Considero Dear Esther um dos jogos mais importantes dos últimos anos. Ao se despir completamente de mecânicas e nos apresentar uma experiência em primeira pessoa minimalista, baseada unicamente em subjetividade narrativa e com um forte apelo literário, visual e sonoro, sem os elementos que tradicionalmente caracterizaram jogos, ele praticamente estabeleceu um novo gênero. Como consequência disso, algumas pessoas, guiadas pela visão puramente funcional dos jogos, passaram a chamá-lo de “walking simulator”, uma vez que a única ação prática feita pelo jogador é andar. Outros sequer o reconheciam como jogo, dada sua ausência de mecânicas. Dear Esther gerou discussões, causou impacto e dividiu a indústria, tornando-se notável tanto para quem o jogou quanto para quem não o fez. Para mim, Dear Esther foi uma das experiências mais arrebatadoras e emblemáticas que já tive com videogames, uma tão poderosa que, ao seu final, me peguei encharcado em minhas próprias lágrimas, incapaz de compreender a profusão de sentimentos que ele havia despertado.

Depois disso, é claro que minhas expectativas para Everybody’s Gone to the Rapture eram enormes. O novo jogo escrito e dirigido por Dan Pinchbeck é uma conquista e tanto: é a prova de que há demanda para experiências narrativas poderosas aos moldes de Dear Esther fora do PC, dado o fato de que a própria Sony abraçou seu desenvolvimento, tornando-o exclusivo do PS4. A discussão se ele é um jogo ou não foi, finalmente e felizmente, superada –  considerando também que, depois de Dear Esther, outros jogos incríveis seguiram sua linha, como Gone Home. Podemos simplesmente aproveitar a experiência, sem entrar em debates cansativos sobre classificação e definição. Só é uma pena que ele não seja tão bom quanto estes.

Em Rapture somos… alguém. Ou alguma coisa. Exploramos em primeira pessoa o condado inglês Shropshire durante o início dos anos 80, momentos após uma suposta epidemia que devastou a vida humana local. Enquanto vasculhamos casas, praças, calçadas, quintais, escolas, cafés, estacionamentos, parques e tantos outros ambientes que compõem seus cenários bucólicos e provincianos, somos introduzidos a uma série de personagens, moradores do bairro, ligados ou não aos eventos que resultaram na morte de seus habitantes – e possivelmente, do mundo inteiro.

Videogames são familiares com histórias apocalípticas, mas não a forma intimista, humana e poética de contá-las, como as de Rapture. Trata-se de uma ficção científica com foco nos últimos momentos de indivíduos comuns, enquanto viviam suas vidas simples e cotidianas, e também das pessoas responsáveis pelo acidente que resultou na morte de todos.

Através de flashbacks, provocados por estranhos globos de luz que flutuam pelos cenários e projetados nos próprios ambientes, somos introduzidos à múltiplas histórias, direta ou indiretamente ligadas aos protagonistas, os físicos Stephen e Kate, que trabalhavam no observatório instalado em Shropshire.

Stephen era um morador local que, após dar início a uma pesquisa nos EUA, envolvendo a teoria da relatividade, se casou com Kate, pesquisadora com a qual trabalhava. Após a inauguração de um centro de pesquisas em Shropshire, o casal se muda para o condado inglês e Stephen volta a ter contato com as pessoas que havia deixado para trás, enquanto Kate precisa lidar com sua má recepção pelos moradores e as relações inacabadas de Stephen.

everybodys-gone-to-the-rapture-14O texto de Rapture está entre os melhores de seu gênero. Todos os diálogos são expositivos, sempre revelando algo de seus personagens e contribuindo para adicionar uma peça ao quebra-cabeça da história que, a partir unicamente de flashbacks, vai sendo contada ao jogador. Seu maior problema, contudo, está em seu escopo. Dear Esther e Gone Home são experiências minimalistas, fechadas em ambientes pequenos (ou ao menos, bem menores que o de Rapture), o que ajudava o jogador a manter o ritmo sobre o progresso da narrativa e o seu foco à trama. Apesar da qualidade inquestionável da narrativa de Rapture e suas paisagens lindas e detalhadíssimas, os quais amei explorar e observar, sua tentativa de introduzir uma escala muito maior de personagens e cenários mais amplos acaba desfavorecendo a experiência.

Rapidamente você identifica uma estrutura em Rapture: o nome de um personagem se destaca na tela e um cenário fechado, contendo fragmentos de sua história, envolvendo ele e outros personagens, são espalhados pelo ambiente. A misteriosa esfera flutuante de luz instiga o jogador a explorar os ambientes, permanecendo próxima de locais onde possa haver coisas interessantes a serem vistas, nunca forçando-o ou pegando-o pela mão. Após desencadear todos os eventos principais, você precisa se direcionar a um local específico (que você só descobre a partir da sua exploração, quase sempre arbitrariamente), onde um desfecho para aquelo trecho do jogo é exibido, permitindo que o jogador avance para uma nova área, em que um novo personagem será explorado.

É certamente uma forma interessante de contar a história, mas que rapidamente se torna previsível e, em alguns momentos, enfadonha. Os cenários em si são mais decorativos do que narrativos: sempre lindos e detalhadíssimos, tornando a experiência bastante contemplativa, mas raramente complementam a trama de maneira significativa. Tudo gira em torno dos flashbacks. Isso, somado ao caminhar entre os locais de ativação de história nos enormes ambientes, faz com que lacunas sejam criadas – momentos nos quais não estamos recebendo nenhum tipo de nova informação, apenas explorando a esmo, esperando que alguma coisa aconteça. Eu não queria admitir, pois amo jogos calmos, não-violentos e a utilização da linguagem dos videogames para contar histórias ricas e humanas, mas passei pelo menos uma hora, das cinco que devem ter durado minha experiência, querendo apenas tirar um cochilo no sofá. Às vezes Rapture pode ser um tanto entediante.

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Na maior parte do tempo, contudo, o jogo da The Chinese Room é intrigante e emocionante. Ele consegue despertar empatia e desgosto por seus personagens mesmo que só possamos ver suas silhuetas iluminadas. O clima de mistério se mantém suspenso durante toda a jornada, e objetos como TVs, rádios e telefones adicionam não apenas relatos, diálogos e monólogos que complementam a trama, mas também um certo elemento de terror, quando você entende a ligação entre eles e o motivo da morte daquelas pessoas. O drama e a sensação de explorar uma pequena vila do interior da Inglaterra são intensificados pela maravilhosa trilha sonora e sua excelente dublagem – que se perde um pouco na versão em português brasileiro, até pela falta do sotaque britânico, vale avisar.

Rapture é certamente a tragédia mais humana e poética já contada nos videogames. Ainda que ela seja previsível (todos morrem, surpresa!) e evite artifícios como reviravoltas, se focando apenas no que há de mais mundano na vida (e na morte) daquelas pessoas, há ali pequenas e valiosas histórias sobre aquilo que mais nos define como humanos: nossa natureza social e constante busca por amor e companhia. Mas ao tentar ser abrangente demais, com seus múltiplos personagens e amplos cenários, Rapture acaba minimizando o impacto dramático, por mais belo e sensível que ele seja.

Análise - Everybody's Gone to the Rapture
Talvez Everybody’s Gone to the Rapture não cause o mesmo choque emocional e a provocação de Dear Esther, optando por uma estrutura mais acessível e compreensível. Deixando um pouco de lado a subjetividade, Rapture explora a intimidade dos últimos momentos de vida de pessoas comuns, sem grandes arcos dramáticos, mas se perde um pouco ao inserir personagens demais na trama e tornar seus lindíssimos cenários um empecilho para o desenvolvimento da narrativa.
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  • Marcello Duarte Crescencio

    E a trilha sonora, Rique? Quero ouvir seus dois centavos sobre a trilha sonora que eu tô ouvindo sem parar no Spotify…

  • Guilherme Gondin

    Só é uma pena ele ser exclusivo de PS4.

  • Carlos Gilberto

    Nossa vejo tantas pessoas falarem mal dele que fico meio triste mas compreendo, ele é um jogo meio impossivel de platinar pois ele vai ser realmente cansativo para fazer algumas coisas, contudo como Marcello citou a trilha sonora dele é sensacional, e a historia dos personagens é incrivel, digo que a primeira parte é um tanto lenta, todavia a segunda metade do jogo eu fiquei bastante emocionado e tem um ritmo muito bom.
    É um jogo que me surpreendeu muito, sendo que nunca joguei games com essa tematica.
    e ótima analise

  • Roberto

    Análise incrível, me deixou morrendo de vontade de experimentar isso.