O Sheol na religião judaica é o lugar de purificação espiritual ou punição. É para onde todos que morreram vão e lá é onde descobrem se vão para Olam Habá (Céu) ou se serão destruídas por serem muito más. No catolicismo, o Sheol é representado mais como uma “sala de espera” para a ressurreição, as almas lá esperam em conforto ou em agonia dependendo do que fizeram em vida. Não sou religioso, mas gosto da alegoria de que Assassin’s Creed Unity está no Sheol e ele foi jogado lá pelos “pecados” feitos por Assassin’s Creed: Revelations e Assassin’s Creed III.

Mesmo não sendo o maior fã de comparar os jogos, Unity é uma cria direta da sua série, tornando a tarefa de avalia-lo em seus próprios termos algo quase impossível. É como tentar falar de O Poderoso Chefão II ignorando o primeiro.

Sobre o que é Assassin’s Creed? História ou mecânicas? Pergunto isso porque eu já não sei mais. E a bem da verdade é que não importa muito, Assassin’s Creed Unity falha na história e suas mecânicas não possuem nada de excepcional.

Assassins Creed Unity

Requiescat in pace

Parece que a Ubisoft está tentando se desvencilhar dos grilhões da história da série Assassin’s Creed com Unity. O “presente”, que antes era uma constante que, mesmo sabendo não ser necessariamente bom, me agradava. Eu sempre curti a ideia de memória genética e como as ações dos ancestrais afetavam diretamente o presente. Fazendo o jogador se sentir meio como um detetive capaz de viajar no tempo, visitar épocas e representações incríveis de cidades antigas.

Mas com o fim da saga de Desmond, a franquia claramente se perdeu no quesito história. Em Unity a ligação com o presente é praticamente inexistente, se tornando muito mais chata do que algo necessário para o entendimento do que acontece naquele universo.

Você é um jogador de um game feito pela gargantuesca corporação Abstergo. Porém, no meio de uma partida controlando Templários, hackers do grupo de Assassinos invadem sua sessão e te recrutam para a sua causa. E o problema já começa aí, em menos de 20 minutos de jogo: não existe uma motivação sequer para você aceitar entrar para o lado dos Assassinos que não seja um “confie que nós sabemos o que estamos fazendo”.

Por não mostrar quem você é no presente, sua história ou mesmo motivações, Unity quer emular que o jogador deste game da Abstergo é você mesmo, na vida real. E que você automaticamente sabe que os Assassinos são legais e os Templários não. A Ubisoft acredita piamente que ela fez um bom trabalho nos jogos passados da franquia em mostrar como os Assassinos são legais, logo, o jogador possui uma vontade inerente de querer ser um assassino. O que é um erro.

Assassins Creed Unity

Apesar de achar a história do universo Assassin’s interessante, nem de longe os Assassinos parecem ser detentores da verdade absoluta e bondade encarnada. Começa que eles mesmo são… Err… Assassinos. E desde o primeiro jogo da série fica bem claro o quão fácil é manipular um assassino e fazer ele matar uma galera que, na real, estavam fazendo coisas legais para o mundo.

E esse sentimento de que os assassinos, na verdade, são uns babacas na maior parte do tempo só se intensifica em Unity. Arno Victor Dorian, controlado pelo jogador, é um órfão que quer vingar a morte de seu pai biológico e de seu pai adotivo. É apenas uma coincidência que os Assassinos foram os primeiros a oferecerem os meios para isso e fica claro bem rapidamente que Arno (nem eu) não abraça os ideais assassinos. Primeiro porque os assassinos são contra a Revolução Francesa – período no qual a monarquia absolutista foi derrubada e o famoso Liberdade, Igualdade e Fraternidade foi erigido em seu lugar. Segundo porque você mata pessoas sem nem mesmo saber o motivo para tal, sendo que várias vezes eu simplesmente queria pedir desculpas por ter esfaqueado um cara que só queria o bem do povo francês. Não são poucas as vezes que após matar um líder templário que é pintado como um possível déspota esperando seu lugar no poder, durante a sua “confissão moribunda”, fica claro que, na realidade, é ele quem estava lutando por um bem maior enquanto os assassinos agem de maneira mesquinha, tentando proteger interesses arcaicos.

Unity parece querer, e te obriga a querer também, que Arno se torne o novo Ezio (protagonista de Assassin’s II, Brotherhood e Revelations), mas o personagem simplesmente não tem carisma. Não ainda, pelo menos. As motivações dele são mesquinhas até o final do jogo, ao contrário de Ezio, que começa atrás dos templários que mataram sua família, mas rapidamente entende o ideário Assassino e se torna um protagonista não apenas na história do grupo, como da própria história humana. Arno é só um mimado que não respeita ordens (mas em sua defesa, os superiores são uns bunda-moles que além de medrosos, não tem a menor ideia do que estão fazendo).

É preciso notar que o par romântico de Arno, Élise de la Serre, é uma personagem interessante, mas extremamente mal aproveitada. A Ubisoft viu que poderia ter problemas ao apresentar uma “dama em perigo”, então a fez forte e capaz, porém, com uma motivação tão pífia quanto a de Arno, colocando a personagem em perigo não por ser mulher, mas por ser tão burra e impulsiva quanto… Arno.

Mais:
Assista nosso Shuffle de Assassin’s Creed Unity

Mas nem tudo é ruim na história: existem algumas partes do jogo no qual você é obrigado a fazer um “pulo” no tempo para desviar da vigilância da Abstergo, o colocando na Paris medieval e na Paris invadida por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. E essas partes, amigos, não são ruins, são péssimas. Elas só servem para um desejo estético estranho dos designers de Unity. A função mecânica é quase zero, sendo capaz de colocá-lo para controlar metralhadoras montadas para derrubar aviões ou desviar de perigosos pedregulhos teleguiados. Para a história do jogo faz ainda menos sentido, não há impacto real em nada do que você ou Arno estão passando.

O amigo da vizinhança, Homem-Assassino!

O que a história de Unity falha, as mecânicas tentam salvar. Ou melhor, a mecânica de escalada consegue não ser a pior da série. A navegação vertical está aprimorada, sendo rápido subir e descer de praticamente qualquer superfície, tornando Arno quase em um Peter Parker vitoriano (de nada, Ubi).

Essa evolução da escalada já dava dicas em jogos anteriores, mas em Unity ela já se desprendeu das leis da física e te deixa fazer uma caminhada pelas paredes até Arno alcançar alguma fresta – que muitas ela claramente nem existe.

Descer de algum lugar também parou de pedir três vias autenticadas em cartório, comprovante de renda e comprovante de votação. Com um segurar de botão você faz Arno descer rapidamente de um ponto alto, mas de uma maneira inteligente, não apenas se jogando e morrendo (que será sempre a maneira mais rápida de descer de algum lugar, eu sei).

Mas o que Unity acerta na navegação, erra completamente no combate e mecânicas de compra de itens. Se nos jogos passados você já não curtia o combate por ser automático e raramente desafiador, o tornando mais num empecilho ao jogo do que uma qualidade, em Unity você vai fugir dele por sua vida depender disso.

Parece que a Ubisoft só escutou a parte “tá fácil demais” das reclamações. Agora você precisa de um timing perfeito para rebater ataques e seus contra-ataques raramente matam os inimigos de primeira. Além disso, cansei de ser morto devido a ataques que chegaram de cantos imperceptíveis.

A vida inicial de Arno também não é muito convidativa para o embate, e eu até entendo essa parte (ele tá começando no ramo das mortes, não manja dos paranauê ainda), mas quando o jogo o coloca em tantas situações de combate direto logo de cara, isso só torna a escalada rumo à capacidade de enfrentar três inimigos simultaneamente algo enfadonho e repetitivo.

Eu poderia estar matando…

Quando você superar todas essas coisinhas chatas, ainda terá de enfrentar o confuso sistema de transações comerciais do jogo.

O sistema de moedas de Assassin’s Creed Unity é uma coisa tão dantesca e confusa que chegou ao ponto de eu ter de buscar um guia para entender para o que servia cada uma das quatro “moedas” do jogo. Pensando nisso, fiz um resumão:

– Livres
Como recebe: Moeda local que você consegue revistando corpos, abrindo baús e completando missões.
O que compra: lojas e equipamento

– Sync Points
Como recebe: Missões do single e multiplayer.
O que compra: novas habilidades e boosts para o seu personagem. Nota: você não receberá Sync Points o suficiente durante a história single do jogo para comprar toda a sua árvore de habilidades.

– Creed Points
Como recebe: através de mortes furtivas, tiros na cabeça e outros eventos de combate mais “plásticos”.
O que compra: melhoramentos de armas e sobe o nível do seu personagem dentro do seu clã.

-Helix Points
Como recebe: você precisa usar o seu dinheiro real para comprar os pacotes de moeda virtual.
O que compra: quase tudo, inclusive os pacotes de “poupa tempo”, que colocam no seu mapa ícones de missões secundárias e colecionáveis – coisas que você consegue simplesmente subindo nos Pontos de Visão e fazendo a sincronização com eles, ou, veja só que estranho, simplesmente jogando o seu jogo.

O problema não é apenas a quantidade de moedas, mas também a falta de explicação do jogo para deixar claro como receber e onde você gastará cada uma delas. Aliás, falta de explicação é o que mais permeia Unity.

Assassins Creed Unity

E a moeda Helix é mais representativa de um problema da Ubisoft do que simplesmente uma maneira boba de tentar ganhar mais dinheiro: quando você coloca dentro do seu game uma maneira que permite que o jogador jogue menos, isso mostra a sua falta de confiança no conteúdo final, dá a impressão que nem mesmo a Ubisoft acha que vale a pena você jogar tudo para ir desbloqueando os segredos do mapa. Eu quase escuto um executivo da Ubi falando: “Aqui, eu sei que é chato pra caceta ficar subindo nessas torres, mas o meu chefe mandou fazer essas coisas e em uma quantidade retardada, então fazemos assim: você molha a minha mão e eu te deixo passar mais rápido, fechô?”

Outro exemplo é o modo Initiates, que funciona meio como um companion app e perfil único do mundo de Assassin’s Creed. Ele puxará o perfil de seus outros jogos e permitirá que você coordene seus “assassinos iniciantes” os enviando para missões. Algo que já é feito há tempos na série, mas decidiram colocar em um aplicativo separado em Unity sei lá por qual motivo.

Tudo isso só contribui para um sentimento eterno de “mas… Para o que serve isso?” que me acompanhou do começo ao fim do jogo. Algo como o meu colegial inteiro.

Joga junto

Assassin’s Creed Unity matou o multiplayer competitivo, o famoso “esconde-esconde com facas”, para dar lugar a um modo cooperativo quebrado que depende diretamente da boa vontade de seus companheiros (spoilers: a maioria das pessoas na internet não quer cooperar).

Além de calcar a diversão em uma qualidade que não é inerente ao ser jogador, o cooperativo falha ao não oferecer conexões estáveis entre os jogadores. Ou seja, não são raras as missões que você morre para um inimigo invisível (ele não carregou só no seu jogo), ou seus colegas sumindo e reaparecendo a prédios de distância de você ou mesmo acabando a fase sem você nem ter entrado na sessão.

Apenas em um cenário específico o cooperativo funcionou: quando você limita suas escolhas às fases que só permitem dois jogadores simultâneos. Aparentemente o baixo estresse de conexão entre duas pessoas é o único que o jogo aguenta para tornar a experiência minimamente agradável.

Assassin’s Creed Unity está perdido e até tenta se redimir entregando belos gráficos, uma cidade gigantesca e uma melhoria na navegação vertical. Mas a sua alma está presa no Sheol, eternamente açoitada por pecados passados (história mais-ou-menos, mecânicas repetitivas, combates enfadonhos) e não enxergo uma saída tão cedo. Uma pena, já que dos AAA a franquia é uma das que possui o toque único de recriar cidades vibrantes e contar com um dos universos mais interessantes.

Análise - Assassin's Creed Unity
Assassin's Creed Unity continua a saga repetitiva e enfadonha de sua série. Sem nenhum suspiro de criatividade, um abandono completo da narrativa e mecânicas apenas satisfatórias, o jogo coloca uma mancha na estreia da série na nova geração.
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