A metalinguagem e a quebra da quarta parede (que separa a obra e o indivíduo que a consome) estão presentes em alguns dos momentos mais impactantes dos videogames. De Metal Gear Solid a Batman: Arkham Asylum, jogos têm nos mostrado um potencial incrível de brincar com sua própria linguagem, escancarando suas entranhas lógicas (mágicas?) e projetando-se para a realidade do jogador. The Magic Circle leva tudo isso a um novo patamar, fazendo coisas que jamais tínhamos visto antes e desabando nosso queixo até o chão com mais frequência do que esperávamos inicialmente. Eu ainda custo a acreditar que este jogo exista.

Trata-se de mais uma cria de BioShock, que por sua vez faz parte da linhagem de System Shock, Thief: Deadly Shadows e Deus Ex, jogos que possivelmente representam os maiores avanços em narrativa interativa do videogame ocidental – Gone Home, por exemplo, um dos jogos mais relevantes dos últimos dois anos, faz parte dessa linhagem. Criado por Jordan Thomas e Stephen Alexander, que trabalharam juntos nos três jogos da série BioShock, além de Kain Shin, programador veterano responsável pela IA de Dishonored, The Magic Circle é o mais novo integrante dessa vertente.

Os próprios jogos da série BioShock tinham como característica o rompimento da quarta parede, sendo o final de Infinite um ensaio brilhante sobre os pilares da linguagem do videogame: a agência do jogador e a tomada de decisões. A diferença aqui é que The Magic Circle É inteiramente um ensaio sobre o que videogames são e a ilusão de uma realidade concreta que eles transmitem. E, para atingir esse poderoso efeito, somos inseridos dentro de um jogo fictício inacabado e ao processo de (des)construção do mesmo.

Aqui você não é um personagem ou um avatar. Você é você: uma entidade que inexplicavelmente (a priori) ganha “vida” dentro de um jogo em desenvolvimento do celebrado game designer Ishmael Gilde, autoproclamado Starfather, criador de um antigo e aclamado text adventure. Algo, no entanto, esta claramente dando errado no processo de criação. Apesar de estar há 20 anos em desenvolvimento (!), The Magic Circle (o jogo dentro do jogo) é uma desordem completa, resultado da incapacidade de Ish de gerenciar seu desenvolvimento e se comunicar com os artistas, designers e programadores que trabalham no projeto, dado seu ego inflado e atitudes autoritárias – o que possivelmente é reflexo de algumas personalidades que conhecemos na indústria de videogames.

The Magic Circle assume várias formas, mas na maior parte do tempo se passa em um mundo aberto de rascunhos em preto e branco, no qual a arte final ainda não foi inserida e objetos e cenários ainda passam por estudos de design, todos acessíveis ao jogador na forma de logs internos de desenvolvimento, atualizados pelos artistas, designers e programadores fictícios – e com textos muito bem humorados. Alguns deles, como o próprio Ish, são representados dentro do jogo como olhos flutuantes gigantes, discutindo sobre as decisões de design da equipe, em alguns casos, modificando-o em tempo real, enquanto você o joga, o que é sempre muito legal.

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Na forma deste suposto glitch, interagimos com os NPCs modificando suas propriedades e mudando completamente os comportamentos das criaturas que habitam o mundo para nosso próprio benefício. Como um hacker, podemos adentrar na lógica de programação que rege os comportamentos de criaturas e objetos, coletando seus atributos e inserindo outros no lugar. Desta forma, conseguimos transformar inimigos em amigos e alterar drasticamente suas capacidades. Em algumas horas, você terá um pequeno exército de criaturas dispostas a morrer em seu nome e realizar façanhas um tanto bizarras. Transformar um zumbi em um dispositivo de teleporte ou equipar um cogumelo com uma arma a laser são apenas algumas das inúmeras possibilidades.

É a partir da experimentação que você descobre como superar os puzzles espaciais de The Magic Circle. A liberdade é tanta que, em alguns casos, há a impressão que você está roubando no jogo e fazendo coisas de uma maneira “errada” ou, ao menos, diferente daquelas que os desenvolvedores previam – tanto os fictícios quanto os reais. E essa é uma das características de The Magic Circle: ele quer que você o quebre, o distorça e faça coisas que supostamente não deveria, porque no fundo, é sobre isso que ele é.

E quanto maior sua horda de NPCs, maiores suas chances de você ter uma habilidade certa para fazer determinada travessia, permitindo que você avance pelo mundo do jogo e descubra mais sobre suas entranhas. E quando você acha que está prestes a chegar ao que parece ser um desfecho, The Magic Circle dá mais uma de suas reviravoltas e se transforma, fazendo seu maxilar despencar.

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De repente, estamos tanto do lado de dentro quanto do lado de fora do jogo, mas dar mais detalhes de como ele faz isso seria estragar essa surpresa. O que vem a seguir são diálogos brilhantes sobre o conflito entre a autoria de um indivíduo e a demanda coletiva de quem consome uma obra, seguido de uma cena de humilhação pública na qual berros de desespero foram direcionados unicamente a mim. Eu me senti legitimamente intimidado. Por alguns momentos, eu realmente acreditei que estava sendo notado por um homem virtual do outro lado da tela do monitor. Eu não sabia mais onde o círculo mágico começava ou terminava.

Assista-nos jogar The Magic Circle em nosso Shuffle

“Todo jogo se processa e existe no interior de um campo previamente delimitado, de maneira material ou imaginária, deliberada ou espontânea”, diz Johan Huizinga, em seu clássico ensaio filosófico sobre jogos Homo Ludens. “Tal como não há diferença formal entre o jogo e o culto, do mesmo modo o ‘lugar sagrado’ não pode ser formalmente distinguido do terreno de jogo. A arena, a mesa de jogo, o círculo mágico, o templo, o palco, a tela, o campo de tênis, o tribunal etc., têm todos a forma e a função de terrenos de jogo, isto é, lugares proibidos, isolados, fechados, sagrados, em cujo interior se respeitam determinadas regras. Todos eles são mundos temporários dentro do mundo habitual, dedicados à prática de uma atividade especial.”

O círculo mágico é termo usado para simbolizar a imersão do jogador em um universo virtual e seu consequente desligamento temporário de seu próprio mundo. The Magic Circle, como o próprio nome sugere, é sobre essa experiência, e para te fazer refletir sobre isso, ele intencionalmente o desfaz diversas vezes enquanto você está dentro dele (ou ao menos causa tal ilusão) sem que você perceba, te pegando desprevenido. O efeito é sempre arrebatador.

Mesmo quando se reinventa e vira algo totalmente diferente da experiência anterior, The Magic Circle ainda dialoga com a experiência na qual havia te inserido anteriormente, reaproveitando elementos das mecânicas anteriores para algo ainda mais impactante. É como uma sucessão de finais de Fez ou BioShock Infinite, nos quais somos surpreendidos das formas mais inesperadas. E, de repente, um estalo e tudo se encaixa perfeitamente. É um desfecho brilhante para uma sátira brilhante.

The Magic Circle
Disponível para PC, Mac e Linux via Steam
Desenvolvido e distribuído pela Question Games

Análise - The Magic Circle
Com ideias, mecânicas e textos excepcionais, The Magic Circle é uma sátira sobre videogames como nenhuma outra. A constante quebra da quarta parede é apenas um pequeno detalhe em um jogo que diz tanto, sobre tantas coisas, em tão pouco tempo. Mais do que apenas uma série de momentos impactantes e uma reunião inusitada e incrivelmente coerente de ideias criativas, The Magic Circle é um dos comentários mais contundentes e interessantes já feitos sobre o game design do ponto de vista humano, sendo ele próprio game design.
5
  • Jonas S. Marques

    Caralho, Rique, que análise.

    Fiquei com vontade de jogar mas, como é puzly não vou conseguir, o que é uma pena.
    Mas e´bom ver esse movimento que já e´tão maduro no cinema vindo para os jogos.
    Novamente, parabéns pela análise.

  • Jonathan B.

    Na semana passada eu vi esse trailer no Steam e pensei: Ok… Muito ácido, não. Mas sua análise me fez entender melhor a proposta e quanto potencial esse jogo pode ter.
    Vou dar uma chance…