Intencionamente ou não, há algo da obra de Alejandro Jodorowsky em Toren. Embora não chegue a perturbar ou provocar, como faz com frequência o artista chileno, a primeira grande criação dos gaúchos da Swordtales também é esotérica, repleta de simbolismos e misticismo, que prioriza o belo e o subjetivo à concretude e concordância da linguagem, da lógica e da razão. É possivelmente um jogo incompreensível como um todo, mas que, de alguma forma, preenche nossa imaginação e desperta sentimentos.

À esquerda, o Alquimista de A Montanha Sagrada, interpretado por Jodorowsky; à direita, o Mago, de Toren.

À esquerda, o Alquimista de A Montanha Sagrada, interpretado por Jodorowsky; à direita, o Mago de Toren

Trata-se de uma experiência breve, linear, de aproximadamente duas horas, que envolve e instiga nas mesmas proporções, nos colocando em cenários surreais e nos impactando com belas imagens e melodias. Toren não é sobre desafio, grandes conquistas ou atos heróicos, mas sim sobre a poesia e simbologia por trás de tudo isso.

“O que eu estou tentando fazer quando uso símbolos é despertar em seu inconsciente alguma reação. Eu sou muito consciente do que estou usando porque símbolos podem ser muito perigosos. Quando usamos a linguagem normal nós podemos nos defender porque nossa sociedade é uma sociedade linguística, uma sociedade semântica. Mas quando você começa a falar, não com palavras mas apenas com imagens, as pessoas não podem se defender.” – A. Jodorowsky

Em Toren encarnamos a Criança da Lua, cujo destino é escalar a torre na qual está aprisionada, superando desafios físicos e mentais e derrotando o dragão que vive em seu redor. A previsibilidade desta jornada, contudo, é dissolvida rapidamente com o tratamento subjetivo dado à sua narrativa. Ao trazer à tona um misticismo filosófico dualístico sobre vida e morte, tempo e espaço, luz e escuridão, Toren vai além da tradicional jornada do herói, tão comum aos videogames e à fantasia, e transita pelo esotérico.

Por vezes, eu diria até que ele ultrapassa o limite do subjetivo, caindo na mais completa abstração, a qual apenas podemos apreciar. Tentar preencher suas lacunas com significados concretos pode ser inútil, principalmente quando o que se absorve é puramente sensorial e sublime.

“Beleza é o limite máximo que podemos acessar através da linguagem. Nós não podemos alcançar a verdade, mas podemos chegar perto dela através da beleza.” – A. Jodorowsky

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Toren, no entanto, nem sempre se comporta como deveria, e por vezes o encanto de seu feitiço pode ser rompido devido a problemas técnicos. Algumas animações mal resolvidas ou defeitos gráficos podem causar estranhamento e nos distanciar de sua fantasia, mas são os bugs que mais comprometem a experiência. Em meu jogo, me deparei com pelo menos três grandes bugs, que me obrigaram a retornar a checkpoints anteriores, o que, por sua vez, também me causou outras frustrações. Por conta disso, precisei jogar uma sequência três vezes seguidas, transformando o que inicialmente havia sido um momento de impacto em puro tédio, dado que a magia de Toren está na descoberta, curiosidade e encanto inicial de cada uma de suas sequências.

Um dos elementos mais interessantes da narrativa de Toren acaba não sendo muito bem aproveitado em suas mecânicas: as múltiplas vidas da protagonista. Conforme você navega pela torre, nota uma grande quantidade de estátuas de garotas e mulheres, em diferentes fases da vida. Ao ser petrificada pela primeira vez, fica evidente que todas as outras figuras femininas eram da própria Criança da Lua, em suas tentativas passadas de chegar até o topo da torre. Há breves vislumbres de uma grande ideia, como o momento em que a estátua de uma vida anterior lhe serve de apoio para atingir uma nova área, algo que, por si só, já é carregado de significados. Contudo, o que poderia ter enriquecido a mecânica central de Toren é apenas um elemento pouco explorado em sua história, que surge em momentos predeterminados. O próprio crescimento da garota, que se encaixa muito bem aos temas do jogo, é também baseado puramente no progresso da narrativa, nunca sendo explorado livremente pelo jogador enquanto mecânica, o que é uma pena.

Não fosse seu estranho e rico universo, provavelmente Toren seria um jogo ruim. Você não o joga pelo prazer e fluidez de suas mecânicas e controles, ou pela gratificação em realizar seus quebra-cabeças simplórios, mas sim pela fascinação e contemplação que ele causa. Ainda que não seja muito vasta e raramente permita que você vá muito longe, dividindo a progressão por segmentos específicos, explorar a torre é sempre instigante. Após adentrar em uma sequência de sonho, os momentos mais surreais de Toren, você ficará ansioso pela próxima, tão belas e inexplicáveis elas são.

O final de Toren me pareceu um pouco abrupto, talvez por que eu quisesse que a experiência se expandisse para além daquele momento, me mostrando mais daquele universo tão singular. E mesmo assim, quando tudo finalmente se encaixou, foi impossível não derramar lágrimas. Neste momento, todas as imperfeições de Toren se tornam um mero detalhe, e a única coisa que eu sentia era um arrebatamento emocional causado pelo poder de sua metáfora e poesia.

“Para arte ser arte ela precisa curar.” – A. Jodorowsky

Análise - Toren
Sim, Toren tem uma série de problemas. Ao evitar a comunicação com o jogador, permitindo que ele o descubra sozinho, alguns momentos se tornam mais confusos do que interessantes. Ideias de gameplay se repetem ou são usadas arbitrariamente, sem que sejam exploradas ao máximo. E existem os bugs. Mas nada disso tira o encanto, a sensibilidade, o espanto e a beleza de seus melhores momentos, e é deles que lembrarei daqui em diante.
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