Desde Link: The Faces of Evil, Zelda: The Wand of Gamelon e Zelda’s Adventure para CD-i – e que fora para darmos risadas podemos desconsiderar completamente – que a série The Legend of Zelda não vê uma entrada tão diferente quanto Hyrule Warriors. Por mais que a franquia tenha visitado ambientações inusitadas, como ter colocado Link como maquinista de um trem ou em aventuras focadas no multiplayer de Four Swords Adventure, o trabalho da Omega Force explorando as terras de Hyrule é o que mais se destaca dentre todos esses.

O motivo disso está no gênero do jogo, que se distancia dos elementos de RPG e exploração esperados, focando-se puramente em combates. A Omega Force é o estúdio por trás de Dynasty Warriors e Samurai Warriors, títulos chamados de  Musou, que colocam os jogadores na pele de figuras muito poderosas, capazes de derrotar centenas de soldados inimigos em questão de minutos enquanto cumprem objetivos no campo de batalha, como resgatar um aliado em perigo ou tomar para si uma base.

Essa mudança significa que é muito mais necessário você ter interesse nesse gênero do simplesmente em Zelda para achar bom o que é oferecido aqui. Gostar de Link e cia não é o suficiente para tirar proveito de Hyrule Warriors, ao mesmo tempo que uma pessoa que se interessa por Samurai Warriors não verá muito valor nesse novo jogo se não se interessar pelas histórias que giram em torno do Triforce. Hyrule Warriors apela para uma interseção de público bem específica e provavelmente não muito grande. Mas, se você pender para ela, há muito de positivo a ser encontrados neste trabalho da Omega Force.

Hyrule Warriors

Hyrule Warriors

Antes de mais nada, é preciso reconhecer algo: por mais que goste periodicamente deles, jogos ao estilo Musou são meio estúpidos. Tirando algumas poucas exceções, o gênero não pede por muita atividade cerebral; basta correr em direção aos exércitos inimigos e apertar diferentes combinações de ataques fracos e fortes, o que resultará em golpes vistosos e espetaculares, levando centenas de oponentes a caírem aos seus pés rapidamente. É um que faz com que nos desliguemos do resto do mundo sem demandar muito do jogador, propício para se ouvir um podcast ou conversar com outra pessoa enquanto ele é jogado. Compreensivelmente, isso leva muitos a considerá-lo tedioso, já que a ausência de pensamento estratégico e tipos limitados de missões faz com que ele seja repetitivo. Enquanto eu não discordo completamente disso, vejo algo de valor na proposta, algo parecido com o que obtenho de Diablo ou Borderlands, de usar esses jogos quase como um catalisador para relaxar, na verdade utilizando o tempo para pensar mais em outras coisas do que naquilo que estou jogando em si.

Dito isso, Hyrule Warriors é um Musou especialmente bom, com modalidades secundárias interessantes, cenários variados e diferentes extras a serem buscados dentro de cada uma das fases. O maior atrativo dele é a possibilidade de visitarmos ambientes conhecidos de outros jogos da série Zelda, como a Death Mountain e a Lost Woods, vendo-os sob uma nova perspectiva, e o de utilizar em lutas personagens deste universo que antes foram só relegados a papéis secundários. Figuras amadas pelos fãs como Midna, ou presenças que se mostraram diversas vezes mais sábias e fortes do que Link, como Impa, finalmente têm a chance de serem o foco das atenções. Até mesmo Zelda, Sheik e Ganondorf, que podem ser utilizadas em alguns Smash Bros., nunca foram tão poderoso e grandiosos em lutas. Controlar esses personagens e ver seus diferentes combos, que mudam de acordo com o tipo de arma equipada, é uma recompensa por si só, o que fez com que eu me sentisse motivado a continuar jogando mesmo depois de ter terminado o modo principal, apenas para vê-los ficarem mais fortes e adquirirem novas habilidades e equipamentos.

Hyrule Warriors

Hyrule Warriors

Isso é incentivado também pelo quão diferente é o comportamento de cada um dos heróis no campo de batalha. É verdade que, no fim das contas, o resultado é sempre o mesmo, de termos muitos inimigos morrendo simultaneamente, sem que nenhum deles sozinho dê trabalho. Mas as animações dos golpes não possuem nenhuma similaridade entre si, então sempre há um frescor quando um personagem diferente é selecionado em uma nova fase. Até mesmo Lana, criada para Hyrule Warriors, é interessante de ser utilizada, apesar de ser mais sem graça quando comparada às figuras que acompanhamos em outros jogos há tantos anos. É só uma pena que Hyrule Warriors não oferece uma gama muito vasta de heróis para serem controlados, ainda mais quando colocado ao lado de outros títulos do gênero. Entretanto, os personagens que você mais quer ver estão todos ali, o que compensa a pequena quantidade. Ainda assim, fica a torcida aqui de que no futuro tenhamos a chance de controlarmos Tingle nessa situação de guerras.

Enquanto os inimigos normais não oferecerão trabalho, existem algumas exceções que quebram a rotina o suficiente para que ela não caia na mesmice. Primeiramente, existem oponentes um pouco mais poderosos (normalmente possuidores de uma barra de vida) que não tomarão nossos golpes tão facilmente. Esses são mais propensos a se defender e esquivar de nossas investidas, pedindo um pouco mais de cautela. Caso nós consigamos fugir de ataques deles, um escudo, representando seu ponto fraco, aparecerá, expondo-os à possibilidade de grandes danos. Isso dá um caráter mais estratégico às batalhas, mesmo que surjam de forma mais pontual, mas o suficiente para pedir do jogador um pouco mais do que o apertar repetidamente dos mesmos botões. Os chefes, por sua vez, também proporcionam isso, porém de forma elevada, e necessitam de itens específicos para serem derrotados. Esses itens são os clássicos da série, como bombas, flechas e bumerangues, e a utilização deles (como jogar bombas na boca de Dodongos) não será mistério para ninguém que já tenha passado por outras aventuras da franquia.

Há algo de libertador em se poder usar esses artefatos de forma desinibida, sem a preocupação de ficarmos sem bombas ou flechas para um momento-chave ou um enigma. No entanto, a eficácia deles em combates normais (leia-se: fora dos chefes) é bem limitada e eu nunca encontrei uma situação em que fosse mais vantajoso, digamos, utilizar o hookshot do que simplesmente atacar com as espadadas de Link. Teoricamente, certos tipos de vilões mostrarão suas fraquezas mais facilmente com o uso desses objetos, mas eu não achei uma forma de consistentemente explorar isso.

Além da modalidade principal, que tem uma boa duração, destrava novos lutadores e conta uma história feita para Hyrule Warriors, criando motivos para que as terras de Ocarina of Time, Twilight Princess e Skyward Sword sejam visitadas, o modo Adventure também me agarrou por umas boas horas. Nele, exploramos o mapa do primeiro The Legend of Zelda, em que cada quadrante contém uma missão singular. Estas variam não só em objetivo como também em condições, como fazer com que nossos golpes e o dos inimigos matem quem for atingido instantaneamente. Junto a isso, esses quadrantes oferecem como recompensa itens para serem utilizados no próprio mapa, como braceletes de força, velas, bombas e bússolas. O uso deles revela segredos dentro de cada um desses segmentos, que se traduzem como tesouros adicionais que podem ser obtidos nessas várias missões. É dessa forma que muitas das armas adicionais e personagens são destravados.

É verdade que isso alonga a duração do jogo de forma um pouco artificial, já que acaba sendo necessário refazer alguns quadrantes mais da uma vez para se conseguir mais bússolas, por exemplo. Mas coletar os itens necessários para se destravar tais segredos foi bem divertido, especialmente pelo mistério em torno do que eles seriam. É também válido o fato de que essas missões são mais variadas e desafiadoras do que as presentes no modo principal (ao menos na dificuldade normal), o que ajudou a deixar tudo constantemente mais interessante.  Por último, novos segmentos são abertos de acordo com a nota obtida ao final da missão, e algumas delas só podem se jogadas com certos personagens. Assim, há um incentivo para se utilizar todo o rol de figuras presentes.

Por mais recheado que Hyrule Warriors seja, nada muda o fato de que será impossível aproveitar isso se a mecânica principal, de correr em campos abertos e na maior parte do tempo apertar repetidamente os mesmos botões sem pensar sobre isso, não for do seu interesse. Ele ainda se trata de um Musou, um gênero raso em muitos aspectos e que com certeza, apoiado por muitas razões, não é para todos. E, enquanto eu reconheço o quão limitado o estilo é comparado a outros, ele ainda assim me agrada, e como resultado o tempo que passei com Hyrule Warriors foi muito proveitoso. Dificilmente lembraremos deste jogo como parte do cânone de Zelda, porém esse é com certeza o melhor Musou que já joguei até hoje.

Análise - Hyrule Warriors
Hyrule Warriors pede que você tenha um gosto específico, ser fã tanto da série Zelda quanto de jogos ao estilo Musou, como Dynasty Warriors e Samurai Warriors. Trata-se de uma interseção não muito grande , porém, se você se enquadrar nela, encontrará muitos motivos para gostar de Hyrule Warriors.
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