Análise – Call of Duty: Advanced Warfare

Familiar, porém fresco. Esse difícil equilíbrio, cujas partes são na maior parte das vezes excludentes, foi um atingido pela Sledgehammer Games em Call of Duty: Advanced Wafare, primeira empreitada do estúdio nesse universo. Aqueles que já jogaram outras entradas da franquia se sentirão imediatamente confortáveis com os controles e com a sensação das armas, mas encontrarão uma nova profundidade, um novo jeito de encarar os confrontos. Por mais que o nome pareça querer implicar algo nessa veia, o jogo não chega a revolucionar o gênero como Call of Duty 4: Modern Warfare o fez em 2007, mas representa a maior mudança que Call of Duty teve em seu multiplayer desde então.

Isso ocorre devido ao uso das chamadas Exo Suits, uma espécie de exoesqueleto que confere habilidades aumentadas àqueles que as utilizam, como saltos maiores, pequenos voos, maior força etc.

Na campanha isso se traduz em uma série de vantagens específicas a cada fase, pré-determinadas pelo jogo, normalmente variando entre um exoesqueleto voltado para o ataque e um voltado para a defesa . O de ataque, que achei ser mais interessante, possui um salto duplo que, além de permitir alcançar lugares mais altos, também oferece um pequeno impulso que pode ser ativado tanto no ar quanto no chão. Isso permite que você escape de situações de perigo mais facilmente, desde que tenha uma noção clara de para onde quer ir. Fazer isso em campo aberto é um risco, pois há um momento após o impulso em que ficamos impossibilitados de nos mexer, nos transformando em alvos fáceis. Dessa forma, Advanced Warfare encontra uma maneira de equilibrar essa alta mobilidade sem nos deixar completamente imunes a tudo, o que entra igualmente como fator no multiplayer, sobre o qual falarei mais em breve. Também é possível ir em direção ao chão rapidamente, aquele ground pound que Mario faz com a bunda há algumas décadas, acertando e matando quem estiver lá, porém eu nunca encontrei uma situação em que isso fosse viável de ser feito.

Call of Duty: Advanced Warfare

Call of Duty: Advanced Warfare

Os exoesqueletos também oferecem vantagens que precisam de bateria para serem usadas, como recuperação de vida instantânea, um escudo portátil e a capacidade de enxergar o tempo correndo mais devagar. A variedade do que lhe é dado a cada novo estágio é interessante, mas eu constantemente me esquecia que esses poderes faziam parte do meu arsenal. Nenhum deles é vital na parte solo; pular, atirar e se esconder é o suficiente para passar de todos os desafios.

Junto disso existem os vários apetrechos futurísticos usados pontualmente em algumas fases. A tecnologia existente  no mundo de Advanced Warfare é chamativa e simplesmente legal de ser vista em ação, como em segmentos em que usamos um gancho retrátil aos moldes do empunhado por Batman ou voamos como o Homem de Ferro em direção a um avião em movimento. Mas, se você se mantém atualizado com Call of Duty anualmente, muito do impacto disso é perdido por conta da existência de Black Ops II, que também se ambientava em um tempo mais avançado do que o nosso e apresentava apetrechos dessa natureza.

Embrulhando tudo isso está uma trama que achei genuinamente interessante no começo (mesmo que tenha um caso de “aperte X para ter sentimentos” que falha completamente), mas que desanda e perde qualquer traço de verossimilhança na sua metade final. Ela nunca chegou a ser ruim o suficiente a ponto de desviar minha atenção dos bons momentos da campanha, porém é uma pena que uma base que poderia ser bem explorada acabe por seguir todos os clichês e caminhos mais óbvios possíveis, tirando qualquer peso que o embate final poderia ter. Não que histórias de Call of Duty sejam dignas de prêmios, mas a impressão é a de que o jogo ativamente não se importa em dar sentido ao que está contando. Ao menos ela serve como desculpa para nos mandar para localidades diversas e com confrontos variados, como um estágio focado em furtividade que funciona surpreendentemente bem, uma guerra em um campo de neve completamente aberto que resultou em um dos momentos mais divertidos que tive com toda a série e a ponte Golden Gate.

Shuffles de Call of Duty: Advanced Warfare:
Shuffle do Single Player
Shuffle do Multiplayer

Apesar da história fraca, a campanha é pontuada por cutscenes impressionantes em seu visual. Se você apertar os olhos é bem capaz que a confunda com um filme, especialmente devido aos detalhes nos rostos dos atores que tiveram sua aparência e movimentação capturada. O destaque fica para Kevin Spacey que está no papel de Jonathan Irons, dono de um exército privado, que tanto dentro quanto fora de cutscenes faz um bom trabalho de atuação. Ele consegue deixar chamativo os discursos que saem da boca de seu personagem, mesmo este seja bem raso. Uma consequência inesperada disso é que este foi o primeiro Call of Duty em que quis as Intels – itens colecionáveis espalhados pela aventura – pois elas destravavam mais elementos de história que em sua maioria envolvem áudios de Kevin Spacey. Alguns contêm vídeos adicionais.

Mesmo não tendo Kevin Spacey, cuja ausência em qualquer coisa é algo negativo, é no multiplayer de Call of Duty: Advanced Warfare que as mudanças trazidas pela Sledgehammer são verdadeiramente sentidas. Todos os elementos de mobilidade estão presentes aqui, o que dá um caráter bem diferente aos embates de jogadores contra jogadores. Ao dar a todos o pulo duplo e a possibilidade de usarem impulsos tanto no ar quanto na terra, o modo como os estágios são encarados muda fortemente. A verticalidade deles passa a ser um fator muito importante a ser considerado e, consequentemente, o modo como alcançamos os objetivos também muda.

O interessante é que, por conta da leve pausa que há após o uso de um impulso, derrotar jogadores no ar é mais simples do que soa, portanto a mecânica não tem como ser abusada. Dito isso, se usada sabiamente, é possível criar momentos muito gratificantes, como o de derrotar um outro jogador quando estamos no meio de um salto, ou de aterrissar perto de dois que estão distraídos, pegando-os de surpresa.

Call of Duty: Advanced Warfare

Call of Duty: Advanced Warfare

Talvez o mais interessante deste período próximo ao lançamento do jogo é que toda a comunidade em torno do multiplayer ainda está se adaptando às novidades implementadas à mobilidade. Até então, por mais que os lançamentos de Call of Duty possuíssem suas diferenças, a base permanecia igual, as habilidade adquiridas em um jogo eram largamente transferíveis para um outro. Pelo menos por agora, isso não se prova verdade o tempo todo, o que confere um caráter de descoberta intrigante ao multiplayer, de desbravamento.

Dessa forma, é difícil dizer se esses aspectos se permanecerão imutáveis indefinidamente, já que o ambiente do modo competitivo está sempre mudando, mas a impressão que se tem por enquanto é que rifles de franco-atirador foram quase que completamente abandonados. Por conta da alta mobilidade, ficar parado em um só local dificilmente é viável, especialmente quando outros jogadores podem vir por cima ou entrar em cômodos por janelas – mesmo que estes estejam no segundo andar -, o que diminui a utilidade da arma; locais seguros,em que você consegue controlar os pontos de entradas são mais raros. Além disso, depois de horas e horas não morri para nenhuma granada, nem consegui matar ninguém as usando, o que nunca acontecia antes. Nem que fosse sem querer, jogando a esmo, eventualmente você pega alguém desprevenido em uma explosão. Como é fácil saltar para segurança o item se torna muito menos nocivo. Como resultado, o que se vê é cada vez menos pessoas as arremessando, pois tê-las equipadas é gastar um espaço que poderia ser dado a um outro equipamento, mais útil.

Call of Duty: Advanced Warfare

Call of Duty: Advanced Warfare

Isso porque a mecânica de montagem de personagens de Advanced Warfare é similar à vista em Black Ops II. Basicamente, existe um número total de pontos que podem ser gastos equipando armas primárias, secundárias, vantagens (perks), killstreaks etc. Assim, se as granadas não se provam eficazes nas partidas, é mais vantajoso retirá-las por completo, dando lugar a um assessório adicional na arma primária, por exemplo. Outra mudanças de algum significado vem na personalização que as killstreaks podem ter. É possível conferir uma característica adicional a elas – como fazer com que a cesta básica (care package) exploda se for aberta por um oponente, por exemplo -, porém isso fará com que seja mais caro conseguir ativar a killstreak em combate.

Infelizmente, atualmente, os servidores do multiplayer estão tendo problemas para acompanhar a ação. Isso não ocorre o tempo todo, pois já tive partidas lisas que rodavam perfeitamente, sem nenhum engasgo. Entretanto, é bem comum que a qualidade delas varie loucamente no meio do confronto, afetando a todos os jogadores presentes.  Além disso, existem períodos em que é simplesmente impossível encontrar qualquer sala com uma qualidade minimamente descente; é mais fácil desistir e tentar novamente em uma outra hora, porque insistir é garantia de frustração. Não é o tempo todo que os problemas aparecem, mas infelizmente não há garantias de que você terá uma boa experiência nas horas que tiver disponíveis para jogar. E, escapando das modalidades Death Match e Domination, é por vezes um pouco demorado encontrar jogadores o suficiente para formar uma partida, o que é uma pena, já que a lista de modos presente em Advanced Warfare é bem completa e variada. O novo Uplink é especialmente divertido e espero vê-lo novamente em jogos futuros da série.

Por último, Advanced Warfare traz uma modalidade cooperativa parecida com a de Modern Warfare 3 (e, infelizmente, nada similar ao Spec Ops de Modern Warfare 2), que é basicamente um Modo Horda. Em diferentes mapas, você e até mais três jogadores deverão enfrentar ondas e ondas de inimigos, que ficam progressivamente mais fortes e variados, vindo na forma de drones, humanos com armaduras mais poderosas e cachorros. De vez em quando, um objetivo extra aparece em cena e se ele não for completo uma punição é dada aos jogadores. No intervalo entre as rodadas é possível correr até lojas e comprar mais munição, armas e habilidades adicionais. A modalidade não faz nada de errado, mas também não tem nada que se sobressaia. Em comparação ao resto de Advanced Warfare, que consegue fazer com que a fórmula desgastada de Call od Duty seja interessante novamente, ela se mostra pouco inspirada.

O cooperativo é descartável, mas isso é só um pingo dentre as outras coisas que Call of Duty: Advanced Warfare faz corretamente. É impressionante que tudo continue familiar – qualquer um que já tenha pego em um Call of Duty saberá exatamente o que fazer com o controle em mãos -, mas ainda assim consiga parecer novo. Não é a reinvenção da roda, mas, no que diz respeito ao competitivo, Advanced Warfare traz a mudança mais significativa para a série em pelo menos cinco anos. Depois de estar cansado dessas mecânicas e quase nem ter olhado para Ghosts, Call of Duty parece ser relevante novamente.

Análise - Call of Duty: Advanced Warfare
Não é a revelação que Call of Duty 4: Modern Warfare foi, mas Call of Duty: Advanced Warfare traz as mudanças mais significativas que o multiplayer da série teve desde então.
4
  • Green ZOMBIE

    Parabéns Heitor pelo ótimo texto e análise.

    Fiquei impressionado como 4/5 do Overloadr e as notas dadas pelos demais sites especializados.

    Joguei todos os CoD’s, ainda não tive a oportunidade de jogar este Advanced Warfare.

    Realmente o mais impactante foi CoD4 e atingiu seu ápice no MW2. Em seguida começou a queda iniciada pelo Black Ops, o famigerado MW3, o repaginado BO2 e o fraquíssimo Ghosts (usou do nome do personagem como caça-níquel). Disse a minha pessoa que não compraria mais Call of Duty depois de Ghosts, pois desde a Infinity Ward original (hoje Respawn Entertainment) não apresentava algo consistente e individual capaz de cravar seu nome na história da franquia. Mas aí vem este Advanced Warfare, e me deixou com um pulga atrás da orelha.

    Analisando o game pela Internet vejo que este AW abusa do que todos os CoD’s (e outras franquias) tinham de melhor e acrescentou gráficos de Next Gen para agradar os mais reclamões: o sistema de Pick-13 (BO2), customização de personagem (Ghosts), Gameplay frenético (MW2), Modo Suvival (MW3), Scorestreak (BO2), Menus (BO2). E ainda vejo muita referencia de Robocop, Terminator, Crysis, Elisyun, No limite do Amanhã, Killzone, Halo, Destiny, Titanfall…

    Seria esta aceitação por parte do publico e da mídia um reflexo da concorrência não conseguir lançar algo à altura ou superior de CoD? Ou realmente o jogo é um Call of Duty melhorado como todos estão dizendo?

    Preciso jogar para avaliá-lo melhor.

  • Rafael Rigon Maier

    Acho que seria o caso de rever o texto do resumo da análise, ele ficou meio desconexo.

  • Charles

    Tenho de concordar com o Texto, jogo realmente muito bom! há tempo não me sentia tão em casa com um CoD e sobre as adições elas trouxeram mudanças muito bem vindas! Parabéns

  • leoleonardo85

    Excelente Review Heitor.

    Eu tinha abandonado COD em MW3, e foi bom ver como AW soou como uma grata novidade.

    A história é bem obvia e cheia de clichês e com um final que eu não gostei, mas fora isso gostei da forma como ela é contada.

    Bom jogo, vou jogar bastante o multi.