É possível que o um dos elementos mais chamativos de Axiom Verge seja justamente aquele que afastará pessoas do jogo. Criado por Tom Happ, o título não esconde de forma alguma as inspirações que teve em Metroid, não só pelo seu gênero – ele é um jogo de exploração em que o ganho de novas habilidades faz com que progressivamente possamos alcançar novos locais e derrotar inimigos mais facilmente -, mas também por conta de seu visual. Apesar de haver mais cores e elementos presentes do que um NES aguentaria, sua estética remete especificamente a como Metroid era no console 8-bit, inicialmente nos fazendo passar por áreas com elementos que parecem diretamente retirados do título da Nintendo. Enquanto isso causa a impressão de que se trata de algo pouco inovador que tenta apenas replicar um outro jogo, Axiom Verge progressivamente vai nos mostrando suas cartas, deixando claro que, apesar de sua inspiração guiá-lo, ele segue um caminho próprio e diversas de suas ideias são apenas dele.

Há certamente muitos paralelos. Segredos, que existem aos montes, estão muitas vezes escondidos em paredes que devem ser quebradas; há caminhos pequenos através dos quais Trace, nosso personagem, não pode navegar, mas algo menor – digamos, mais ou menos do tamanho de uma pequena bola – o fará sem problemas, e assim por diante.

Axiom Verge

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Entretanto, não demora para que coisas diferentes, não facilmente comparáveis a mecânicas presentes em outros títulos, comecem a surgir. A primeira delas está na forma de um raio que pode corromper (e descorromper) inimigos e certas partes do cenário. A princípio isso só será efetivo contra oponentes menores e mais fracos, mas não demorará para que quase qualquer coisa possa ser alterada e, simplesmente, “bugada”. O mais chamativo é que visualmente o efeito é como aquele obtido quando não encaixávamos uma fita direito em consoles antigos, tornando pedaços da fase transparentes, colocando partes dos inimigos em regiões erradas de seus corpos e muitas vezes dando a eles um comportamento que não obedecia mais seu padrão.

Brincar com isso é uma das coisas mair prazerosas oferecidas por Axiom Verge. Monstros presos ao teto de repente se tornam uma bagunça de pixels voadores. Outros passam a não ter mais nenhuma forma de colisão, eliminando qualquer perigo que eles antes apresentavam. Alguns são mais diretos, como uma espécie de tatu que, após ser alterado, passa a ser fraco contra qualquer forma de armamento. Um dos mais curiosos é um gerador de mosquitinhos – tal qual havia em Metroid –, que por serem fracos são bons de serem derrotados continuamente em busca de orbes que recuperam nossa energia. Aqui, basta corromper esse gerador que ele passará de uma vez a cuspir apenas vida e não mais mosquitos, algo genial; é como se, nesse ponto, Axiom Verge estabelecesse um diálogo direto com Metroid, conseguindo, em um só exemplo, mostrar o que há de similar e distante nesses dois jogos. E, claro, muitos dos segredos da aventura só poderão ser encontrados se propriedades dos oponentes forem alteradas em lugares corretos.

Distanciando-se ainda mais das aventuras de Samus está o arsenal da Trace. No começo temos poucas armas à nossa disposição, apesar destas terem funções bem claras e definidas. Além do disparo mais básico nos dado já de partida, há uma espécie de escopeta de raios verdes, útil porque é capaz de atravessar paredes, e uma outra que oferece um projétil que pode ser explodido quando atiramos uma segunda vez, dividindo-o em fragmentos menores. Mesmo sem passar muito explorando o jogo a fundo, você provavelmente chegará ao fim da aventura com mais de uma dezena de armamentos diferentes, todos com propriedades diferentes. E há muitos mais, guardados em todos os recantos imagináveis.

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Isso não quer dizer que todas as armas são úteis. Na verdade, a esmagadora maioria delas não me pareceram práticas, mais chamativas do que qualquer coisa. Todavia, é provável que isso se dê devido ao momento em que as encontrei. Algumas delas só fui achar ao final do jogo, ao retornar para cavocar com mais cuidado antigos cenários, porém era possível tê-las pego ainda no início. Mas, a essa hora, eu já estava acostumado com o uso de outros equipamentos, então não tive o ímpeto de me readaptar a um novo tipo de projétil. De qualquer forma, é bem difícil que você não encontre algo que lhe agrade.

O que mais fará com que você olhe com atenção ao que tem disponível no quesito ofensivo são os chefes, pois algumas lutas com certeza serão mais fáceis se estivermos empunhando uma arma específica. O embate com esses monstros maiores são muito bons, pedindo normalmente que desviemos constantemente dos disparos deles e encontremos brechas para encaixarmos nossos ataques. Eles são desafiadores na medida certa, no sentido de que é normal que você morra na primeira vez que estiver os enfrentando, mas nunca sentirá que é impossível derrotá-los.

Jogamos e comentamos Axiom Verge na nossa série Shuffle; assista

Depois que suas habilidades de travessia mais avançadas são adquiridas, Axiom Verge se torna ainda mais único. Há uma combinação interessante e inusitada em como combinamos diferentes poderes que possuímos, nos permitindo alcançar lugares que durante muito tempo pareciam inacessíveis. A maneira como enxergamos o cenário muda completamente nessa hora e aquilo que antes víamos apenas como uma barreira intransponível se torna uma possibilidade de segredo. O mais legal é que isso é feito ainda dentro da estética do “quebrar” jogos, como se você estivesse chegando a alguns locais por ter burlado uma regra.

Apreciar a estética próxima ao 8-bit, e como ele a desconstroi, é parte do que faz com que Axiom Verge seja tão bom, mas há mais aqui, então essa referência não precisa significar algo a você para que o jogo seja proveitoso. O mundo que exploramos na aventura é um bem construído, com cada segmento possuindo um clima bem específico, oferecendo a sensação de que estamos realmente passando por regiões distintas deste planeta. Esse é um dos fatores que motivam tanto na exploração meticulosa de cada parte que atravessamos e servem também como combustível para irmos atrás de todos os segredos.

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Se você quiser apenas seguir em frente, chegar na última área e encerrar a aventura, Axiom Verge oferecerá o suficiente. Mas há algo especial em como os itens e melhorias do nosso personagem estão escondidos nesse jogo. Eles passam aquela sensação tão boa de “eu sou a pessoas mais inteligente do mundo!”, que certos jogos oferecem, ao serem encontrados. É também dessa forma que quase todos os documentos de texto são pegos, contando mais sobre o que ocorreu naquele planeta antes de nossa chegada. O curioso é que muitos deles estão em uma língua alienígena, pedindo que você descubra maneiras de traduzi-los. Isso é feito com senhas que podem ser colocadas no menu, com efeitos diversos, mas que não quero entrar em detalhes aqui; ver por conta própria é a maior parte da graça. Descobri-las é um desafio à parte, às vezes pedindo que você procure por informações de maneiras não óbvias.

Talvez Axiom Verge não precisasse se assemelhar tanto esteticamente a um jogo específico. Isso acaba fazendo mais sentido quando toda a ideia de corromper elementos de jogos entra em cena, mas, à primeira vista, apenas parecerá que ele está imitando algo que já existe. Esse não é o caso de maneira alguma e aqueles que enxergarem além disso encontrarão um dos melhores exemplos que esse gênero de exploração tem a oferecer.

Análise - Axiom Verge
As inspirações em Metroid tidas por Axiom Verge são apenas uma base, sendo rapidamente superadas para que novas coisas sejam construídas e ele se torne único. Seus segredos deliciosamente escondidos e o modo como ele brinca com o corrompimento de dados para que influenciemos o comportamento de inimigos enriquecem profundamente a exploração.
5
  • Luiz Augusto Pereira Rodrigues

    Velho, agora eu estou com muito hype pra esse jogo!

  • rodrigo

    olhando as imagens, parece que peca em ser 8-b por demais, o cenário é bonito mas o boneco..

  • Ismael Amaral

    Ouve um comentário no Shuffle desse jogo que concordo claramente, a imagem desse “rosto gótico ´´ me lembra a arte de H.R Giger.