Existem alguns jogos cujo valor é determinado pelo momento em que eles aparecem. Isso acontece mais frequentemente com aqueles que surgem no começo de uma geração de consoles, uma época em que estamos mais dispostos a perdoar deficiências em favor do espetáculo gráfico que tais jogos trazem devido às novas máquinas que os conduzem. Ryse, do Xbox One, é um exemplo disso. Medíocre em todos os aspectos, é um título esquecido que não recomendo de forma alguma. Mas, naqueles meses iniciais do novo console da Microsoft, poucas coisas eram tão impressionantes em termos de visual quanto ele.

The Order: 1886 tem cara de um jogo de lançamento de console. Cru e sem graça, não fosse o visual arrebatador – possivelmente o jogo mais lindo que já vi em um videogame – haveria pouco a se falar sobre ele. Se estivéssemos no final de 2013, em meio à chegada do PlayStation 4 às lojas, um jogo tão simples faria um pouco mais de sentido; trataria-se de uma vitrine do que o novo console é capaz de fazer no quesito de gráficos. Mais de um ano após esse lançamento, no entanto, The Order: 1886 é mais uma lembrança do quanto essa nova geração de aparelhos está demorando a engatar.

The Order é um jogo de tiro em terceira pessoa com sistema de cobertura, mas sem nenhum atrativo que o faça se destacar diante de reis do gênero, como Gears of War, Uncharted e Vanquish. As ações que lhe são permitidas são o básico: atirar, se esconder atrás de objetos e um ataque corpo a corpo que derrota muitos dos oponentes instantaneamente. Há momentos em que é preciso agir furtivamente – sendo a penalidade de ser visto um game over imediato – e é isso. Não há nenhum trecho com ação diferenciada, ou no comando de uma arma montada sobre trilhos, para dar uma diversificada no ritmo.

The Order: 1886

The Order: 1886

Isso é, não há partes sobre trilhos que sejam explicitamente dessa maneira. Porém, The Order: 1886 é tão linear, repleto de tantos corredores fechados, segmentos de ação completamente roteirizados e quick time events que volta e meia a sensação é de que o jogo está o conduzindo o tempo todo pela mão. O trabalho da Ready at Dawn é uma experiência que poderia ser descrita como cinematográfica, feliz em retirar constantemente o controle de nós e apresentar cutscenes arrastadas.

Reitero que elas são lindas. As cutscenes são os melhores momentos para percebermos os incríveis rostos dos personagens e suas roupas, tão detalhadas que é possível se focar nelas e sempre encontrar algum novo artefato não antes visto. Entretanto, essas cenas não são particularmente bem dirigidas; elas são sóbrias demais e compostas de muitos diálogos expositivos, tornando-se rapidamente maçantes, algo reforçado pela trama óbvia que guia nossos atos. Mais do que isso, elas poderiam ter passado mais tempo na mesa de edição; há uma insistência em mostrar detalhadamente ações que já haviam ficado implícitas, não só alongando esses trechos desnecessariamente como também dando a impressão de serem um filme barato, obra de uma equipe inexperiente. Esse aspecto é doloroso devido ao contraste que ele faz diante das atuações, todas muito boas.

As cutscenes não são os únicos momentos que estamos distantes da ação. Mesmo no controle de Grayson – ou Sir Galahad -, nosso personagem e protagonista da aventura, boa parte da jogabilidade ocorre fora dos tiroteios, pedindo apenas que andemos do ponto A ao B e esperemos que algum NPC realize um ato específico para que sigamos em diante.

Apesar da cadência vagarosa dessas horas ser um pouco arbitrária (levando a situações cansativas em que estamos parados diante de uma porta apenas esperando que um personagem chegue onde estamos e a abra), ela permite que apreciemos com mais calma a beleza dos cenários, meticulosamente construídos. Apesar de ser uma aventura curta (cheguei ao final entre 5 e 6 horas), a variedade não só dos ambientes, mas também do que há dentro deles, é de fazer o queixo cair. Há tanto zelo na construção de uma simples sala (que você pode ignorar completamente se não parar para observá-la) ou em becos fora do caminho principal (que na maior parte do tempo não guardam nada de concreto, como colecionáveis) que é impossível não parar para simplesmente absorver seus arredores por alguns minutos. Até mesmos a estrutura de um zepelim, que para todos os propósitos e intenções deveria ser a coisa mais sem graça do mundo, me deixou pasmo momentaneamente, com suas estruturas de aço interligadas e infinitas, e um efeito de luz maravilhoso passando por entre elas.

The Order: 1886

The Order: 1886

Se ao menos a ação de The Order: 1886 tivesse metade da qualidade presente no departamento visual. Infelizmente, quando chega a hora de puxar o gatilho e lidar com inimigos esse assombro se vai completamente, fazendo o jogo se assemelhar mais aos diversos títulos medíocres que surgiram na onda de Gears of War. O manuseio e sensação das armas em The Order é extremamente sem graça, nada tem peso. As armas todas soam como se fossem de brinquedo, com sons horríveis e fracos, e não há nenhum impacto no ato de dispará-las. Além disso, a precisão delas é muito alta, quase todas perfeitas em sua acurácia. A consequência de um impacto e acurácia quase idêntico entre os armamentos é a de que você nunca se importa com qual está utilizando, pois tanto metralhadores, rifles de franco-atirador e pistolas são praticamente iguais na sensação dada. Nenhuma arma se torna sua favorita ou causa ânimo ao ser encontrada. Assim, passei quase o jogo inteiro utilizando apenas a pistola básica, mirando tiros nas cabeças dos inimigos. Fazer isso foi surpreendentemente fácil não só por conta da mira altamente precisa desses equipamentos e de seu pente que armazena dezenas de balas, mas também por conta da IA fraca, que faz com que oponentes fiquem quase sempre parados.

A premissa de The Order: 1886, envolvendo uma sociedade secreta de cavaleiros quase imortais que lutam contra figuras sobrenaturais utilizando de equipamentos diversos, faz pensar que o leque de dispositivos oferecidos tornaria os embates inventivos e interessantes. Ainda mais quando um membro de sua equipe é Nikola Tesla, cujo papel é unicamente é o de armar a Ordem com as melhores das invenções para que ela realize suas missões. O que ocorre na prática é que existem só duas armas fora do comum, a Thermite Rifle (Rifle de Termita) – que com um botão solta uma nuvem inflamável e com outro solta uma fagulha que incendeia tal nuvem – e a Arc Gun, que ao ser carregada solta raios. Fora isso, o resto entra todo dentro do padrão com o qual você está mais do que acostumado: pistolas, metralhadores, rifles e escopetas.

Assista ao Shuffle de The Order: 1886

A variedade de inimigos também não contribui para acabar com a mesmice e fraqueza do combate. A tática de mirar calmamente na cabeça dos oponentes funciona perfeitamente contra humanos, mas é de se pensar que ela não seria viável contra as figuras sobrenaturais que a Ordem deve enfrentar. Pois bem, o que acontece é que 95% dos inimigos que encontramos na aventura são humanos. Para ser preciso, existem exatamente oito lobisomens simples (eu contei) no decorrer de todo o jogo, cujo combate é ainda mais fácil do que o contra humanos, e dois lobisomens especiais que funcionam como chefes, cuja luta é em quick time events (ambas idênticas, com animações repetidas). Fora esses casos, seu embate será exclusivamente contra pessoas frágeis, eventualmente encontrando alguns que estão de armadura e pedem por um pouco mais de balas para serem derrubados, mas nada de muito especial.

É muito esquisito que a trama de The Order: 1886 tenha em seu cerne essas criaturas fantásticas (ou “híbridos”, como são chamados), quando, por algum motivo, eles quase não aparecem na história. Uma outra figura sobrenatural é apresentada eventualmente, mas nunca chegamos a enfrentá-la. Na verdade, 20 minutos depois de apresentar o vilão principal, o jogo se encerra sem que possamos lutar com ele. A batalha final é uma com um oponente secundário, seguida de créditos que me deixaram coçando a cabeça sem acreditar que tudo tenha acabado tão abruptamente, sem conclusão. The Order: 1886 não finaliza nada do que começa e cria problemas arbitrários apenas porque o protagonista resolve não conversar mais com seus colegas. Basicamente, pouca coisa acontece e não há um final, apenas um gancho para uma continuação.

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Após cerca de seis horas, o único incentivo para retornar a The Order: 1886 é ir em busca de seus colecionáveis. E enquanto alguns acham que essa mecânica existe apenas para alongar artificialmente a duração de jogos, eu acredito que quando ela possue contexto enriquece muito o mundo dentro do qual estamos, como em Bioshock Infinite, por exemplo. Entretanto, os colecionáveis de The Order estão entre os mais chatos que já vi, em especial os arquivos de áudio, tão monótonos que desisti de ouvi-los na metade do jogo.

Há ideias interessantes em The Order: 1886. Há um germe de um universo que pode ser explorado não só de diversas maneiras, mas também em diversas épocas, com outros personagens. É possível que uma continuação faça jus a tais ideias. Nessa estreia, no entanto, temos um título que é inferior e mais raso do que jogos do mesmo gênero que chegaram às prateleiras há mais de seis anos.

Se estivéssemos no lançamento do PlayStation 4 seria possível observá-lo com o pensamento de “isso é só uma amostra do que esse console é capaz”. Mais de um ano depois, a coisa que pensava ao olhar os créditos do jogo rolando era “espero que essa geração de consoles seja mais capaz do que isso”.

Análise - The Order: 1886
Não fosse tão lindo, The Order: 1886 não teria nada de marcante. Mecânicas rasas, armas que parecem de brinquedo, inimigos repetitivos e sequências muito roteirizadas o tornam medíocre em todos os aspectos.
3
  • Jhomar Nando

    Resumindo, é um God of War de tiro?

    • Rafael Chiamenti

      Me lembro de God of War como um jogo bastante prazeroso, mecanicamente. Pelo que estou lendo, The Order se parece o oposto disso ‘~’

      • Jhomar Nando

        Se for colocar o jogo como linear, lembra muito God of War, pelo menos que me lembro, não existe backtracking, acho que só o primeiro tem, os inimigos repetem e tem as mesma taticas. Como são a mesma empresa, quis fazer essa semelhança 😀

        • Heitor De Paola

          Bom, é a empresa que fez os God of War para PSP, não os principais (apesar de serem bons). Mas não acho que a comparação caiba. Por mais que God of War tenha seus problemas, há uma variedade enorme no que você pode fazer, entre armas diferentes, inimigos que pedem por estratégias variadas, chefes interessantes e mais. Nenhuma dessas características se faz presente em The Order.

  • Robson Bitencourte

    Desde do começo eu ñ achava esse jogo grande coisa, sabia q ia ser bom, mas nada revolucionário e impressionante. Mas q é bonito esse parece, ganha ponto por isso.

    • Eu estava esperando um jogo bom, sinceramente. Depois dos previews reforçarem que seria um jogo baseado em Quick Time Event, eu me enchi de esperanças pensando que teria um certo tipo The The Wolf Among Us só que em qualidade cinematografica. Infelizmente, não foi o caso 🙁

  • PedroWoy

    Acho essa atmosfera tão interessante. Pior que pelo que já vi falarem não é nem um caso estilo AC que o primeiro foi ruim mas tinha um algo ali escondido que podia ser melhorado na continuação. É caso de reconstruir tudo mesmo. Uma pena.

    • Heitor De Paola

      É, eu acho que há ideias do mundo e sua mitologia que seriam legais se fossem revisitadas em um possível segundo jogo. A pena é que mesmo o que há em 1886 é pouco, muito aparece tarde demais. Mas há um germe de uma ideia legal aí, com certeza.

  • leoleonardo85

    Esse Review socou The Order até ele afundar no chão.

    • Aperipe

      Também entendi isso, o resenhista diz que que o jogo é repetitivo, generico, não tem AI, os efeitos sonoros não são bons, o combate é massante, as armas são variadas na aparência mas não na aplicabilidade e a história é arrastada, chata de acompanha e quando fica interessante termina. Mas ao final ele da avalia que o jogo é no minimo bom( nota 3 numa escala de 5). É por causa dos gráficos? Se o jogos saísse para PC a nota aumentaria pela possibilidade dos gráficos serem mais bonitos, já que para a master race não há limites? ou pela possibilidade de se fazer algo bom nos próximos jogos da franquia?

      • leoleonardo85

        Pelas criticas eu também achei uma nota alta demais, um 2 cairia melhor, mas até ai perdoável, o importante é o review a nota é algo secundário.

        • Aperipe

          Acredito que a nota resume a opinião da resenha. Sendo assim o único fator positivo do jogo é o gráfico. O autor nem ao menos diz se é divertido (o fator diversão é crucial para mim, pois jogos DEVEM divertir) em sua mediocridade.

          • Entreter =/= divertir. Eu posso assistir um filme triste e ser entretido, assistir uma entrevista provocativa e ser entretido, posso ouvir uma música cuja letra é ofensiva a algumas das minhas crenças e – ainda assim – me sentir entretido.

            Jogos precisam oferecer entretenimento, não necessariamente DIVERSÃO.

          • Aperipe

            Como disse antes, para mim, a diversão é fundamental para jogos. Não procuro um jogo para mero entretenimento, quero um jogo que me divirta. Exemplo: The Last of us, tem um historia que entretém e a jogabilidade me diverte (se é boa ou ruim não vem ao caso). Se a interatividade não me divertisse, assistiria as cutscenes no you tube e não o jogaria. Alias nos exemplos citados por você nenhum foi de jogos. E mesmo assim a resenha deixa claro que o entretenimento, segundo você, não é satisfatório, mas o jogo é bom.

      • Fabiano

        Nossa, como eu odeio notas…

  • Gabriel Valente

    Então basicamente The Order é o Ryse do PS4. E ambos são o primeiro Assassins Creed no 360/PS3.

    • leoleonardo85

      Posso falar nada, gostei de Ryse.

      • Marcelo

        gostou de ryse ?
        e vem aqui falar de The order ?
        è cada uma . . . . .

        • leoleonardo85

          Eu não disse nada de The Order cara, não viaja

    • Fabiano

      AC explodia cabeças no final, pelo menos.

  • Leonardo Schmidt

    Triste quando as desenvolvedoras esquecem a essência de um jogo de videogame, que é ser divertido. Ótima a análise, parabéns ao site.

  • Rafael Chiamenti

    Interessante que muito se falou sobre as 5~6 horas de duração, e acho válido o argumento de “se 5 horas são uma experiencia completa e interessante, então tá ok”, mas não só parecem ser 5 horas entediantes, como diversos reviews apontam que o jogo acaba de repente, parecendo incompleto (com grande abertura pra sequencia, inclusive). No fim, essas 5 horas me parecem sim, um problema, haja visto que a experiencia (apesar de ruim) foi capada em defesa de uma -suposta- sequencia.

  • Kazuo

    Sinceramente, eu estou muito triste com esse jogo. Tinha tanto potencial, e parecia ser tão interessante.

  • Carlos Gilberto

    Acho que A sony tem que sentar com as desenvolvedoras e rever conceito de jogo, um jogo por exemplo que parece muito bom o until daw que pelo visto possui mecânicas de Quick time, agora the order, não que a mecânica seja ruim pois god of war está ai para provar, todavia estamos perdendo cada vez mais o controle dos jogos, era bom olhar para Nintendo onde a galera pode criticar mas ela ultimamente é a unica que possui essa essência, curto os jogos da sony todavia esse começo de geração parece que temos um equivoco de como os jogos estão seguindo. Sorte que bloodborne chega mês que vem para podermos ver se a sony segue pelo caminho que todos gostam.
    Uma comparação e que no inicio da geração do Ps3 tivemos jogos ruins tambem como Lair, wahalk ou algo assim. No mais ótima analise é bem corajosa e verdadeira, por isso curto muito vocês.

  • Guilherme Gondin

    Tipo, se é tão ruim, não merecia pelo menos um 2?

    • losk

      Imagina a resenha de um jogo nota 1 ?!

  • Vinícius Dantas

    Quanto mais acompanho os lançamentos da Sony, mais penso em comprar um NN3DS. Minha esperança tá em Phantom Pain e Bloodborne.

    • Gabriel Valente

      Considerando que Phantom Pain é multiplataforma, até pra geração passada, Bloodborne e a Naughty Dog são os fatores que me levarão a comprar um PS4, até porque de exclusivo legal no One até agora só Sunset Overdrive.

    • Leonan

      Bloodborne é o que estou mais ansioso.

  • Marcelo

    Analise mediocre . . . . . .e pelo jeito todos os caixistas aqui já jogaram esse jogo para darem suas opiniões sem fundamento nenhum . . . . .

    • Daniel Brujah

      Desculpe, mais possuo um ps4, acabei de terminar o jogo hoje, e sinceramente dou 2.5 chorado, transistor me prendeu muito mais ao jogo do que The Order.

  • Marcelo

    Se esse jogo for pior que ryse e dead rising 3 , então não compro mais

  • claudio silva

    Fiquei louco para comprar esse game, mas depois das analises, acabei mudando de ideia e vou esperar o preço do jogo baixar.

  • losk

    Nossa, que nota alta para tantos pontos negativos.
    3 é uma boa nota.

  • Felipe Santos

    Eu gostei do game. Achei a quantidade de horas satisfatória. Curti o protagonista. Comprarei o segundo jogo.