Em 2013, talvez a brasiliense Behold Studios não tivesse plena consciência do que tornou seu jogo Knights of Pen & Paper um sucesso imediato. Agora, após um intervalo de dois anos e a mais bem sucedida campanha brasileira de financiamento coletivo feita para um jogo, Chroma Squad deixa evidente a razão pela qual a Behold se tornou o estúdio brasileiro de maior reconhecimento mundial: seus criadores aprenderam a fazer jogos inteligentes sobre a nossa identidade, a identidade da geração Y.

Mais do que apenas um cruzamento entre RPG tático e jogos de gerenciamento, termos que representam nada além de mecânicas, Chroma Squad sintetiza muitos dos elementos que compõem a identidade do adulto nascido e crescido entre os anos 80 e 90, e sua relação com a tecnologia e a cultura que o cerca. Embora sua base ainda sejam as séries de TV japonesas de super-heróis, (os chamados tokusatsus e super sentais), que preencheram o imaginário infantil no final do século XX, Chroma Squad lida com questões contemporâneas da vida adulta destes indivíduos, como a relação com o trabalho, o sonho pela independência financeira e profissional e a preocupação com causas sociais.

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Ao abraçar a linguagem do mundo moderno, com referências à cultura pop e de internet, construir uma narrativa surpreendentemente humana e igualitária e permitir que o jogador se expresse à sua própria maneira, Chroma Squad fez com que eu me sentisse incluído, como poucos jogos já fizeram. Só por isso, ele já seria especial, mas suas qualidades não param por aí.

Veja-nos jogar Chroma Squad em nosso Shuffle

Chroma Squad conta a história de uma equipe de dublês de super sentais que, cansados de trabalhar com um diretor autoritário e agressivo, optaram por seguir a vida “indie” e montar seu próprio estúdio com o pouco que tinham acesso. O jogo é uma bem humorada e humana representação da tentativa de estabelecimento de um negócio próprio e o constante perrengue do início da vida de empreendedor. Sabendo do gosto da Behold pela metalinguagem, eu diria que há, inclusive, um pouco da história do próprio estúdio durante o desenvolvimento de Chroma Squad inserido no próprio Chroma Squad, e a perseguição que eles sofreram pela Saban, dona dos direitos autorais de Power Rangers, mas vou evitar spoilers.

Embora as dificuldades do início da carreira independente estejam refletidas no jogo na confecção de itens de baixo orçamento, como armas e equipamentos de papelão, plástico e vinil, os quais elevam os atributos dos heróis de acordo com sua qualidade, essa dificuldade é mais presente como um elemento de narrativa do que mecânico, uma vez que gerenciar seu estúdio e ganhar dinheiro é uma tarefa relativamente fácil.

Realizar ações especiais durante as gravações, que são representadas como batalhas táticas em turnos, similares à Final Fantasy Tactics, rendem bônus de audiência. Quanto maior sua audiência por episódio, maiores as chances de retorno financeiro por gravação – tudo depende dos investimentos em divulgação e campanhas de marketing. Desde que você realize estas exigências, raramente você sofrerá com a falta de dinheiro para a compra de equipamentos melhores ou aprimoramentos para seu estúdio, que acabam lhe rendendo benefícios e facilidades como maiores descontos na loja, mais vida para seus heróis durante os combates, maiores drops de itens para a confecção de equipamentos etc.

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Todos amam Vadias Clandestinas!

É uma estrutura inteligente, na qual o ciclo se fecha: a parte de gerenciamento, por mais simples que seja, tem seu charme e dialoga diretamente com a parte de combate, que por sua vez, quando bem executado, aumenta seu lucro e permite melhores aquisições de recursos e contratos de publicidade.

Cada fase de combate representa um episódio, dividido em temporadas. Em certos momentos, é possível escolher a ordem de gravação dos episódios, alguns dos quais contam com uma batalha de robôs gigantes ao final, em um minigame simples mas divertido baseado em risco em recompensa. A cada nova temporada, novos conjuntos de itens e habilidades são liberados ao jogador, seja para compra ou confecção. Mesmo que o jogo não meça o progresso dos personagens através de pontos de experiência ou níveis de evolução, os equipamentos, disponíveis em uma variedade interessante, que somam melhorias distintas aos heróis, cumprem muito bem essa função.

Além disso, cada personagem do quinteto se enquadra em uma classe própria predefinida, cada qual com vantagens e desvantagens. A fórmula não se distancia muito de RPGs tradicionais, atribuindo diferentes tipos de habilidades para cada classe e exigindo do jogador abordagens diferentes para cada um deles, pensando no conjunto como um todo.

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Amarrando todo este sistema, temos o recurso de cooperação. Em qualquer momento, você pode optar por sacrificar um comando de seu herói para fazê-lo entrar em modo de cooperação, o que exige a participação de pelo menos um segundo personagem. Mantido neste estado, este primeiro personagem pode lançar os próximos heróis do turno para áreas mais distantes do cenário, antes impossíveis de serem alcançadas no mesmo turno. Além disso, realizar um ataque em uma área adjacente à de um personagem em modo de cooperação permite a realização de um ataque em dupla, mais poderoso que um ataque individual. É sempre gratificante identificar oportunidades onde ambas as possibilidades podem ser combinadas em um mesmo turno, para benefício do jogador.

Ainda mais interessante é a possibilidade de somar os ataques coletivos, cercando o futuro alvo com heróis colocados em posição de cooperação, deixando para que o último dê o comando de ataque. Quando isso envolve todos os personagens, realiza-se um ataque especial envolvendo toda a equipe, com direito a um grito de guerra personalizado pelo jogador. Este é o meu (porque botar a cara no sol é para poucas):

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As Instruções de Direção, que são os requerimentos especiais que aumentam a barra de audiência, é uma inteligente adição à fórmula dos combates, que poderiam soar repetitivos sem ela. Ao exigir do jogador certas ações, e recompensá-lo por sua dedicação em alterar sua abordagem e estratégia para realizá-las, o jogo faz com que seu progresso seja dinâmico, divertido e variado. Se não fosse por isso, provavelmente não passaria quatro ou cinco horas seguidas jogando Chroma Squad, sem a mínima vontade de parar – e, veja bem, jogos ultimamente têm me cansado com bastante facilidade.

Pode parecer pouco, mas o fato de Chroma Squad deixar com que você determine os nomes de personagens, da sua empresa e da equipe, além das frases de impacto ditas pelos heróis durante as lutas, torna a experiência como um todo muito mais pessoal e divertida. O jogo sempre encontra maneiras criativas de inserir seus inputs, seja durante a narrativa, os combates ou nos tweets fictícios que aparecem na tela de resultado, ao final de cada fase, quase sempre procedida de muitas risadas.

Chroma Squad ainda carrega aquele sabor especial de jogos antigos de MS-DOS de gerenciamento e estratégia, como Theme Park e X-COM, sem apelar para a pura nostalgia. Apesar da simplicidade, sua arte pixelada surpreende pelos pequenos detalhes, como as poses e animações únicas para cada personagem, as armas e equipamentos que refletem no visual de cada herói e nos cenários que, embora sejam quase sempre estáticos, sempre escondem alguma piadinha.

Acompanhando a identidade retrô, sua trilha sonora carrega a alma do chiptune dos anos 80 e 90, com melodias marcantes e agradáveis, que se encaixam perfeitamente ao ritmo comedido do jogo. De alguma forma, Raphael Müller e Washington Rayk conseguiram criar uma trilha genuinamente japonesa, colorida na medida certa, com um certo ar de Phoenix Wright, ainda que carregada de um tratamento mais moderno.

Análise - Chroma Squad
Chroma Squad possui incontáveis qualidades, mas a principal delas, talvez, tenha sido nunca parar de me fazer sorrir. De uma forma ou outra, ele está sempre me surpreendendo, seja com suas referências bem inseridas, que quase sempre me levam aos risos, seja pela sua forma brilhante de incluir a expressão do jogador à experiência, seja por um inesperado e tocante e-mail fictício sobre o amor de um pai e sua filha, seja por um delicado e sensível comentário sobre sexismo. Chroma Squad é bem mais do que um cruzamento inusitado entre simuladores de gerenciamento, RPGs em turno e super-heróis japoneses. Por trás de seus pixels rudimentares e suas mecânicas gratificantes, há um jogo que sintetiza o que há de mais admirável em uma geração inteira de indivíduos.
5
  • “POE A CARA NO SOL KIRIDA”

    • Leonardo Calça

      Cheguei 6 minutos atrasado haha

    • William Salomao Araujo

      o meu é “Ataque Supremo Ak47” e a minha transformação é Biladajin :v

  • Lucas Sobral

    Análise sensacional!

  • Adrien Pirmez

    Rbm estou adorando o Chroma Squad. Excelente palavras Rique.

  • Eriko Lima

    “Meu filhos estão malucos gritando “hora de vadiar” pela casa” AHUauuuahuua epic

  • Thiago ‘Wally’

    Caraca rique, que análise legal, curti muito o texto. Como também estou curtindo muito o jogo, e é incrível a sensação que o jogo passa. Ainda só vi a parte do sexismo e não acreditei como a mensagem foi passada, sutil, leve, mas totalmente relevante e importante.

  • Jovem Nerd No Armario.

    Eu estou gostando muito mas acho que tem uma pobreza em questão de mecânicas, a parte do Mecha é a mais desinteressante, o sistema de audiencia poderia ser melhor explorado, eu esqueço ele e sempre tiro a audiencia maxima, os menos poderia ser mais intuitivos na hora de vc reciclar, e equipar os personagens, a dificuldade também poderia ser melhorada, não sinto falta de dinheiro, e sinto que sempre estou muito forte para os episodios causarem desafios.

    As referencias, o humor, os dialogos, a possibilidade de customização de falas, levam tranquilamente ao 3 de 5, da mais um ponto porque a parte tática esta bem redonda, acho um 4 justo.