Todos nós cometemos erros. A ideia de certo ou errado pode ser um tanto subjetiva quando tratamos dos acontecimentos da vida, considerando que quando uma porta se fecha, outras se abrem. Mas se as coisas fogem do nosso controle ou daquilo que esperamos ou queremos para nós ou para os outros, tendemos a nos arrepender de certas escolhas. A frustração que emerge da nossa incapacidade de prever o futuro para saber se as escolhas que fazemos hoje são “corretas” ou não é uma das razões para que histórias de manipulação do tempo existam.

Essa fascinação pelo controle do tempo e, consequentemente, do nosso próprio futuro, é o que torna Life is Strange tão interessante, principalmente por se tratar de um jogo sobre relacionamentos, identidade e amadurecimento, coisas que são construídas a partir de escolhas.

Aqui somos Maxine Caulfield, uma jovem fascinada por câmeras fotográficas analógicas que retorna de Seattle para sua cidade natal, em Oregon, para cursar fotografia em uma prestigiada universidade. Sua volta evoca sentimentos nostálgicos, trazendo à tona memórias da infância que ela deixou para trás. Há também a sensação de isolamento, resultado da falta de sintonia com os colegas de sala e a perda de contato com sua melhor amiga de infância, Chloe. Eventualmente, Max testemunha uma briga no banheiro da universidade, que termina com uma garota de cabelos azuis sendo baleada, fato que, por alguma razão, ela consegue reverter.

A partir de então, Max percebe que é capaz de voltar no tempo em alguns instantes, o que acaba se tornando a mecânica central de Life is Strange. Essa habilidade dá a Maxine tanto a possibilidade de voltar no tempo para refazer uma ação, esperando por resultados diferentes, quanto avançar até o futuro próximo para ter acesso a uma informação e voltar ao presente para usar tal informação a seu favor. Desta maneira, Max tem a capacidade de moldar os acontecimentos a seu favor – ou ao menos é o que imaginamos de início.

Como na vida real, escolhas em Life is Strange raramente são apenas boas ou ruins, certas ou erradas. A curto prazo, uma decisão pode parecer melhor do que outra, como intervir no momento em que uma colega de classe é hostilizada por um funcionário da universidade, em vez de fotografar a cena, permitindo que o abuso acontecesse. Posteriormente, a fotografia poderia ser útil para incriminar o funcionário, mas como você poderia saber?

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Essa é uma das qualidades de Life is Strange: a forma natural como suas ações impactam no desenrolar da história a curto e longo prazo, de forma orgânica, sem que haja um caminho correto ou apenas bom. Quase todas as ações ou abstinência delas (inadvertidas ou não) impactam a trama em menor ou maior escala, e o jogo faz questão de te lembrar disso. Nas decisões mais importantes, Max sempre se questiona se não deveria voltar no tempo e fazer uma nova escolha, nos fazendo ponderar profundamente sobre as possíveis consequências daquilo que decidimos.

Falhar é algo raro ou inexistente em Life is Strange, que embora siga a linha de jogos recentes da Quantic Dream, como Heavy Rain e Beyond: Two Souls, além dos títulos da Telltale, evita conflitos diretos e sequências de ação envolvendo habilidades e reflexos rápidos. Ao menos em seu primeiro episódio, focado na exposição de seus personagens e universo, a Dontnod esteve mais preocupada em pintar um delicado e interessante cenário de drama adolescente com toques de thriller sobrenatural do que causar grandes surpresas – que talvez estejam reservadas para os episódios seguintes, dado os ganchos dramáticos de seu final.

 

Análise - Life is Strange: Episódio Um - Chrysalis
Embora Life is Strange possa soar, por ora, um pouco lento ou sereno demais, suas qualidades narrativas são fortes o suficiente para que isso não se torne um problema. A forma sincera e humana como são abordados temas comuns da vida adolescente e adulta, como sexo e drogas, e as referências inteligentes à própria cultura e ao mundo contemporâneo revelam um jogo a par de seu próprio tempo. Life is Strange é, querendo ou não, resultado das mais recentes discussões sobre a maturidade da linguagem do videogame, sobre a representação feminina neste meio e sobre sua capacidade de abordar a vida comum e o cotidiano, ainda que permeado por um elemento fantástico.
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  • Achei o game magnífico! E olha que eu já havia jogado games da Telltale antes, assim como Heavy Rain. A Dontnod conseguiu, na sua primeira investida nesse “gênero”, superar as duas concorrentes.

    Tudo encaixa e funciona no jogo. O roteiro é muito bem trabalhado, delicado e envolvente. A direção está fantástica, por vezes me perdia achando que poderia muito bem ser um bom filme ou série. Embora use Unreal 4, que é usado na maioria dos games tocando no visual realístico, Life Is Strange tem uma arte única, parecendo levemente uma pintura. O que me agradou, pode até ser para economizar tempo de produção, mas achei o visual lindo. A dublagem também é boa, embora alguns personagens mais coadjuvantes poderiam ser melhores.

    Para não dizer que tudo são flores, a animação das bocas na hora das falas está bem ruim, chegando a ficar dessincronizado com as falas em umas duas oportunidades. No entanto a animação dos personagens está incrível. Esse é o principal ponto do porquê não gosto tanto dos games da Telltale. Os personagens parecem meio robóticos, aqueles games precisam ter melhores animações.

    Como me peguei imerso em Life Is Strange, decidi fazer um experimento. Estou com dois saves: no primeiro, minha Max é uma menina insegura, outsider e covarde, preferindo ficar na dela e fugir de conflitos; no segundo ela é mais confiante, pronta para enfrentar o mundo do jeito que bem entender. O resultado disso só ficará mais evidente com os próximos episódios, quando os resultados das diferentes ações começarem e incidir diretamente. E como estou animado para jogar os próximos capítulos!

    • Discordo,Heavy e os jogos da Telltale superam esse jogo.
      Ele aborda temas muito interessantes,sim!Mas,não é nada emocionante nem tenso como os outros,mas a trilha sonora realmente supera,apesar de não ser original e de ambos os jogos terem trilhas ótimas!

  • Thiago Paiffer

    Achei o jogo incrível também e uma das coisas que eu mais gostei foi essa característica serena. The Walking Dead e Heavy Rain, por exemplo, tem ambientes meio que opressores, já Life Is Strange é lento, introspectivo, cria um ambiente interessante (os personagens que permeiam as escola me pareceram tão diversos) e acolhedor, o que me fez explorar tudo com tanto entusiamo e curiosidade pra interagir com aaquele mundo. E as músicas licenciadas e a trilha casaram tão bem pra dar um clima meio de filme indie, principalmente na cena de introdução. Achei lindo, lindo, lindão.

  • Lukas Leite

    O jogo tá localizado?

    • Heitor De Paola

      Infelizmente não.

  • OfudouMyou

    não tem jeito, eu não consigo jogar por episódios.. the wolf among us me deixou traumatizado. cara, como era difícil esperar meses pra jogar vinte minutos. tanto que parei faltando um episódio e não consigo nem voltar pra terminar mesmo depois de lançado o último episódio.
    nem critico essa estratégia, está funcionando e vendendo bem, a produtora só ganha espaço. mas, infelizmente, não dá pra mim. mesmo sem perder o interesse totalmente, não consigo “voltar” depois de largar mão.

    mais alguém tem isso?

  • Heliezer Soares

    Estou com um “problema” com esse jogo e caso alguém possa me ajudar, ficarei grato. Comprei o primeiro capítulo da versão PS4 na minha conta brasileira (porque é mais barato, com impostos saiu a R$11,04). Só que não consigo jogar na minha conta principal, pois quando inicio o jogo, ele aparece como trial game. E na minha conta brasileira o jogo funciona normalmente. É a primeira vez que isso ocorre, pois tanto no PS3 quanto no PS4 eu consigo jogar os jogos que compro em qualquer conta que possuo no console (que são uma americana, uma portuguesa e uma brasileira) . E apenas este título tem esse “suposto” bloqueio. Já baixei o jogo novamente e nada… toda vez que inicio em outra conta, ele aparece como trial game. Se não fosse pelos troféus nem ligaria para isso, mas… sabem como é, né?