora os comentários da narradora ou de Gabriel a certos itens que pudessem ser pequenos demais para terem seus detalhes notados na diminuta resolução de 320×240 do jogo original fossem úteis, no remake eles acabam sendo desnecessários. Afinal, se eu consigo ver claramente as caracterísitcas visuais de um objeto, uma descrição em áudio sobre ele acaba sendo apenas redundante. Mas essa é uma das únicas exceções em que a fidelidade do remake ao jogo original acabou não o beneficiando diretamente.

gabriel-knight-1Uma das coisas mais notáveis do jogo original que continua tão marcante no remake é sua estrutura narrativa, dividida em dez dias numerados e inteligentemente amarrados pelo jornal local diário, recebido todas as manhãs por Grace Nakimura, a única funcionária da pequena livraria de Gabriel. Durante a manhã de cada dia, o jogador lê (se quiser) a notícia de capa, geralmente relacionada aos eventos a serem realizados naquele dia, e o horóscopo, que com seu tom sempre pessimista e apoteótico, reflete a tensão e os perigos que estão por vir.

Com sua escrita inteligente, Jensen nos guia por diferentes situações, equilibrando o suspense e terror típico de thrillers investigativos com muito bom humor. Coisas como invadir a sala de um padre e se ver obrigado a dar conselhos a pessoas anônimas em um confessionário ou confundir uma intervenção divina com um aspirador de pó mostram o talento de Jensen em levar uma história para diferentes (e muitas vezes inusitadas) direções durante seu desenvolvimento, sem prejudicar sua estrutura – pelo contrário, apenas enriquecendo-a.

Muito disso envolve, naturalmente, a resolução de puzzles de diferentes graus de complexidade. Enquanto alguns se resumem no tradicional usar item X em lugar Y, outros demandam coisas mais trabalhosas, como analisar um poema em alemão ou decodificar um código voodoo para forjar uma mensagem no túmulo de Marie Laveau. Embora eles demandem muita dedução e associação, nem sempre eles são muito claros, o que pode ser um pouco frustrante. Mas, mesmo que você use algumas dicas do jogo, solucioná-los é quase sempre gratificante.

Talvez as maiores falhas de Gabriel Knight: Sins of the Fathers 20th Anniversary Edition sejam as técnicas. Durante meu jogo me deparei com dois bugs que, se não fosse pelo meu costume de salvar meu progresso em diferentes arquivos, eu não teria conseguido dar continuidade a ele. Coisas como objetos importantes que, se não são notados ou pegos na hora, desaparecem para sempre, podem acontecer, caso a Phoenix Online Studios ainda não os tenha corrigido. Vez ou outra, os personagens andam de maneira ridiculamente desengonçada ou atravessam uns aos outros, o que ao menos rende algumas boas risadas não intencionais.

Apesar dos pequenos tropeços técnicos, o remake de Gabriel Knight: Sins of the Fathers é uma grande conquista – este vídeo, com comparações entre as duas versões e declarações dos criadores de Broken Sword e The Longest Journey reforça isso. Ele não apenas teve o envolvimento direto de seus criadores (Jensen e seu marido Robert Holmes, novamente responsável pela impecável trilha sonora) como foi inteiramente criado por fãs assumidos do original, a equipe independente da Phoenix Online Studios, cuja paixão foi suficiente para convencer a Activision, detentora dos direitos autoriais da série, a permitir a recriação do clássico, mesmo que com um orçamento pífio – os US$ 435 mil adquiridos via Kickstarter, que foram divididos entre Moebius e o remake Gabriel Knight.

Análise - Gabriel Knight: Sins of the Fathers 20th Anniversary Edition
Independentemente de seu contato com a série ou com adventures clássicos, Gabriel Knight: Sins of the Fathers 20th Anniversary Edition é um jogo que merece ser jogado. Não pela nostalgia, ou mesmo pelo valor histórico do original para os videogames, mas sim pela sua capacidade de nos envolver em uma longa e inteligente trama, digna de bons romances, sem subestimar a inteligência do jogador ou pegá-lo pela mão. Gabriel Knight é e sempre será um exemplo da poderosa confluência entre videogames e narrativa.
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  • Ricieri Ferreira de Paula

    Igual a você, esse jogo foi muito importante pra mim. Foi o 2º jogo de adventure que joguei no pc, o primeiro foi Torin’s passage (saudades Sierra…rs) que veio com o computador, mas a pegada era outra. Também não entedia muito bem o inglês, mas na base do bumba-meu-boi e um dicionario pra ajudar, cheguei até um pouco antes da cena do crime do primeiro dia…rs
    O que me barrou foi justamente aquele maldito mimico da praça, eu tinha que levar ele até o policial, depois dele distrair o policial vc usava a moto pra saber onde era a cena do crime. Anos depois, sim ANOS…rs eu soube disso e retomei o jogo, tive uns desafios mais pra frente e alguns venci sozinho, outros não e também usei walkthrough…rs paciência.
    Mesmo tendo esse aproveitamento bem lento, virei fã da serie desde o primeiro jogo. Depois com muito custo consegui adquirir o GK2 legendado em PT-BR, isso há uns 10 anos. Joguei também o 3º até antes do 2º, pena que no 3º tem uma falha na legenda BR bem no final do jogo…rsrs mas tudo bem, consegui entender bem.
    Estou bem curioso e empolgado pra testar esse, quando joguei o primeiro eu tinha uns 12~13 anos e nunca mais, jogar agora acho que vai dar outra percepção.

    • Heitor De Paola

      Porra, grande Torin’s Passage. Acho que tenho até a caixa guardada até hoje em casa (sei que o jogo tenho com certeza).

      • Fabiano

        Heitor devia aparecer no Acumuladores, da Discovery. Tenho a impressão que todo jogo de PC dos anos 90 você ainda tem guardado na caixa kkk

  • Marcus Roberto

    Vi o game essa semana no Steam e prontamente o adicionei à minha lista de desejos. Nunca joguei Gabriel Knight, mas sempre ouvi relatos e menções ao jogo. É simplesmente uma daquelas obras que você sabe que é importante mas que você deixou passar. Adoro games com uma história envolvente e esses novos gráficos estão maravilhosos . Não tenho desculpas para não jogar essa nova versão (que será minha primeira).

  • Victor Domiciano

    Saiu uma versão do Broken Sword para o Vita – alguém sabe se ela tem a mesma qualidade dos antigos?

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