Assassin’s Creed Syndicate é um bom jogo, mas é preciso estar disposto a aguentar muitas coisas ruins para se enxergar isso. Nesta nona entrada da série (contando apenas os lançamentos principais) a ação volta mais aos eixos e escapa do desastre que foi Unity, nos fazendo lembrar por que já gostamos de Assassin’s Creed no passado. No entanto, é frequente o questionamento de como é possível que existam tantas coisas que continuam quebradas exatamente da mesma forma que eram há tantos anos.

O maior mérito de Syndicate está em fazer com que as atividades espalhadas por Londres – local no qual a aventura se passa – sejam satisfatórias e façam-nos sentir que nossa presença causa impacto, que há uma progressão aos nossos personagens. No começo da história nos é dito que a cidade está dominada pelos Templários há mais de 100 anos, porém isso não se manterá assim por muito tempo. Ela em breve será chacoalhada pelos gêmeos Jacob e Evie Frye que, cansados de seguirem as ordens de seu mestre Assassino, vão à metrópole para libertá-la (de acordo com o que o Credo deles vê como liberdade, algo que é altamente questionável).

Controlando ambos (que são quase idênticos, tirando algumas habilidades avançadas específicas que podem ser aprendidas), o que ocorre é que boa parte da dominação templária no lugar se dá através dos Blighters, uma gangue que povoa todos os distritos de Londres. Assim, para combatê-la, os gêmeos criam sua própria gangue, os Rooks, cabendo a nós realizar uma missão em cada distrito, diminuindo assim a presença inimiga e aumentando os números daqueles que nos seguem.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

A qualidade dessas missões varia de acordo com os objetivos que são pedidos de nós. Algumas das mais divertidas envolvem eliminar todos os Blighters de um local específico ou libertar crianças que estão sendo submetidas a trabalho escravo, para isso sendo preciso usar de furtividade e de todo o arsenal a que sempre tivemos acesso, como escalar por construções, saltar em cima de oponentes assassinando-os no processo, atraí-los para esquinas com assobios e pegá-los de surpresa, arremessar facas e dardos que os deixam ensandecidos, pistolas e assim por diante. Nada da fórmula de Assassin’s Creed é desviada nessas mecânicas, mas a estrutura física desses locais e a brevidade dessas missões fazem com que elas sejam divertidas. Outros objetivos são um pouco mais tediosos, como os que pedem que sequestremos um alvo, levando-o a uma carruagem com vida. Mas, de novo, ao menos eles acabam rapidamente e, depois disso ser feito, o distrito passa a ser dos Rooks, fazendo com que de pouco em pouco Londres esteja novamente (teoricamente) livre.

Apesar de ter mencionado mecânicas que não representam novidades à franquia, existe algo inédito em Syndicate que contribui para que o simples ato de navegar pela cidade seja melhor. Tal qual Batman, nossos assassinos agora empunham um gancho em seus punhos, que pode ser disparado nos telhados de prédios, nos levando do chão ao topo em questão de segundos. Ele também pode ser usado horizontalmente, criando tirolesas de telhado em telhado e aumentando a velocidade de locomoção. Isso não elimina totalmente o elemento de escalada, já que às vezes é preciso que nos esgueiremos com mais cuidado, mas o gancho elimina boa parte da travessia pela cidade.

É curioso que o dispositivo que é a maior novidade do título é também uma forte evidência sobre o quanto que essa série precisa mudar. Ao pensar sobre isso, fica claro que boa parte do motivo de Syndicate ter me agradado – e isso se aplica também a Black Flag –  ocorre por ele, de certa forma, ser menos Assassin’s Creed do que outros Assassin’s Creed. O gancho é algo positivo porque elimina uma mecânica que é um dos pilares da franquia. O jogo é melhor por, agora, ser um pouco menos o jogo que era anteriormente.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

Diminuir a frequência com a qual temos de escalar construções é também positivo porque esse ato continua sendo um com constante potencial de frustração, tal qual sempre foi. Ele é mais resumido, utilizando aquilo que foi apresentado em Unity, em que para subir ou descer temos apenas de segurar uma direção e um botão continuamente. Isso é suficiente para que nosso personagem chegue onde queremos com certa frequência, porém ainda é comum ser uma briga só descer de cercas e pequenos muros, se pendurar do lado correto de beiras, conseguir pular precisamente onde desejamos, nos posicionarmos em tempo em um local para que peguemos um inimigo e outras coisas mais. Eu entendo que os mundos de Assassin’s Creed são vastos e complexos, repletos de detalhes e pontos nos quais nós podemos nos agarrar. Mas, depois de nove jogos, é insano que os problemas vistos na estreia da franquia continuem a aparecer. Nada foi resolvido, e, com exceção dos barcos, apenas vimos mais mecânicas serem empilhadas no topo, quase sempre funcionando apenas bem o suficiente, mas sem que nenhuma delas seja espetacular.

Nessas horas, Assassin’s Creed me lembra dos modelos da Revell que eu montava quando era pequeno. Era preciso cuidado para destacar, limar e colar as peças, algo que eu não tinha. Os modelos eram terminados e ficavam de pé – isso é, desde que não fossem muito manuseados. Era questão de pegá-los nas mãos para vê-los com mais cuidado que eles se desfaziam. Asas caíam, rodas saíam rolando, estruturas quebravam. Syndicate – e a franquia da qual ele faz parte – são até hoje largamente assim. Quanto mais tempo você passa nesses jogos, mais tudo desmorona, mais aquilo que é quebrado aparece, mais aparenta que tudo está cambaleando.

Isso brotou não só na forma de controles irritantes que com uma constância alarmante nos deixam na mão, como também em inúmeros pequenos bugs. Houve uma dezena de vezes que tive de retornar ao checkpoint porque a IA não ativava seu script, me deixando em becos sem saída, além de um problema com a derrubada que podemos executar em outros personagens. Esta possui um bug que passei a conseguir replicar sem problemas, em que basta derrubar alguém perto de uma carruagem para que esse personagem apareça em cima da mesma, congelado em uma pose estranha. Depois que isso ocorre não é mais possível interagir com ele, o que também me obrigou a recomeçar algumas missões.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

E ao falar de coisas que estão para desmoronar, é impossível não mencionar a narrativa de Syndicate, que é estúpida além da conta. Eu, como muitos outros, achava que as conspirações apresentadas no início, na época de Assassin’s Creed II, eram bem divertidas e a indagação de como elas se desenrolariam me atraía. Entretanto, a essa altura, a trama desses jogos é uma piada. Os personagens de Syndicate têm a profundidade de uma folha de papel e os diálogos são terrivelmente mal escritos. Os discursos dos vilões  – em especial do inimigo maior, um homem que parece estar constantemente tentando imitar Daniel Day Lewis, falhando miseravelmente no processo – são compostos inteiramente de clichês previsíveis e chatos, e, a essa altura, não há como não questionar as motivações que alimentam essas duas facções.

Templários dizem que querem levar a humanidade para frente, nos conduzir, mas isso não os impede de matar inocentes apenas com o propósito de deixar claro para o jogador que “eles são do mal”. Os Assassinos, por sua vez, enquanto clamam por liberdade, continuam a fazer justiça com as próprias mãos, não vendo nenhum problema em matar simples ladrões de rua. Eu tive a impressão constante de que se me sentasse em um bar com um membro desse culto não demoraria mais do que dez minutos para ouvi-lo exclamar que “bandido bom é bandido morto”.

A discrepância das atitudes dos Assassinos fica mais evidente devido ao contexto histórico cada vez mais perto do nosso que os jogos estão começando a ter. Estamos falando do final do século XIX, uma realidade bem próxima, mas os Assassinos continuam a não questionarem se está correto julgarem por conta própria qualquer um que vejam como oposição. O mais estranho é que, fora poucas missões que nos proíbem isso, os gêmeos matam sem problema nenhum a polícia e guarda real de Londres, que nos atacam não por fazerem parte de uma seita que secretamente quer dominar o mundo, mas simplesmente por verem que estamos cometendo crimes em plena luz do dia. Um dos ápices do meu desconforto ocorreu ao término de uma sequência em que Graham Bell diz que nossos atos são todos “em prol da liberdade de expressão”. Isso ocorre logo depois de termos chacinado uma dezena de membros dos Blighters que ficaram em nosso caminho que, ao menos pelo que é apresentado pelo jogo, são todos pertencentes às classes mais pobres de Londres, condenados a apenas seguirem ordens.

O que é mais frustrante é que, apesar disso tudo, eu continuo achando que Assassin’s Creed Syndicate é um bom jogo. Como disse, você tem que estar preparado para esbarrar em coisas muito ruins, elementos que tratam o jogador como idiotas. Mas se você for capaz de aguentar isso, dominar Londres e progressivamente ficar mais forte é algo prazeroso.

Assassin's Creed Syndicate

Assassin’s Creed Syndicate

Algo que foi resolvido aqui é que há uma progressão engajante atrelada aos nossos personagens. Nós ficamos mais fortes no decorrer da aventura e todas as missões secundárias oferecem recompensas palpáveis. Além do domínio de distritos, ajudar as figuras que nos cercam, como Karl Marx e Charles Dickens, traz a possibilidade de nova armas e equipamentos, além de dinheiro que pode ser usado para deixar nossa gangue mais forte. Durante um bom tempo usei a bengala de Dickens como arma, o que, admito, é estúpido, mas é um tipo de estúpido que apoio.

É legal também que a dificuldade voltou a existir em Syndicate e de forma inteligente. Áreas de nível mais alto possuem inimigos que nos destroem instantaneamente se tentarmos enfrentá-los diretamente, mas são relativamente tranquilas de serem terminadas se usarmos de furtividade, o que é condizente com as habilidades dos Assassinos. Assim, se você for capaz de cometer poucos erros (e, infelizmente, é normal que seu maior inimigo nesses momentos sejam os controles) conseguirá mais facilmente ficar forte e se verá podendo entrar em combates sem receio, caso assim queira.

Além disso, o design das missões da história em si (algo separado do domínio de distritos) está melhor do que jamais foi pois há uma variedade maior de objetivos. Nem todos funcionam, mas ao menos é possível sentir que há uma tentativa de se fazer algo diferente. Seguir pessoas secretamente, por exemplo, algo universalmente odiado, mas que aparecia em todos os jogos em uma boa quantidade, aqui é relegado a uma ou duas instâncias, sendo uma delas opcional.

Os assassinatos principais, em especial, são chamativos por ampliarem uma das poucas boas ideias introduzidas por Assassin’s Creed Unity, apresentando de antemão diversas opções táticas ao jogador. Além dos pontos de entrada nos prédios onde nossos alvos se encontram, é preciso decidir que tipo de aproximação faremos. Por exemplo, em um momento podemos encontrar a pessoa que carrega a chave para uma porta que precisamos abrir ou, se preferirmos, é também possível se infiltrar no necrotério local e tomarmos o lugar de um cadáver, sendo então levados ao ponto no qual aquele que desejamos assassinar se encontra.

Outros jogos já ofereceram gamas de escolhas de maneira mais competetente do que Syndicate, mas isso não significa que o que está aqui não tenha também valor. É só uma pena que alguns desses momentos tenham sido arruinados para mim por conta de brigas com os controles e regras mal explicadas. Felizmente, isso volta e meia pode ser remediado porque a inteligência artificial do título é uma especialmente burra. Sério, é comum inimigos estarem ao seu lado enquanto você elimina um parceiro deles e não perceberem nada de errado. É preciso também mencionar que é maravilhoso que, desde o péssimo final dado a Desmond em Assassin’s Creed III, finalmente não somos mais obrigados a realizar minigames com a figura que está acessando o Animus no presente. Tudo que há são cutscenes curtas.

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É curioso. Mesmo depois de pensar sobre minha experiência e relendo o que coloquei aqui, me sinto conflitado. Eu gostei de Assassin’s Creed Syndicate e acabei fazendo muito mais do que imaginei que faria, ao ponto de ter limpado quase todos os distritos da presença de Blighters. Ao mesmo tempo, houve coisas que continuamente me irritaram e frustraram. É inaceitável que os problemas de sempre continuem a persistir tanto tempo depois, sem nenhum sinal de que houve uma tentativa de remediá-los. E, por mais que tenha fica claro há um bom tempo que a trama desse universo se perdeu completamente, o desenrolar dela e a motivação dos personagens está em um novo nível de ruim, ao ponto de parecer simplesmente preguiçoso.

Ainda assim, mecanicamente ele me engajou e foi prazeroso ver os gêmeos ficando cada vez mais fortes e capazes de mais facilmente eliminar qualquer oposição. É completamente compreensível não achar que vale a pena aguentar tudo que há de ruim aqui para se chegar nos bons momentos. Mas se você acha que é capaz disso, encontrará coisas que valem a pena em Syndicate. Minha única dúvida restante é se eu conseguirei fazer isso mais uma vez. O cansaço a Assassin’s Creed se prenuncia há alguns anos e, depois de Syndicate, sinto que a o restante da energia se foi. Não sei se, depois deste, conseguirei esboçar interesse por um novo título da série. Me parece que, além de mim, muitos outros estão no mesmo barco.

Análise - Assassin's Creed Syndicate
Assassin's Creed Syndicate escapa da mazela que foi Unity e volta à boa forma com algumas novas ideias. Porém, ainda há muito aqui que precisa mudar ou que não funciona, sendo necessário aguentar uma boa parcela de coisas ruins para se observar o que vale a pena.
3
  • Márcio Barbosa

    A análise que eu precisava ler. Muito boa. Obrigado Heitor. <3

  • Henrique Borges

    Vou esperar pra pegar esse jogo ano que vem.

  • Elton Alves Do Nascimento

    A trama não se leva a sério, simples assim, os diálogos são bobos e as vezes infantis, mas eu encaro isso como proposital. Eu, particularmente, não vejo tantos defeitos e nem presenciei tantos bugs, embora meu jogo tenha travado ao ponto de reiniciar o console SOZINHO. Tô jogando e curtindo bastante, beeem mais do que curti o Unity e menos do que curti o Black Flag. Pra mim o jogo evoluiu bastante em termos de mecânicas, os controles não são perfeitos, mas uma vez que você entende os controles e usa a burrice artificial ao seu favor, o gameplay se torna ótimo

  • Tiberg Lima

    Boa análise. Sei que o deadline foi provavelmente curto, mas tem alguns erros de gramática no texto.
    Desculpa eu ser chato….

  • Matheus Mauro

    ~ Eu tive a impressão constante de que se me sentasse em um bar com um
    membro desse culto não demoraria mais do que dez minutos para ouvi-lo
    exclamar que “bandido bom é bandido morto”. ~

    hahaha