Há mais de uma década o casal Auriea Harvey e Michaël Samyn, fundadores do estúdio independente Tale of Tales, desenvolve jogos emblemáticos, experiências pouco convencionais que embora sejam amplamente apreciadas no campo da arte digital, não costumam fazer muito sucesso entre aqueles que mais consomem jogos. Isso tem mudado de alguns anos para cá. Depois de serem aclamados com Luxuria Superbia, uma experiência abstrata deslumbrante sobre intimidade e prazer sexual, o casal nos apresenta agora seu novo e mais concreto jogo até agora: Sunset.

Parcialmente financiado via Kickstarter em uma campanha transparente, inteligente e bem humorada, Sunset também, de certa forma, é um jogo sobre intimidade, mas desta vez tratada sob a riqueza de uma narrativa poderosa. Sunset faz com as décadas de 60 e 70 o que Gone Home fez com os anos 90: conta uma história humana inserida dentro do contexto cultural, político e artístico de um período histórico – algo comum em mídias centradas em narrativa, como a literatura e o cinema, mas ainda bastante raro nos videogames. E, tal como Gone Home, Sunset faz isso de maneira esplêndida.

A tremenda beleza de Sunset, que se estabelece entre o realista e o estilizado, também salta aos olhos. Me peguei tirando inúmeras “fotografias” durante minha experiência com ele:

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Apesar de este ser um período histórico fértil para narrativas, e um não muito distante do nosso, que abrange inclusive o nascimento dos próprios videogames e o momento de crescimento e amadurecimento de muitos de nós, os jogos raramente se propõem a reproduzí-los. E quando isso acontece, somos agentes especiais em missões militares, como Cate Archer em No One Lives Forever ou Big Boss, em Megal Gear Solid: Peace Walker.

Sunset nos dá a chance de encarnar Angela Burnes, uma imigrante norte-americana negra em Anchuria, país fictício da América do Sul, em 1972. Impossibilitada de voltar aos EUA devido um golpe militar, que colocou Ricardo Miraflores no poder, Angela, graduada em engenharia, sujeita-se ao emprego de faxineira em um apartamento de luxo.

“Viajei metade do mundo para acabar como empregada de limpeza? Podia ter feito isso em casa”, pensa, ao entrar na luxuosa residência. “A maior parte das pessoas em Baltimore não consegue imaginar uma mulher negra como algo diferente. Saí dos EUA para escapar dessa perspectiva, da estupidez e do ódio. E aqui estou eu, aprisionada num país que caminha para a ruína, a limpar a casa deste homem.”´

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A subida de elevador até o apartamento de luxo de Gabriel Ortega é um ritual semanal na vida de Angela Burnes

Angela é produto do ativismo sessentista black power que, ao fim dos anos 60, lutou para combater o racismo, fortalecer o orgulho racial e defender os direitos dos negros nos EUA. É também uma mulher de muito conhecimento, que entende a situação política delicada de Anchuria, sendo seu irmão um dos líderes oposicionistas da força de resistência contra o regime miltar. Não à toa, a protagonista de Sunset é uma homenagem à ativista política Angela Davis, que se destacou nos anos 70 em sua luta pelo direito das mulheres e contra a discriminação racial.

Uma vez por semana, sempre durante o pôr do sol, entre às 17h e 18h, Angela se desloca até o deslumbrante duplex de Gabriel Ortega, um homem ligado às artes e à política de Anchuria. O contraste entre a tensão das ruas e a serenidade da penthouse de arquitetura modernista abarrotada de objetos sofisticados de arte e design é apenas um dos muitos comentários feitos por Angela, enquanto ela rotineiramente aguarda a chegada do elevador até a residência do Sr. Ortega. A sensação de estar invadindo e bisbilhotando o espaço de alguém, um mundo o qual não lhe pertence, repleto de objetos que não fazem parte da sua realidade, é frequentemente tema de seus monólogos.

Conforme o sol se põe, invandindo o apartamento de cobertura de vidro com seus fortes raios oscilantes de tons laranja, podemos apreciar a beleza das coisas que fazem parte da vida do Sr. Ortega, um colecionador de arte nato. Inspirada no design de um apartamento de solteiro exibido em uma edição da década de 70 da revista Playboy, a residência meticulosamente recriada para Sunset é um exemplo do ecletismo setentista, combinando as formas geométricas brutas modernistas com obras art déco, art noveau, barrocas, renascentistas e africanas.

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A penthouse de Sunset é baseada no projeto de um apartamento de luxo divulgado em uma edição da Playboy dos anos 70

Artistica e esteticamente, Sunset é um deleite. É como visitar uma exposição de arte e design conforme ela é montada. A cada visita de Angela ao apartamento, novas encomendas, com móveis, utensílios domésticos, livros, pinturas e esculturas chegam ao novo proprietário. A obsessão pela tecnologia que tomou conta dos anos 60 e 70 em decorrência da corrida espacial se apresenta na forma de gadgets, uma cozinha repleta de botões e um centro de entretenimento, segurança e monitoramento, equipado com dezenas de aparatos tecnológicos, que toma conta de uma parede inteira do apartamento, escondido por painéis coloridos. É como se estivéssemos em um jogo baseado num filme de Stanley Kubrick.

Não apenas cabe ao jogador realizar as tarefas propostas pelo Sr. Ortega, durante o período máximo de uma hora de cada visita, como também xeretar por suas coisas, se ele assim o quiser ou tiver tempo – o que nos leva a pensar em tudo aquilo que alguém pode fazer com nossas coisas quando não estamos por perto. E, abastecidos pela nossa curiosidade, temos acesso à detalhes da vida de Gabriel, que claramente está passando por momentos difíceis, tanto profissional quando emocionalmente. Sua fragilidade fica exposta nas breves mensagens espalhadas pela casa, a qual podemos responder calorosamente ou de forma fria e racional, bem como na maneira como podemos resolver as tarefas caseiras propostas por Gabriel.

Empilhar os livros soltos e organizá-los em ordem cromática ou guardá-los na estante? Esconder o furo no suéter com um bordado de coração ou apenas costurá-lo? Estender o cobertor preto ou o edredom vermelho e felpudo sobre a cama? Todas as tarefas que nos são pedidas podem ser feitas de duas maneiras, que influenciam na maneira como Gabriel enxerga Angela e em sua leniência em se comunicar com ela. E destas pequenas ações, do jogo de intimidade envolvendo permissão e influência durante o relacionamento distante e binário dos dois, Angela pode encontrar a solução para acabar com o regime de Miraflores, além de um novo amor.

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Empilhar os livros soltos e organizá-los em ordem cromática ou guardá-los na estante? Hm… empilhá-los parece mais divertido, mas qual será a reação de Gabriel?

Há momentos em que Sunset pode ser um pouco vagaroso: quando o apartamento deslumbrante e suas obras de arte já não te instigarem mais, realizar as tarefas de casa e seguir uma rotina pode ser tão maçante quanto na vida real – a qual é, felizmente, constantemente quebrada com os inúmeros eventos que se desenrolam no decorrer fictício do ano e das estações. Manifestações e conflitos armados que eclodem pelas ruas, testemunhados por Angela da varanda – suas expressões de choque e preocupação refletidas nas janelas que ela mesmo poliu – frequentemente nos tiram do santuário pacífico do apartamento de Gabriel e enaltecem a gravidade da situação. Em Sunset, não estamos em meio à violência das ruas, mas temos uma relação íntima com alguns dos principais personagens que protagonizam aquela revolta.

Os constantes e interessantes comentários de Angela sobre sociedade, raça, intimidade, amor, identidade, arte e tantos outros assuntos que permeiam a narrativa de Sunset (e nossas vidas) tornam sua escrita extremamente rica. E, acompanhando a variedade de temas, somos agraciados com uma das trilhas sonoras mais plurais e originais do videogame recente. Compostas por Austin Wintory, da fama de Journey, suas canções, todas diegéticas e espalhadas pelo jogo através de discos, fitas e transmissões de rádio, abrangem os mais diversos gêneros, simulando estilos populares da época e da fictícia cultura anchu. Não há como não reparar e, por vezes, apreciar, enquanto sentimos nossos pelos arrepiarem, quando uma de suas músicas, algumas com vocais líricos, rompem o silêncio da solidão de Angela, acompanhadas dos disparos e explosões que eclodem nas ruas de Anchuria.

O fato de Sunset ser feito por artistas o torna extremamente valioso em significados. Por outro lado, é um jogo pesado e pouco otimizado, que embora tenha recebido atualizações, permitindo que você customize seu visual de acordo com a potência de seu computador, não há muito o que fazer para tornar sua performance mais suave. Há também alguns pequenos bugs de interface, que devem ser corrigidos ao longo das próximas semanas. Em última instância, Sunset tem um modo de baixa resolução bastante leve que, embora interfira na leitura de anotações e prejudique a visualização de certos objetos, faz com que ele seja uma bela experiência lo-fi.

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Em sua configuração mais modesta, Sunset se torna uma bela experiência lo-fi

 

 

Análise - Sunset
Sunset é um jogo poderoso e relevante, que pode ser apreciado por múltiplos ângulos. Mais do que nos introduzir a uma criativa experiência na qual a faxina é tratada como uma forma de comunicação e expressão dentro de um relacionamento baseado em ausência, Sunset constrói uma história de guerra e amor de maneira única e inventiva, sustentada por elementos visuais e sonoros extremamente ricos. A falta de otimização de seu código e de cuidado em sua interface e em alguns aspectos de seu visual podem comprometer a experiência, principalmente se você não tiver um computador muito potente, mas a quantidade de significados e sentimentos contidos em Sunset compensa qualquer falha técnica.
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  • Tais

    Eu ia resenhar sunset depois de coletar umas informações sobre o desenvolvimento e tu me destrói em pedacinhos com esse texto =| porra riquê

    • riquesampaio

      hehe desculpa?
      Aliás, vc viu o blog de desenvolvimento do jogo? O processo criativo deles foi bem transparente e detalhado. Sem falar que os textos do Michaël são sempre bem legais:
      http://tale-of-tales.com/Sunset/blog/

      E tem um tumblr tb cheio de coisas incríveis dos anos 60 e 70 que eles usaram de referência: http://anhourbeforesunset.tumblr.com/

      • Tais

        vi sim, vou ler com mais calma posteriormente. mas valeu, destruidor de lares! =P

  • Matheus Rafael

    Fiquei curioso, mas acho que meu Pc não aguenta o jogo.

  • Thiago Nunes

    Ótimo texto.

    Mas, só para contribuir para o bom SEO do Overloader: tá escrito “Megal” ao invés de “Metal” ali!