De diversas formas, videogames estão atrelados à guerra. Qualquer guerra. Videogames nasceram nos EUA em plena Guerra Fria e, durante anos, eles representaram o sentimento público em relação ao conflito entre a potência norte-americana e a União Soviética. A corrida espacial, poderio militar e as chances de um confronto direto eram temas recorrentes na década de 60 e 70 e pavimentaram nosso olhar para uma linguagem então nova e crua. Videogames são interativos, e isso significava que quem os criasse tinha que dar ao jogador ações para que ele pudesse interagir com o jogo e que representassem, em seus gráficos rudimentares e simplicidade de narrativa, algo que fosse de fácil compreensão. “Atirar”, naquela época, era algo de fácil compreensão na cultura popular.

Tendo surgido da tecnologia militar e inserido no contexto da Guerra Fria, é concebível que atirar tenha se tornado um dos verbos mais usados na sua construção, enquanto linguagem. Gêneros inteiros (no passado, os shoot ‘em up, no presente os jogos de tiro em primeira e terceira pessoa) foram criados e celebrados a partir das ações de atirar, matar e destruir, e essa é apenas uma constatação do quão próximos os videogames e as guerras sempre estiveram. “Estamos em uma indústria em que, se o protagonista não está segurando uma arma, designers sequer sabem o que fazer”, disse certa vez David Cage, criador de jogos como Heavy Rain e Beyond: Two Souls. Em um momento em que é cada vez mais claro o potencial narrativo do videogame e o potencial destrutivo das guerras, é igualmente compreensível que estejamos desconstruindo essa relação.

Totalmente em português, This War of Mine nos insere em uma guerra civil fictícia contemporânea, ainda que pareça representar a realidade dos anos 80 ou 90, sem internet. É também um dos únicos jogos sobre o tema que em nenhum momento me pediu para “atirar”, ainda que a possibilidade estivesse lá. No controle de um grupo de sobreviventes isolado em uma cidade sitiada por forças militares, devastada por um conflito separatista, você precisa, dia após dia, encontrar meios de sobrevivência. Seu abrigo é onde seus três ou quatro cidadãos, todos com suas próprias histórias, comem, dormem, bebem, fumam e tentam esquecer a realidade cruel que tomou subitamente a vida de todos. Lá, esses estranhos, cada um com suas próprias habilidades, saudades, vícios e fraquezas, juntam forças para, como uma família, aumentarem suas chances de sobrevivência. É um jogo sobre a luta pela vida.

Quando o sol se põe, é hora de escolher quem colocará em risco sua própria vida para, misturado à escuridão e silêncio da noite, buscar por mantimentos e materiais que possam contibuir para a sobrevivência ou, quem sabe, até mesmo permitir uma vida mais digna diante o horror da nova realidade. Quando restos de comida, medicamentos velhos e materiais básicos não são facilmente encontrados pelas ruas, pilhar e saquear casas e abrigos de sobreviventes iguais a você nunca deixa de ser uma opção – uma que vem acompanhada de graves feridas emocionais e sentimento de culpa. Voltar para casa trazendo a comida e o curativo do dia seguinte e se deparar com seus companheiros machucados e assustados, resultado de uma tentativa de impedir que pessoas igualmente desesperadas roubassem seus pertences, é só mais uma lembrança de que, na guerra, todos perdem.

A narrativa em This War of Mine é emergente, proveniente das suas ações e consequências das suas escolhas. Ver um personagem morrer e as consequências desta perda para o grupo é tão emocionalmente impactante e narrativamente relevante quanto conquistar a sobrevivência plena de todos os membros da sua pequena comunidade, durante os 42 dias de guerra (o que, para mim, só aconteceu na segunda partida, já com um maior entendimento de suas mecânicas).

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Em termos de sistemas, This War of Mine soa como um encontro entre Don’t Starve e The Sims. Embora ele não tenha a amplitude do primeiro e nem a complexidade social do segundo, suas principais características se fazem presente aqui: a coleção de itens, o crafting, a aleatoriedade (que lhe dá um leve aspecto de roguelike), o gerenciamento de necessidades individuais e sociais etc. Mas, em muitos aspectos, This War of Mine lembra também The Walking Dead: os conflitos que emergem de situações extremas, o peso das decisões, o senso de coletividade, a atmosfera melancólica, o constante pessimismo…

A capacidade de This War of Mine fazer com que você se importe com seus personagens a partir de sistemas puramente mecânicos e com pouquíssimos elementos narrativos tradicionais (nao há cutscenes ou dublagens, embora personagens carreguem seus próprios diários e possam dialogar ou exprimir seus pensamentos através de balões de textos) é uma grande conquista da polonesa 11 Bit Studios. Invadir áreas ocupadas por bandidos ou forças militares em busca de suprimentos, momentos em que o jogo assume um formato stealth, exigindo que você seja cauteloso e evite certas ações que possam causar barulho (como serrar uma grade ou arrombar uma porta, por exemplo), são constantemente tensos.

Quantas vezes, na inveja pela abundância de mantimentos alheios, não fui pego no flagra roubando comida enlatada ou medicamentos no abrigo de pessoas armadas? Estes não chegam a ser os momentos mais terríveis de This War of Mine, mas com certeza, são os mais aflitivos. Aos gritos e ofensas, corria o mais rápido que podia, descendo escadas e escancarando portas, contando cada passo em direção à saída, enquanto era alvo de escopetas e pistolas. Já cheguei em casa ensanguentado, mas ao menos trazendo comida. Outra vez, fui morto a sangue frio, deixando para trás os mantimentos que garantiriam mais uns dias de vida ao meu grupo. Na noite seguinte, outra morte. Nos próximos dias, depressão e suicídios – foi quando que, em choque com o final dramático que dei àqueles personagens por quem eu tanto estava me importando, me senti na obrigação de começar um novo jogo e dar a eles (outros, na verdade, uma vez que o jogo sorteia novos personagens a cada partida) um final feliz. E consegui, transbordado por um sentimento de realização.

Talvez This War of Mine se torne menos interessante quando todos seus padrões e sistemas são dominados pelo jogador. Quando estratégias de sobrevivência se tornam mais evidentes e os eventos começam a se repetir, muito da tensão, drama e imprevisibilidade do jogo se perde. Mas até chegar neste ponto, você já terá sentido tudo o que This War of Mine tem de mais cru, brutal, belo, tenso e sensível. Ainda assim, eu sinto que se houvessem coisas destraváveis ou mais a ser descoberto em This War of Mine, continuaria jogando-o por muito mais do que as 16 horas que dediquei a ele até agora – ainda que nada lhe falte, dentro do que ele se propõe a oferecer.

Análise - This War of Mine
Mas mais do que me envolver em uma experiência marcante, This War of Mine me fez pensar sobre guerra. Não aquelas dos livros de história, mas a guerra atual, presente no nosso dia a dia - das manifestações de julho de 2013 à repressão policial violenta em Ferguson. Em uma mídia onde armas, violência e confrontos militares ainda são tão celebrados, mesmo que no âmbito da ficção, This War of Mine nos mostra a guerra próxima e crua, despida de espetáculo, glamourização e heroísmos, do ponto de vista de quem mais sofre com ela: você.
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  • rodrigooliveira

    Que analise sensacional hein, Rique! Já tô aqui comprando…

  • Zé Luiz

    Esse é aquele tipo de jogo que, desde o momento em que nós descobrimos que ele será produzido, ficamos na torcida para que ele funcione. É muito bom saber pelo texto do Rique que aparentemente ele cumpriu esse papel.

  • G. Sanjuán

    Gostei bastante da sua análise, Rique. O jogo me atraiu bastante por ter como uns dos seus principais elementos uma das coisas que eu mais gosto em videogames que são as histórias emergentes que vão surgindo no decorrer do jogo e nos jogos que deixam em aberto pra você criar sua história, eu penso em tudo e pelo o que você disse é isso do começo ao fim (:D). Outra coisa que eu achei demais é que você,de fato, sai pra procurar alimentos, materias, medicamentos e tals, tem que se esconder, ser silencioso, tomar cuidado e que muito pode acontecer. A arte do jogo é maravilinda, preto e branco, mas dando cor em certos pontos pra colocar um foco maior. De novo, parabéns pelo ótimo review.

  • Victor Domiciano

    Parabéns pela análise desse jogo. Ele tem requisitos pesados para rodar? Só tenho notebook normalzão mesmo mas fiquei com vontade séria de jogar

  • Vinicius SS

    Grande texto Henrique!

  • Dracco Haroldo

    putz… Que texto… jah tava com agua na boca pra jogar…

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  • Alexandre Barbosa da Silva

    Já disse antes, mas repito: Esse Rique faz por merecer seu salário! Que texto excelente. Vou ver se baixo uma demo ou algo do tipo pra ver se ele é pesado ou não antes de comprar, mas estou muuuito curioso com o jogo, parece sensacional.

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