O subgênero de filmes chamado “Slasher” sobrevive de golfadas de ar cada vez mais esparsas e rasas, tal qual uma vítima de Michael Myers (assassino da série Halloween): traçam esse tipo de mídia diretamente do século XIX, mas podemos falar que ela teve seu auge entre o final dos anos 70 até o meio dos anos 80, com filmes como Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e o Massacre da Serra-Elétrica. Entra aí mais um tempo em que o subgênero fica sem respirar por momentos a fio, levando a crer que morreu, mas retorna ao final dos anos 90 com a série Pânico e seus “primos”, voltando a parar de respirar no começo dos anos 2000. Until Dawn, jogo exclusivo de PlayStation 4, é mais um desses cada vez mais curtos suspiros.

O jogo da Supermassive Games – estúdio que só faz exclusivos para plataformas PlayStation, mais especificamente explorando jogos com controle de movimentos – bebe diretamente de fontes como Heavy Rain e Beyond: Two Souls. Você controla personagens diferentes tentando desvendar quem é que está tentando matar um grupo de amigos. E a partir deste momento preciso tangenciar o máximo possível a história do jogo, já que ela é completamente baseada não apenas nas escolhas de cada jogador, como também é cheia de reviravoltas, o que faz com que qualquer detalhe contado aqui possa estragar a experiência para os que não gostam de spoilers ou simplesmente ser diferente do que você escolher.

Until Dawn

A história de Until Dawn começa com um rápido prólogo mostrando o desaparecimento/morte das jovens gêmeas Beth e Hannah Washington durante uma viagem entre amigos à casa de inverno da família no meio das montanhas nevadas dos Estados Unidos. Após o incidente, diretamente ligado a uma pegadinha que os amigos pregaram em Hannah, o irmão delas, Josh, decide “comemorar” o primeiro ano do desaparecimento das irmãs levando todos os amigos de volta para as montanhas e festejar, tentando assim um “fechamento” para a história.

Após chegarem à casa fica rapidamente claro que o grupo não está sozinho nas montanhas. Jornais espalhados pelo local indicam que um criminoso fugitivo teria ido para aqueles lados antes de desaparecer. Além disso, eventos sobrenaturais começam a se manifestar pela casa, com objetos se mexendo sozinhos, portas abrindo ou trancando e até mesmo algum predador desconhecido espreitando entre as árvores, isso sem falar no manicômio abandonado e uma mina caindo aos pedaços.

Com todos estes elementos apresentados (criminoso, fantasmas, um Sanatório abandonado, um bicho esquisito e até mesmo objetos que concedem profecias) é que Until Dawn vacila. O jogo não esconde em momento algum que é uma grande ode aos filmes de “terror adolescente”, colocando todos os clichês o mais rápido possível em uma só história. O que isso causa é uma narrativa meio esquizofrênica, pulando de personagem em personagem e se esforçando para mostrar todos os ângulos possíveis de vários temas diferentes que por vezes contam com uma ligação meramente marginal. Não foram poucas as vezes que eu encontrei fragmentos de documentos que apontavam o roteiro para lugares completamente obtusos para serem esclarecidos de maneiras titubeantes.

Para traçar um paralelo, Until Dawn se propõe a fazer algo parecido ao filme O Segredo da Cabana (Cabin in the Woods), uma grande homenagem a uma gama gigantesca de filmes e arquétipos facilmente reconhecíveis. Mas onde o filme acerta o jogo erra: Until Dawn se leva extremamente a sério. O título quer que você encare as decisões mais estúpidas, as reações sem o menor sentido e a completa falta de emoção para coisas absurdas (“nossa, essa vela acabou de acender sozinha, maneiro”) da maneira mais natural do mundo. Until Dawn se calca nos anos 90 com o atraso de mais de uma década.

Until Dawn

Se você conseguir suspender sua descrença para com a história, e nos videogames isso é necessário mais vezes do que eu gostaria de admitir, você encontrará um segundo obstáculo: os controles. Você se locomove com a alavanca da direita enquanto a alavanca da esquerda controla para onde o personagem está olhando, sendo que a câmera – que é incrível, com um dinamismo que acrescenta um tom de suspense muito bem-vindo – não é controlada pelo jogador. O motivo para o esquema de controles ser assim faz sentido, já que a câmera travada não te dá lá muita liberdade de andar pelos cenários, e mover a cabeça do personagem faz com que você encontre os objetos passíveis de interação. Mas algo fazer sentido não significa que está bem implementado. Não foram poucas as vezes que eu tinha certeza de estar olhando a frente para só então perceber que o personagem estava o tempo todo olhando para sua direita, ou então, na troca de uma câmera, a direção das alavancas alterar e tudo ficar extremamente confuso. Eu sei que esse não é o primeiro jogo a fazer isso, mas me parece que seria um problema superado a essa altura do campeonato.

Além da movimentação existem os quick time events (quando uma ação vai acontecendo e você precisa apenas apertar os botões mostrados na tela no momento correto) que mesmo eu não sendo fã funcionam bem no título. E são por estes QTEs que as cenas de ação acontecem em Until Dawn. O jogador nunca irá encontrar momentos que controla o salto ou o combate do personagem, tudo funciona por QTEs. Por Until Dawn ser muito focado na história, não existir uma mecânica específica de combate e movimentação limitada não é um problema, mas acaba inserindo aquele dilema antigo dos QTEs: são cenas tão legais que eu adoraria estar controlando o personagem.

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Mas nem tudo que acontece no jogo vem diretamente dos QTEs. O título coloca o jogador para decidir muitas das atitudes dos personagens, decisões que vão de morais até “Você quer utilizar um atalho ou correr pelo caminho mais seguro? ”. O interessante é que todas as escolhas acabam criando situações que podem mudar completamente a história (a morte de um personagem) ou apenas dificultar uma parte específica (o atalho é difícil e exige mais rapidez nos QTEs), o que acaba fazendo você se questionar o tempo inteiro, “mas e se eu tivesse escolhido a outra coisa…? ”. O que confirma o marketing de Until Dawn, que afirmou que existem “centenas” de finais diferentes para o jogo e que pode fazer com que os jogadores recomecem o título para descobrir as outras realidades.

Until Dawn também apresenta uma série de dados sobre cada personagem, como suas qualidades de caráter (corajoso, engraçado, romântico) e de quais outras pessoas do grupo eles estão mais próximos, sendo que tudo é dinâmico e muda a cada nova decisão. Às vezes você pode ajudar um personagem, fazendo com que você se aproxime dele, mas o afaste de outro. Às vezes você pode decidir explorar uma área sozinho, aumentando a sua coragem. Só que em nenhum momento notei que estes dados são utilizados pelo jogo. Nunca aconteceu de um personagem com o status de coragem baixo desistir de fazer algo considerado corajoso. Ou a perfeita cooperação de dois personagens que se odiavam. O jogo te mostra dados interessantes e com ótimo potencial narrativo apenas cosmeticamente.

De qualquer forma, é interessante como algumas decisões que aparentam ser extremamente bestas acabam tomando formas que mudam completamente a história. Às vezes fazer uma piada com um taco de beisebol acaba colocando o objeto em um local necessário para você salvar um personagem num momento posterior, e isso é bem interessante, porque te coloca em um estado permanente de “ultra análise”, o que ajuda no clima do jogo – sem falar que toda vez que você toma uma decisão que terá consequências cruciais no futuro, o jogo indica com um “Efeito Borboleta atualizado” e você inevitavelmente entra em um modo de ansiedade e antecipação.

Algo que não pode passar batido é a tecnologia utilizada para a captura de movimentos dos atores que interpretam os personagens de Until Dawn. Não que as interpretações sejam necessariamente boas (ou ruins), mas é realmente impressionante como os movimentos estão fluidos, as expressões críveis e como os olhos dos personagens não são coisas sem vida e assustadores como normalmente são nos videogames.

Until Dawn tem algumas ideias interessantes (o Efeito Borboleta das decisões, os status pessoais e sociais de cada personagem), mas acaba falhando em entregar o principal da experiência: uma história verdadeiramente interessante. Sim, tomei sustos e fiquei apreensivo em alguns momentos, mas assim que o jogo acabou a narrativa central só ficou ainda mais boba e infantil. Os personagens não possuem profundidade e muito do que acontece possui uma explicação extremamente rasa, que não explora o universo criado. Until Dawn só não falha tanto quanto Lenda Urbana e suas continuações.

Análise - Until Dawn
Until Dawn tem o "coração no lugar certo", mas isso não elimina os problemas do jogo. Controles mal implementados, personagens rasos e história capenga acabam minando um jogo com muito potencial. De qualquer maneira, fãs dos filmes slasher podem encontrar uma ótima homenagem ao estilo no jogo.
3

  • Caio Favero

    Eu fiquei meio espantado com o lançamento de Until Dawn. Me parece que esse jogo teve um marketing muito fraco, principalmente por ser um exclusivo e ser do interesse da Sony gerar awareness pros exclusivos dela

    • rodrigo

      estranho isso né…acho que eles sabiam que não é algo for all

  • Alex Matheus

    Fiz a pré-compra, espero não me arrepender. Mas pow.. 3? o.o

    • Weslley Ngr

      Não merece mais do que isso.

      • Alex Matheus

        Já jogou e fechou?

        • Weslley Ngr

          Sim.

    • Rodolfo Cardoso Pires

      Merece 10 o jogo.
      Eu comprei e não me arrependia, fechei 2x e vou jogar de novo pra mudar a decisão dos personagens.

  • André Vasconcelos

    Acho que o problema desse jogo foi a quantidade de mudanças que ele sofreu durante sua produção, lembram que ele era pra ser um jogo do Ps Move? Essas mudanças apesar de necessárias, tem um custo na qualidade e identidade de um jogo.

  • Filipe Ritto

    Total topo um playthrough de vocês até o final do jogo. ‘-‘

  • Rodrigo Soares

    Quanto tempo de jogo?

    • Rodolfo Cardoso Pires

      Na primeira vez que joguei levei 7h30

  • Alex Matheus

    Estou com ele em mãos, e até onde já joguei, estou gostando.

  • Rodolfo Cardoso Pires

    Joguei e amei.

    Já zerei 2x, falta só 2 itens para completar todos os itens e totens, não achei a historia fraca como no texto acima.
    Não vale a pena levar tudo o que foi escrito em consideração, se eu tivesse lido o texto antes de comprar, não teria comprado, ainda bem que não li.
    Recomendo, é um ótimo jogo.

    A historia é ótima, a caracteristica dos pensonagens influenciam sim no jogo e tanto no final.