Ori and the Blind Forest é como ter novamente seis anos de idade e abrir pela primeira vez um livro de Contos de Fadas.

Mais do que o fascínio pela história em si e o destino dos personagens que a povoam, Ori and the Blind Forest elicita o encanto daquela nova descoberta; o momento em que uma nova realidade inteira se revela diante de seus olhos e você passa a se indagar sobre os pormenores daquele mundo, o que de novo ainda há para se visto ali, o quão vasta aquela terra deve ser.

Essa atmosfera, com certeza uma das maiores forças do jogo, é uma existente do começo ao fim, e apoiada pela coerência entre narrativa e mecânicas. A terra que vamos explorar não é familiar ao nosso personagem, Ori, um pequeno espírito guardião de gênero indefinido, que está pela primeira vez viajando para longe de seu lar. Apesar de ser um espírito da floresta, Ori se desgarrou da árvore que o gerou ainda muito cedo, sendo então adotado por Naru, uma habitante do local que o acolhe assim que o vê. Eles vivem juntos e em paz por algum tempo, mas um evento, inicialmente de causa desconhecida, faz com que a vida desse ambiente mágico quase que inteiramente desapareça, tornando a floresta, como indicada pelo nome do jogo, “cega”, o que leva Ori a embarcar em uma jornada para reanimar diferentes elementos e fazer a vida florir novamente.

Aliando-se ao encanto que nos fisga e faz querer ver mais e mais está a exploração, que quando passamos a ter controle de Ori fica claro ser o principal pilar do trabalho do Moon Studios. Apesar de possuir elementos de combate que funcionam bem, o que há de mais prazeroso aqui é o ato da descoberta, similar a jogos como Super Metroid, Castlevania: Symhpony of the Night e até mesmo The Legend of Zelda.

Ori and the Blind Forest

Ori and the Blind Forest

Além das surpresas que nos aguardam quando algo novo é visto, a exploração é também motivada simplesmente pelo quão bonitas são as diferentes partes do mundo do jogo. É praticamente inevitável um arrebatamento ao se olhar pela primeira vez para Ori and the Blind Forest, uma beleza grande o suficiente para nos instigar a ir atrás de tudo que ele guarda. Este é um jogo cuja palavra “belo” não faz jus em descrever o quão incrível é seu visual. Todo em 2D, existem camadas e camadas de paisagem tanto ao fundo quanto à frente do plano no qual nos locomovemos, povoando o cenário com detalhes e nos dando um ótimo senso de escala, deixando sempre claro o quão pequenos somos. E, apesar de haver um tom perene de melancolia por toda a aventura – afinal, a vida na floresta foi perdida – existe uma movimentação sutil de diversos elementos por todos cenários, mostrando que, apesar de não possuir mais vida, o local não está de nenhuma forma morto.

Competente não só na estética, este é também um título muito bom mecanicamente. O controle que temos sobre Ori é preciso e ágil, permitindo que sempre saibamos exatamente qual foi o nosso erro ao morrermos. Inicialmente nosso personagem não é capaz de muita coisa além de saltar, porém não demora para que possamos escalar paredes, dar um segundo pulo no ar e usar inimigos – e os seus disparos – como um método de propulsão, levando-nos a novas áreas e fazendo com que possamos navegar pelas antigas muito mais velozmente.

Há uma elegância não acidental no quão bela e fluída essa travessia é, algo bem representado pelas animações de Ori, que ocasionalmente dá piruetas perfeitas em seus saltos, sem motivo nenhum, porém conferindo uma leveza que casa muito bem com o quão harmonioso é o simples ato de se viajar de um cenário para o outro.

Por mais que esteja mencionando harmonia, não pense com isso que Ori and the Blind Forest está ali apenas para causar bons sentimentos e relaxá-lo. Há por trás disso tudo um jogo desafiador, que o fará morrer dezenas e dezenas de vezes. A morte é uma constante tão grande que dentro do menu de pausa há um indicador que mostra o número de derrotas que já sofremos, que podem se acumular rapidamente. Nisso há algo muito interessante; tais mortes não precisam ser frustrantes, porém isso dependerá de você.

O que ocorre é que os checkpoints são um recurso nesse jogo. Ori tem um medidor que indica sua energia, usada para carregar um ataque mais forte, de área, por exemplo. Essa energia, no entanto, também é usada na criação de pontos em que renasceremos depois de morrermos, podendo ser manifestados quase em qualque lugar. Restrições só existem se houver uma ameaça por perto, como inimigos, ou se o chão em que estamos for instável, como uma plataforma móvel.

Ori and the Blind Forest

Ori and the Blind Forest

Essa energia só pode ser recuperada quando encontramos cristais azuis pelo cenário e nem sempre eles estão disponíveis. Assim, Ori and the Blind Forest dá uma responsabilidade ao jogador mais comumente vista em jogos cujo gerenciamento de recursos é uma preocupação, como aqueles do gênero Survival Horror. Qual é a melhor hora de gastar um ponto de energia? Quem sabe você tenha acabado de passar por um trecho particularmente complicado, repleto de espinhos e saltos precisos, o que faz com que seja uma boa ideia criar um ponto de renascimento. Ao mesmo tempo, é possível que o próximo desafio seja ainda mais complicado e você tenha apenas um ponto de energia restante. Qual é a melhor alternativa, arriscar e seguir em frente, correndo o risco de ter de refazer o segmento que acabou de ser superado? Ou acreditar que o que está por vir pode ser terminado de uma só vez, sem a necessidade de ficar criando pontos de renascimento? A resposta disso cabe unicamente a você e a como enxerga a situação.

Na prática é raro se ver sem pontos de energia. Se usados com parcimônia é sempre possível ter alguns de reserva, criando checkpoints periódicos. O curioso é que, por estar muito acostumado aos saves automáticos que a grande maioria dos jogos possuem, o começo de Ori and the Blind Forest teve muitos momentos em que tive de repetir os mesmo desafios, pois simplesmente não estava acostumado com a ideia de que eu mesmo tinha de escolher quando salvar.

Assista ao Shuffle de Ori and the Blind Forest

Um outro detalhe interessante é que, depois desse costume se assentar em nós, um checkpoint bem colocado em certos trechos do jogo conferem a estes um ar de Super Meat Boy, no sentido de que muitas coisas nos matarão instantaneamente, mas nosso retorno para uma nova tentativa é igualmente rápido. É também por conta dessa velocidade que frustrações comumente atreladas a falhas constantes são evitadas.

Houve apenas três momentos específicos em que senti Ori and the Blind Forest se calcou demais em mecânicas de tentativa e erro, uma direção de design que no geral não me agrada. Isso ocorre quando os três elementos da floresta são reanimados. Quando a missão relacionada ao retorno deles é terminada, é preciso passar por um segmento de perseguição, em que não saber para onde ir ou errar um movimento normalmente resulta em uma morte. Inicialmente essas são partes empolgantes, bonitas, com tons épicos sentidos ao vermos Ori escapar bravamente de uma enchente que o persegue, por exemplo. Mas depois da vigésima tentativa essa grandiosidade perdeu lugar para os meus berros de “eu só quero passar logo disso!”. Ao terminá-las, minha sensação não era a de “que coisa legal que acabei de fazer” e sim de “ainda bem que eu nunca mais terei de fazer isso de novo”.

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Nada disso, no entanto, fez com que meu aproveitamento total de Ori and the Blind Forest fosse menor. Esse é um jogo lindo que, fora essas cenas de perseguição, realiza bem tudo que se propõe fazer. Seus elementos leves de RPG, com habilidades ganhas progressivamente ao acumularmos experiência matando inimigos e encontrando certos itens, oferecem recompensas boas e palpáveis, nos incentivando a enfrentarmos os inimigos em vez de simplesmente os ignorarmos. E até mesmo sua história, por mais simples que seja, é tocante de uma forma inesperada.

Eu demorei cerca de sete horas para pegar quase tudo que há para ser pego no jogo e, enquanto parte de mim gostaria que houvesse sempre mais para que eu não o desligasse nunca, eu enxergo positivamente essa duração. Sem encher linguiça, todos os elementos de Ori and the Blind Forest têm motivo de ser, e cada parte do cenário parece nova e fresca quando encontrada (ou quando retornamos a ela). Nada é diluído aqui.

Ori and the Blind Forest é um daqueles jogos que parece surgir do nada, porém, poucos minutos após o iniciarmos, sabemos que temos algo especial em mãos. Eu fico feliz de que algo tão lindo tenha sido criado.

Análise - Ori and the Blind Forest
Lindo e mecanicamente muito competente, Ori and the Blind Forest elicita um sentimento de encanto, como o de ser criança e ler um Conto de Fadas pela primeira vez.
5
  • rodrigo

    apenas preciso disso…

  • Filipe Ritto

    Esse jogo é uma pintura jogável.

  • Rodolfo

    Jogo maravilhoso. Difícil sem ser frustante. Patamar de Super Metroid e Castlevania: Symphony of the Night.
    As partes de fuga são beemm difíceis, mas recompensadoras. Terminei com 91%. Priorizei a linha da vida. Não me arrependi.

  • Xcoi

    Pelo visto acho que você não chegou a travar em nenhuma parte do jogo. Eu acabei ficando preso na última “arena” do jogo, e procurando na internet eu vi que isso foi bem recorrente, e não só nessa parte. Tem um patch que te transporta pra logo depois desses pontos, mas até chegar a essa resolução me frustrou um pouco.

    Tirando isso, jogo incrível! Levei essas 7 horas também, e achei uma pena não poder usar o save depois que termina. Senão iria atrás dos 100% fácil fácil. Até o momento jogo a ser batido em 2015.

  • Esse jogo é obrigatório em qualquer lista de melhores de 2015. Muito bom, divertido, desafiador.