O primeiro episódio do novo King’s Quest, chamado de A Knight to Remember, tem um início repleto de promessa, mas não demora muito para que uma mescla de estilos que não são explorados ao máximo entrem em conflito, criando um bicho que não se decide por um gênero e acaba por ser quimera que não consegue fazer tudo que promete.

A aventura começa de maneira muito interessante. Toda a moldura da narrativa está em uma história sendo contada pelo velho Rei Graham à sua neta, que ouve atentamente – e dá seus pitacos – às divagações do monarca. Os comentários de ambos permeiam as ações que tomamos como Graham em sua versão mais jovem, que é quem de fato controlamos no jogo. Assim, ao olharmos um objeto ou interagirmos com um item, é costumeiramente a voz da versão idosa do personagem que ouvimos, transparecendo à neta as ideias que tinha tido na ocasião.

Como o narrador comenta ativamente e descreve cada passo tomado na história e recebe intervenções da garota, especialmente para reclamar de seus trocadilhos infames, nossas ações ganham uma cor distinta. A série King’s Quest sempre teve um tom similar aos presentes em contos de fadas e com esse enquadramento, de um avô passando conhecimento através de contos, essa temática é mantida nessa releitura moderna do clássico da Sierra. Observar partes mundanas do cenários, normalmente algo que é chato em um adventure, me instigava, porque queria ver o que a dinâmica entre Graham – que tem uma atuação excelente por parte de Christopher Loyd – e a neta me trariam. Além disso, como o Rei já viveu esses eventos, seus comentários por vezes já nos dão uma ideia clara de objetos com os quais nem devemos perder tempo.

King's Quest - Chapter 1: A Knight to Remember

King’s Quest – Chapter 1: A Knight to Remember

Porém, assim que começamos a de fato jogar, os diversos problemas deste novo King’s Quest vêm à tona, infelizmente por vezes submergindo o charme transparecido não só pela dupla de narradores, como também pelos outros personagens com os quais nos deparamos e o mundo bem realizado e encantador dentro do qual a aventura se passa.

De cara, o prólogo denota parte disso. Cronologicamente, a introdução se passa posteriormente aos eventos principais de A Knight to Remember, contando a última aventura de Graham antes deste se tornar o rei de Daventry, ocasião em que ele teve que descer em um poço dentro do qual mora um dragão, em busca de um espelho mágico. Esse trecho já mostra certa estranheza, pois os elementos que compõem um adventure raramente são encontrados aqui. O que as cavernas abaixo do poço guardam são uma série de puzzles de “aperte o botão X em vez do Y”, cenas de ação em que temos que segurar uma direção constantemente (ou ficar variando entre duas no teclado, porque a movimentação claramente foi mais pensado para um controle) e acertar Quick Time Events.

Essas não são exatamente as características que você espera de um jogo que traz o nome “King’s Quest”, mas isso é só o início, certo? Apenas um pedaço para aclimatar o jogador. E, de fato, uma vez superado esse trecho o velho Graham começa a narrativa central do episódio, na qual os moldes do título se tornam um pouco mais similares aos clássicos da Sierra, mas não abandona os trechos de ação nem os QTEs.

O jovem Graham deseja se tornar um cavaleiro e para tanto deve participar de um torneio, eliminando um a um seus adversários. O mundo então se abre e podemos vagar por aí, conversando com pessoas, trolls e coletando toda sorte de itens com os quais nos deparamos. E é mais ou menos nessa hora que uma outra peculiaridade do trabalho da The Odd Gentlemen fica mais evidente: para chegar a qualquer lugar é preciso andar.

King's Quest - Chapter 1: A Knight to Remember

King’s Quest – Chapter 1: A Knight to Remember

Talvez essa última frase soe ridícula por si só, mas o ponto é que você deve se locomover através de cada parte do cenário, uma a uma, para chegar onde quer ir. Tal qual Grim Fandango ou Fuga da Ilha dos Macacos, nós temos o o controle direto de Graham, como em um jogo de plataforma, sendo impossível fazer viagens rápidas até um outro cenário ou abrir um mapa e selecionar uma localização.

Há um motivo pelo qual adventures abandonaram totalmente esse modelo (e que o próprio Grim Fandango tornou opcional e sua edição remasterizada). Andar de um canto para o outro é muito chato. Existe uma enorme quantidade de cenários em que não há nada para ser feito, nos quais tudo que você faz é segurar uma direção e esperar o personagem chegar até o outro extremo da tela. Além disso, estamos falando de um adventure. Por mais que a dificuldade de King’s Quest – Chapter 1: A Knight to Remember seja no geral bem baixa, é comum apagarmos momentaneamente da cabeça a localidade de algum objeto com o qual podemos interagir, anda mais se já o vimos há algum tempo. Assim, é  às vezes é necessário vagar pelo cenário até encontrarmos o que queremos para resolver um puzzle, o que ocorre da maneira mais vagarosa o possível aqui.

Alguns locais são muito bonitos e há algo válido na coesão que há no ambiente de Daventry criado aqui. Os diálogos e eventos são um pouco mais cômicos do que o eram nos jogos antigos – especialmente por conta dos guardas do reino, que poderiam tranquilamente estar em um longa do Monty Python – e há sempre detalhes vivos, como pequenos animais ou olhos ameaçadores espreitando nas sombras, que tornam as caminhadas um pouco mais agradáveis. Entretanto, não demora muito para esse vagar seja mais entendiante do que qualquer outra coisa, ainda mais nas horas em que você sabe exatamente o que quer fazer, mas precisa de alguns minutos para estar no ponto em que a ação pode ser executada.

King's Quest - Chapter 1: A Knight to Remember

King’s Quest – Chapter 1: A Knight to Remember

Sobre essas ações, não espere que os enigmas de King’s Quest tenham qualquer semelhança com os presentes nos títulos originais da série. Esse é um adventure nos moldes daqueles feitos hoje em dia, em que parece haver um temor constante de que o jogador se encontrará por mais de cinco minutos sem saber o que fazer. Ele não chega a se calcar somente em narrativa como faz a Telltale, porém saber onde utilizar os itens pegos dificilmente o fará coçar a cabeça em indagação. Os poucos objetos com os quais podemos interagir em cada área são destacados e se pudermos usar um item ali ele aparecerá no centro da tela de nosso inventário. Quando um artefato não precisa receber nada de nossa parte essa tela aparece turva, então você raramente encontra situação em que não sabe o que deve usar com o quê.

Isso não é um problema em si, já que a citada Telltale provou que você pode criar algo que agarra o jogador por completo sem a necessidade sequer de enigmas. O esquisito aqui é o fato da The Odd Gentlemen parecer querer atacar todos os fronts sem se comprometer com nenhum deles. Os puzzles, como o são agora, são só um leve flerte com o que tínhamos no passado. Nenhum é difícil o suficiente para tirar aquele delicioso “eureca!” de nossas gargantas quando finalmente o resolvemos. E a mistura desses com os trechos de ação, apinhadas de QTEs, só empobrece ainda mais o todo. Para piorar, falhar nessas horas oferece uma punição terrível – quando morremos o progresso não é perdido, mas é normal termos que rever uma cutscene inteira novamente, que não pode ser pulada; aliás, nenhum diálogo do jogo pode ser pulado, nunca, então prepare-se para ouvir as mesmas descrições algumas vezes caso observe algo um punhado de vezes.

Essa indecisão sobre qual estilo seguir, misturando jogabilidades diferentes sem grande sucesso, aparece com força nos momentos que competimos com outros cavaleiros em busca do primeiro lugar. O jogo passa a ideia de que devemos usar de nossa sagacidade para compensar a proeza física de nossos oponentes. No entanto, em vez de isso aparecer para o jogador como puzzles inteligentes e condizentes com a natureza do franzino Graham, as resoluções desses trechos são grandes deus ex machina, em que acidentalmente, em meio a controles meia-boca voltados à ação, a solução do que deve ser feito é praticamente dada de graça a nós. Mais do que frustrante, é decepcionante que algo que carregue a alcunha de King’s Quest apele a algo tão simples para a conclusão de alguns momentos-chave desse primeiro capítulo, aqueles que deveriam mostrar exatamente onde está a maior qualidade do futuro rei.

Dito isso, há um germe de algo interessante na estruturação de certos puzzles que possuem mais de uma solução possível. Próximo ao início de A Knight to Remember, três conselhos sobre como conseguir o olho de uma besta – necessário para entrarmos na competição de cavaleiros – nos são dados, sendo cada um deles pertencentes a caminhos que representam coragem, inteligência e coração. Cada um deles é um caminho diferente de como se conseguir o olho em questão, com resoluções distintas. Essa decisão e outras escolhas menores que são opcionais (algumas com as quais me deparei de forma acidental) mudam a forma como os habitantes de Daventry nos enxergam. Isso, por enquanto, não teve consequências, porém elas devem ser sentidas nos capítulos subsequentes.

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Essa ideia de diversos enigmas que podem ser escolhidos para se chegar no mesmo objetivo é uma muito inteligente, especialmente porque oferece mais chances do jogador não ficar travado sem que ele sinta que tem recorrer a respostas. Eu só gostaria que houvesse mais ocasiões em que isso surgisse. É especialmente chamativo o contraste da criatividade presente nesses momentos com a resolução dada às etapas do campeonato em que Graham participa.

Hás coisas ruins em King’s Quest – Chapter 1: A Knight to Remember. As decisões de controle são incompreensíveis e os Quick Time Events são chatos e frustrantes. Mas há também algo aqui que ainda está me prendendo, que me faz querer ver como a história irá em frente. O charme dado pelas observações do Rei Graham idoso ajudam muito e estou curioso para saber se haverá consequências reais em resposta às minhas decisões e mais ocasiões em que teremos mais de uma solução possível. A Knight to Remember não é o início mais incrível de todos – e certamente não é exatamente o que você espera quando escuta o nome de King’s Quest – mas o que há de positivo aqui pode crescer em algo realmente bom. Por enquanto estou decepcionado, mas, até ver o próximo episódio, permanecerei esperançoso. Resta ver se a The Odd Gentlemen seguirá nessa direção, ou se se calcará justamente nos elementos que foram menos interessantes nessa estreia.

King’s Quest – Chapter 1: A Knight to Remember
Desenvolvido pela The Odd Gentlemen
Distribuído pela Sierra
Disponível para PC, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360 e Xbox One
Versão testada: PC
Nota: King’s Quest (2015) é um jogo episódico, dividido em cinco capítulo e um epílogo

Análise - King's Quest - Chapter 1: A Knight to Remember
O primeiro episódio de King's Quest, A Knight to Remember, parece um pouco perdido, sem saber se decidir por qual gênero abraçar e seguir. Apesar de não ser a melhor estreia do mundo, há ideias interessantes aqui que possivelmente serão melhor exploradas em capítulos subsequentes.
3
  • Anderson Cardoso

    Levando em consideração que o Heitor é um exímio jogador desses jogos clássicos points n clicks e coisas do genero não tenho o que reclamar de tudo o que foi escrito aqui, porém, acho um erro analisar um jogo episodico.

    Joguei a pouco o game por mera curiosidade pois nem ao menos sabia que era uma espécie de revival ou remake ou seja lá como querem chamar, sinceramente senti totalmente o inverso do que foi citado na analise!

    Quando todos os eps forem disponibilizados terei minha opinião mais firme com certeza e saberei se valeu ou não a pena jogar ainda bem que não estou preso ao jogo antigo pois assim não me influencio pela armadilha da nostalgia gamer!

    Abçs!

  • gustavo

    Quais os idiomas disponiveis nesse jogo!?

    • Heitor De Paola

      Inglês, francês e alemão.