Her Story é uma experiência interativa bem diferente das quais estamos acostumados a encontrar em videogames. Ela é sobre curiosidade, exploração e um quê de voyeurismo, nos convidando a desvendar um mistério e, no processo, aprender os detalhes de uma vida, sua história, desejos, vivências, intimidade e sentimentos tidos durante todo seu trajeto.

O jogo começa abruptamente, colocando-o direto em seu cerne. Diante de um computador com uma interface antiga, do começo dos anos 1990, vemos um programa aberto com um campo de busca e arquivos de vídeo. O campo já vem preenchido com a palavra “murder” (assassinato) e rapidamente fica claro que os vídeos abaixo, todos apresentando uma mesma mulher em uma sala de interrogatório, fazem referência ao termo.

E é aí que sua investigação tem início. Palavras buscadas poderão resultar em novos vídeos, relacionados ao que está sendo procurado. A ideia é então assistir com atenção aos relatos a que temos acesso – todos, sempre, com a mesma mulher – e, a partir daí, pensar no que mais pode ser buscado. Às vezes um termo vem de maneira óbvia, como um nome citado em algum momento do interrogatório. A maioria, no entanto, requer um certo grau de interpretação, compreender de maneira resumida a mensagem presente ali, qual o tom do relato, qual palavra que é dada como se fosse um mero detalhe, mas que na verdade é uma chave muito importante.

Se isso soa vago é porque essa é a minha intenção. Explicar a natureza da mulher no vídeo, qual o assunto de suas falas ou sequer o que é que você está investigando seria entregar demais; seria explicar justamente aquilo que Her Story pede que você busque por conta própria. Juntar os pedacinhos, olhar as datas e de pouco em pouco montar um quebra-cabeças que compõe toda uma vida (ou, quem sabe, mais de uma) é maravilhoso. O próprio jogo faz questão de não nos pegar pela mão e dizer para onde temos que ir. Há alguns detalhes iniciais em um documento de texto, encontrado no desktop dentro do qual todo o jogo se passa, porém esse é apenas uma fagulha para que acendamos e sigamos o resto do caminho sozinhos.

Her Story

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O mais curioso é que, apesar de tudo ser um ato passivo – a mulher no interrogatório não está conversando conosco, tudo que estamos vendo já ocorreu há muito tempo –, passamos a estabelecer um diálogo com a figura. A sensação é a de que cada termo correto procurado fosse parte de uma conversa eloquente, tão sincera que a pessoa que nos ouve não tem escolha a não ser nos entregar um pedaço dela, se abrir, e mostrar a nós quem ela realmente é.

Dessa forma, enquanto há um mistério maior a ser desvendado que pode ser considerado como o objetivo de Her Story, o maior atrativo está nessa espécie de dança que fazemos com a personagem que enxergamos nos vídeos, que está ao mesmo tempo próxima e muito distante de nós. Você pode se dar por satisfeito quando tiver solucionado os eventos concernentes a uma ocorrência  maior, mas é, peculiarmente, nos fatos pequenos que a beleza e profundidade de Her Story se revela.

É como se aos poucos nos fosse permitido descascar as camadas que protegem a intimidade de uma outra pessoa, um honra dada a nós quando nos mostramos confiáveis ou estamos caminhando na mesma direção em um relacionamento. Compreender os termos que oferecerão novas informações tem uma semelhança ao ato de aprendermos mais sobre alguém de quem queremos nos aproximar, passando então a antecipar ações e sentimentos que ela possa expressar antes mesmo de externalizá-los. Pensar sobre tudo que é dito e então colocar uma palavra certeira no campo de busca, que abre o equivalente a um mundo inteiro diante dos nossos olhos, é extremamente recompensador.

Há um pouco de voyeurismo nisso, sem dúvidas, e assuntos que normalmente compartilhamos apenas com aqueles que mais confiamos – que não quero detalhar aqui para não eliminar a surpresa da descoberta a ninguém – causam um certo desconforto quando acessados por nós. “Por que eu pesquisei isso”, foi minha reação ao procurar pelos vídeos relacioados a uma certa palavra. E Her Story, em resposta, aparentava ter plena consciência disso, se revelando diante dessa busca apenas na medida do que fazia sentido.

Entretanto, reforço que são esses detalhes que tornam a experiência singular e especial. Não a toa, a maior parte dos vídeos a que podemos ter acesso não são concernentes à investigação que estamos fazendo. E por conta disso são ainda mais importantes.

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Você não precisa encontrar tudo para se dar por satisfeito em Her Story. Na verdade, eu argumentaria que é até melhor não cavocar além do que lhe parece lógico. Fazer isso seria como se forçar em alguém enquanto a outra pessoa se mostra fechada. Eu solucionei o mistério e aprendi muito sobre a figura que conversou comigo por cerca de três horas – quase tudo. Mas quando minhas ideias sobre ela, convertidas a palavras no campo de busca, seguidamente pararam de me oferecer resultados, vi como a hora de dar adeus a esse universo que me foi aberto momentaneamente e levar comigo o que eu havia aprendido.

Ao final, Her Story lhe faz uma pergunta relacioada a tudo que você viu, lhe questionando se você agora compreende melhor a mulher que viu nos vídeos e certas ações dela. Essa resposta, é claro, pode variar imensamente dependendo do quanto você explora e resolve permanecer por lá. Porém, depois de tudo que eu havia visto, depois de visitar tantos recantos de uma vida, com seus tropeços, vitórias e intimidades, eu só pude, sem nem titubear, responder sim. Definitivamente sim.

Nota: infelizmente, Her Story não possui tradução para o português. A única língua disponível é o inglês e a compreensão da mesma é essencial para a experiência.

Her Story
Disponível para PC (Steam)
Desenvolvido por Sam Barlow

Análise - Her Story
Her Story é uma experiência interativa diferente de qualquer outra, na qual somos convidados a resolver um mistério e, no processo, aprendemos detalhes, eventos e intimidade da vida de uma pessoa. Mesmo que através apenas de vídeos, a sensação ao final é a de termos estabelecido um diálogo e conhecido alguém, como se realmente tivéssemos que aprender suas nuances antes de nos aproximarmos.
4
  • rodrigo

    estranho… bem estranho…..

  • Adrien Pirmez

    vi esse jogo no GOG e logo pensei em vocês.. amantes de FMV’s

  • Rafael Aguiar

    quero muito jogar, e esse preço é muito tentador 😀

  • muito bacana esse jogo. “fechei” o jogo com 90 minutos, não sei se volto para “fuçar” mais um pouco ou não…

  • Juan Bestagno

    Fazia tempo que eu nao tinha uma surpresa tao boa quanto Her Story. É o tipo de jogo que eu voltava para casa pensando na hora que iria jogar ele de novo, querendo como o proprio Heitor exemplificou bem “cavocar“`cada vez mais a historia. Recomendo fortemente.