Quando eu tinha lá pelos meus 5 anos eu me apaixonei perdidamente pelo chocolate Prestígio. Meu consumo foi aumentando exponencialmente até chegar ao ponto de comer uma caixa (umas 8 barras) em algumas horas. Porém, antes mesmo da minha mãe ativar o modo “genitora” e parar de comprar os chocolates, eu enjoei e nunca mais toquei no doce. Eu ainda o amo, ainda tenho sonhos estranhos que eu sou uma barra de Prestígio e plano pela cidade comendo outros Prestígios, mas não consigo mais chegar perto do chocolate na vida real. Batman: Arkham Knight é o meu Prestígio.

Selva de Pedra

A história de Arkham Knight se passa um ano após os acontecimentos de Batman: Arkham City e coloca como vilão principal o Espantalho, personagem que conseguiu amplificar o poder de sua toxina do medo e o alcance da mesma, obrigando toda a população de Gotham a fugir da cidade, deixando suas ruas livres para os bandidos – uma desculpa bem mais aceitável que o “frio” em Batman: Arkham Origins.

Junto do pânico criado pelo Espantalho, um novo inimigo entra em cena: o Arkham Knight, alguém que claramente possui problemas com o Batman e o conhece muito bem, inclusive sabe seus pontos fracos e a identidade de seus colaboradores. O novo vilão chega a Gotham com a missão de proteger e ajudar as forças do Espantalho a detonar uma bomba química que destruiria toda a costa leste dos Estados Unidos (além de acabar com o Batman, é claro).

Assista ao nosso Shuffle de Batman: Arkham Knight

Mas a chegada do Arkham Knight é tão massiva e totalitária, com milhares de soldados equipados com os melhores equipamentos, tanques de guerra e drones voadores controlados remotamente, que a dificuldade dos roteiristas fica em te fazer acreditar que o Batman é capaz de combater uma invasão tão grande – ou que o Arkham Knight é o pior comandante de uma invasão que insiste em enviar pequenos grupos para matar o Batman, sendo que ele possui um exército inteiro que poderia simplesmente desintegrar Gotham.

Batman: Arkham Knight - Arkham Knight

Além disso tudo, o próprio Batman não está bem. O embate com o Coringa em Arkham City o deixou debilitado tanto emocional quanto fisicamente. Rapidamente o justiceiro começa a mostrar não apenas um cansaço em relação aos vilões sempre querendo acabar com ele, como também parece que o herói começa a acreditar que a sua resolução em não matar nenhum inimigo é apenas uma maneira de criar ainda mais problemas. O Batman de Arkham Knight está indo para a guerra e não “apenas” defendendo sua cidade.

Com tudo isso em mente e a chegada de um novo vilão tão próximo de Batman, a Rocksteady deixa claro desde o começo do jogo que este título é o canto do cisne do herói. Ninguém é poupado em Arkham Knight e alguns eventos que ocorrem durante o jogo me fizeram questionar se o Homem-Morcego conseguiria seguir em frente mesmo. Mas a resposta para isso é sempre óbvia: ele é o Batman.

É interessante como o roteiro do jogo aborda todos os conflitos, mostrando como o herói está cansado e como se vê tomando decisões extremamente questionáveis – para não falar simplesmente estúpidas – enquanto busca corrigir seus erros. O que o faz cometer novos erros. O que o faz ficar mais cansado e debilitado emocionalmente. Em determinado ponto, uma morte é tão marcante e seca que coloca o herói de joelhos e o choque provocado no jogador é ver ele se levantar. O jogo acaba por deixar claro que a obsessão do Batman por justiça não é apenas o que o torna no herói resoluto que estamos acostumados, mas é o seu pior defeito também, fazendo com que ele pareça quase um míssil teleguiado – algo já abordado em exaustão nos quadrinhos, mas que ainda é um tema interessante e que segura a trama no jogo.

O final de Arkham Knight não é impactante como o de Arkham City, já que ele é anunciado seguidamente durante o jogo por diversos personagens diferentes. O final dele não é inesperado ou contraditório, ele é claro, pontual e tão implacável quanto insensível. O que não é ruim, mas não deixa gosto algum.

De qualquer forma, é inegável a qualidade da direção de arte de Arkham Knight. Pegaram o melhor dos Batmans de Tim Burton e acrescentaram a escuridão (e chuva, muita chuva) para deixar o título único. Ele não faz parte do verde de Batman: Arkham Asylum, foge do azulado de Origins e do marrom de City; Arkham Knight é um amálgama de tudo isso, tratando cada área da cidade de maneira especial, acompanhando até mesmo os eventos do jogo que transformam Gotham em uma cidade do medo.

Gotham

Novidades

O novo jogo da Rocksteady, que também fez Arkham Asylum e Arkham City, mantém firmemente suas bases de combate fluído (quase rítmico), ambientação “gótica-iluminada” e uma pegada meio metroidvania que te obriga a revisitar áreas com gadgets que você coleciona durante o jogo. Eles descobriram a fórmula do sucesso em Arkham Asylum e apenas continuaram a construir em cima dela, mantendo o que sabiam que estava bom e expandindo o foco para dar mais liberdade ao jogador enquanto controla o Homem-Morcego.

De Arkham Asylum para Arkham City – ignoro a existência de Arkham Origins pelo jogo não fazer parte do ciclo da Rocksteady e por ele ser horrível mesmo – a grande mudança foi a abertura do mapa, sendo que no primeiro jogo a trama era focada apenas no asilo, enquanto no segundo você poderia planar pela cidade sitiada e compartimentalizada de Gotham. Já Arkham Knight chega com um mapa ainda maior – são três ilhas que o jogador pode explorar praticamente desde o começo do jogo: Bleake, Miagani e Founder’s – e o Batmóvel como nova bugiganga.

A primeira novidade acaba por ser algo mais cosmético do que uma mudança real na série, já que o “mundo aberto” já era explorado desta maneira em Arkham City (ou mesmo em Arkham Asylum em certa medida). Planar pelas ruas dominadas por bandidos e milicianos continua tão prazeroso quanto sempre foi: sair do modo passivo de um ultraleve que plana ao sabor do vento para cair como um falcão em meio a inimigos desavisados continua a transmitir o sentimento do jogador como um ser superpoderoso e assustador.

Batman: Arkham Knight - Asa Noturna, Batman e RobinBatman: Arkham Knight - EspantalhoBatman: Arkham Knight - ArlequinaBatman: Arkham Knight - Era VenenosaBatman: Arkham Knight - Mulher GatoBatman: Arkham Knight - CharadaBatman: Arkham Knight - RobinBatman: Arkham Knight - Arkham KnightBatman: Arkham Knight - OráculoBatman: Arkham Knight - Batmóvel

Já o carro… Vamos tirar algo da frente: o ato de dirigir é agradável, a mecânica não é comparável a um jogo de corrida, mas entrega o que promete. Alternar entre o modo de locomoção e o de batalha é quase que orgânico, a animação é rápida como deveria ser e deixa o jogador confortável em alternar os estilos sempre que quiser. O problema é como a Rocksteady colocou essas ferramentas em uso, não apenas como um modo diferente de locomoção, mas como parte integral do jogo. Isso fez com que algo interessante e novo, com a capacidade de ser uma válvula de escape para o jogador cansado de voar e utilizado em missões secundárias, se transformasse em algo repetitivo e maçante. O Batmóvel virou uma âncora para o Homem-Morcego.

A história acaba dependendo muito do automóvel e da necessidade em melhorá-lo constantemente, até mais do que as habilidades e armaduras do Batman. Obrigando o jogador a realizar missões secundárias para ganhar pontos de habilidade o suficiente para dividi-los entre avanços de combate, armadura, gadget, habilidades de gadgets, armadura do carro e armas do carro.

O problema é que as fases que exigem combate veicular são mais difíceis, repetitivas e sem imaginação, forçando o jogador a focar na evolução do carro mais que em golpes novos para o personagem. E isso é provavelmente o oposto do que você quer fazer: você está jogando Batman, e não um Twisted Metal estranho e devagar. Não faz muito sentido.

Além disso, Arkham Knight apresenta a possibilidade do jogador controlar outros personagens como Asa Noturna, Mulher-Gato e Robin em missões específicas (normalmente em arenas fechadas). É bem legal a mecânica de você estar socando alguém com o Batman e poder trocar de personagem com apenas um apertar de botão, além de conseguir realizar finalizações em conjunto, aumentando rapidamente a quantidade de dano e o quão rápido você pode passar por uma cena de combate. Só que aí a Rocksteady te dá o gosto de jogar com o Asa Noturna e você quer sair pulando pelos telhados de Gotham com ele, mas o controle só existe naquela arena e você (eu) fica (o) triste. O Asa Noturna é mó legal.

Asa Noturna

Aquela hora que eu volto ao nariz de cera do começo da análise

Batman: Arkham Knight faz tudo o que os outros jogos da série fizeram de bom: combate, história, navegação, homenagens e referências para deixar os fãs do herói babando. Mas tudo está embalado em repetição e falta de objetividade. Eu gostei das primeiras 10 horas de jogo, mas na 15ª hora já estava cansado da enrolação para conclusão de alguns arcos. O maior problema das profecias que alguns personagens fazem sobre o fim da noite de Arkham Knight é que você rapidamente percebe que elas estão corretas, então tudo o que acontece entre o começo e o final só parece adiar o inevitável e consequentemente prolongar algo que não precisa ser arrastado.

Eu gostei muito de Batman: Arkham Knight, só não quero nunca mais encostar nesse jogo.

Mas outro dia eu consegui comer um pedaço de Prestígio…

Batman: Arkham Knight
Disponível para Xbox One (versão testada), PlayStation 4 e PC
Desenvolvido pela Rocksteady

Análise - Batman: Arkham Knight

Batman: Arkham Knight é o maior jogo da série, com uma cidade enorme para visitar, referências infindáveis que irão agradar tanto os fãs do herói quanto aqueles que apenas "conhecem de nome" o personagem. A adição do Batmóvel é interessante até se tornar repetitiva e obrigar o jogador a passar muito tempo desviando de saraivadas de tiros inimigos. Já os personagens secundários acabam por deixar saudades pois só podem ser utilizados em arenas fechadas de combate.

A massividade do título acaba por ser também o seu calcanhar de aquiles, já que implica na falta de objetividade na trama principal.

4
  • Leonardo Calça

    Bela análise! E essa comparação com o Prestígio, muito boa.

  • Zé Luiz

    Taí, Arkham Knight é uma overdose de Prestígio. Difícil pensar numa metáfora melhor. Parabéns pela análise, Teixeira.

  • KappaKeepo

    é um 4/5 ou um 4/10?

  • Muito boa Análise

  • Anderson Cardoso

    Grande Caio ótima analise!!

    O mais ironico é; olhem pra foto acima da analise bem do lado direito superior
    Speed Limit 30!!

    Abçs!

  • Caio Favero

    Pequenas palmas para toda a analogia com o prestígio

  • @MarcusMaia_

    A ultima frase me deu um sorriso na cara, parabéns pela analise!

  • Jonas S. Marques

    As vezes me da vontade de ser jornalista um dia só pra escrever uma coisa assim.

    Puta que pariu, que review.

  • dielveio
  • Lukas Tavares

    Ótima análise, mas ainda continuo odiando chocolate Prestígio…

  • Eric Estrada

    Excelente análise! Adorei o jogo, mas achei o uso do batmóvel repetitivo mesmo. Além disso, fazer todos os desafios do Charada pra ver o final todo é um abuso.

  • Lucas de Lima

    Ótimo texto, parece um ótimo jogo, absurdamente lindo e com um combate do caralho, mas acho que não vou chegar perto dele por um tempo.
    Além do preço estar muito alto, esse jogo parece ser muito isso que você disse, massivo demais. Talvez eu dê uma chance depois de The Witcher sair da minha cabeça.
    E além disso, odeio Prestígio…

  • Leonardo Jesus Martins

    Não gostei de duas coisas da analise:
    – a critica ao origins eu não gostei, acho que o jogo tem uma história bem amarrada e a jogablidade é igual, então por que é ruim?
    – A ideia do Batmovel era essa mesmo, de você usar e abusar dele, ele está na capa do jogo, penso nele muito mais como um personagem junto com o Batman do que como um acessório, é algo que sempre esperei e achei fantastico a jogabilidade com ele.
    E não se preocupe por não poder voar com o Asa Noturna, em breve eles lança DLC, já estou jogando o que tem a Batgirl e até agora to achando muito bom.
    Abraços.

    • Luccas Marques

      kra nao pode esquentar com uma analise dessas, eles nao respondem por todos, esse jogo nao tem defeito.Sele ele saiu com queda de frame, eles concertam e lançam novo patch como prometido,agora falar que ele e nota 8 kkkkk, dou risada dessa nota, quem conhece sabe que e 10 ou no caso 5.Sobre o origins , ele conseguiu manter a qualidade do arkham, a unica coisa q faltou na minha opiniao foi o barulho de trovao como golpe de finalização kkkk.

      • Leonardo Jesus Martins

        a velho, fico bravo. Todos pediam Batmovel, quando eles entregam um excelente trabalho, um monte de gente reclama. E como havia citado, vai ter DLC do Asa Noturna em Setembro, eu previ. kkkkkkkkkkkkkk

  • Juan Bestagno

    *******Spoilers**********

    Nao podeira concordar mais com a analise e tambem com tudo que tinha sido dito ate entao nos podcasts. E aqui vao meus dois centavos :

    Arkham Origins apesar de tomar varias porradas , muitas delas merecidas, fez duas coisas que poderiam ter sido copiadas pela Rocksteady no Arkham Knight, algo que na minha opiniao poderia ter melhorado a experiencia :

    1) Aproveitar melhor o modo detetive/investigacao do Batman. Ninguem esta pedindo para transformar o jogo em LA Noire, mas pelo menos repetir nem que fosse uma vez mais algo como a sequencia de reconstituicao do acidente da Barbara Gordon. Existem as partes de investigacao das cameras de seguranca sim, mas as sequencias de reconstrucao 3D de cenas de crimes poderiam ser tido uma espaco a mais, nem que fosse um tiquinho só, é uma quebra de ritmo muito bem colocada….trocaria facil 3 missoes “horde mode“ de desarmar bomba por uma reconstrucao de cena de crime a mais.

    2) Combates de chefe : A aparicao do Deathstroke no Arkham Knight me fez abrir um sorriso como o do Coringa, me incentivando a terminar as missoes-paralelas enchecao de linguica ( bombas, torres e bloqueios) para conseguir ver uma revanche do embate visto no Origins. Ledo engano meu, ja que depois de terminar as citadas side-quests , o confronto com esse vilao que seria o mais fisico a ser enfrentado pelo morcegao é reduzido a um “combate“ nos moldes ja saturados de “modo tanque com stealth“. Serio mesmo ???

    Ouso dizer até que o combate com o Firefly no Origins é superior, ja que no Arkham Knight sao tres encontros com esse personagen que sao absolutamente iguais e que se desenrolam sempre das mesmissima maneira.

  • Eric Estrada

    Assim que vc coloca o jogo pra rodar vc vê como Batman é o ”filhinho querido” da Rockstead. Tudo ali é feito pra te deixar de boca aberta. É uma superprodução muito bem arquitetada, bem executada, um primor. Não é um filme, nem quadrinhos; é um game – não dá pra funcionar exatamente como nos dois anteriores. O batmóvel está incrível. É o Batman de rodas! Rsrss. As dlc virão com missões com os outros personagens! Viva!