Há pouco mais de dois anos, Tomb Raider recebeu um novo e necessário recomeço. O reboot foi marcado por mecânicas sólidas, uma estrutura inteligente e uma nova Lara Croft, mais jovem e inexperiente. Mas enquanto a história pintava uma heroína sensível e humana, o jogo fazia dela uma assassina implacável, aos poucos transformando-a em uma máquina de guerra. Rise of the Tomb Raider se livra, em partes, desta discrepância, enquanto expande as qualidades mecânicas do título anterior.

A continuação leva em conta os acontecimentos do jogo passado como pano de fundo para a construção da personagem, o que pode ser notado nos áudios das sessões de terapia realizadas por Lara no período que precede os eventos de Rise of the Tomb Raider. O sentimento de culpa, aliado a sua vontade de redimir o trabalho do pai, que morreu sem conseguir provar a existência de um suposto artefato divino capaz de conceder ao portador imortalidade, a levam a uma nova aventura na Sibéria, com uma rápida passagem pela Síria. Assim, Lara passa a maior parte do tempo escalando montanhas geladas, deixando pegadas sobre a neve, investigando antigas bases soviéticas e descobrindo cavernas glaciais.

Sua estrutura é essencialmente a mesma: uma sucessão de hubs principais, recheados de segredos e objetos para descobrir e coletar, além de desafios especiais, tumbas e, desta vez, algumas missões oferecidas por aliados. Ligando estas grandes áreas, existem “corredores” que basicamente servem para levar a ação e história adiante, até a chegada ao próximo hub, onde ela se expande com novas tarefas opcionais, até que o jogador decida novamente progredir na trama — e ao próximo “corredor”.

Rise of the Tomb Raider tenta implementar um pouco da estrutura de mundo aberto, que certamente contribui para acentuar a sensação de descoberta, sem deixar de lado a experiência linear, onde se concentram as sequências de tiro e os momentos “cinematográficos”, onde tudo explode, desaba e pega fogo só porque é legal, bem aos moldes do concorrente Uncharted. E com a possibilidade de viajar rapidamente entre os acampamentos espalhados pelo mundo do jogo (exatamente como no original), você sempre pode retornar a áreas já visitadas para remover bloqueios, utilizando novas habilidades adquiridas.

Rise of the Tomb Raider

Por alguma razão, nada disso faz com que Rise of the Tomb Raider pareça propositadamente inflado, apenas para durar mais, como é o caso de jogos de mundo aberto da Ubisoft, nos quais realizar tudo aquilo que não é necessário para nosso progresso acaba tornando a experiência mais entediante. Como os cenários não são modulados, você nunca verá áreas copiadas e coladas, que possam dar aquela sensação de “já passei por aqui antes”. Isso faz com que sua curiosidade e exploração não sejam apenas recompensadas com pontos de experiência, trechos de narrativa (escondidos em documentos, que revelam detalhes sobre os locais navegados e personagens) e acesso a novos itens e habilidades, mas, especialmente, com um delicioso senso de revelação e contemplação.

Entrevista: Rise of the Tomb Raider destaca o lado inteligente e inspiracional de Lara Croft

As tumbas escondidas são o melhor exemplo disso. Tal como no jogo original, além de visualmente impressionantes, elas são totalmente opcionais, e vencê-las garante a Lara itens ou habilidades novas, que embora não sejam necessárias para dar prosseguimento à campanha central, a ajudam em sua jornada. E é justamente nestas missões paralelas, investigando esses lugares misteriosos, repletos de histórias, murais, objetos esquecidos pelo tempo, armadilhas e mecanismos, que Rise of the Tomb Raider se sobressai. Mesmo que Lara costume “pensar alto”, dando dicas ao jogador do que ele deve fazer, superar os elaborados quebra-cabeças das tumbas e templos exige observação, experimentação e raciocínio lógico. Eles envolvem coisas como peso, tração e drenagem ou inundação de covas, geralmente envolvendo maquinários e plataformas móveis. Solucioná-los quase sempre resulta naqueles momentos de descoberta, acompanhado de um agradável “arrá!” e uma porta se abrindo para a sala secreta do tesouro. A Crystal Dynamics, de fato, sabe como recompensar o jogador pelo seu esforço.

A maior ironia aqui está no fato de que justamente o que há de mais fascinante no novo jogo e que melhor representa Tomb Raider — a exploração de tumbas e templos está no nome da série, afinal — seja algo opcional, enquanto que os tiroteios desenfreados, que felizmente não são constantes, permanecem obrigatórios, parte da experiência central do novo título. Mesmo que eliminar soldados genéricos possa ser tão gratificante e divertido quanto resolver problemas lógicos, físicos e espaciais, o combate aqui novamente soa forçado, e não apenas por conta da incompatibilidade da ação com a personagem, mas pelo simples fato de que ela, uma jovem arqueóloga, está dizimando sozinha uma facção militar inteira, qualificada para invadir um pequeno país da Europa.

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Você é incentivado a agir sorrateiramente, se escondendo em arbustos e fazendo mortes limpas, o que normalmente termina com Lara enfiando uma faca na jugular do inimigo ou atravessando seu crânio com seu machado de escalada ou flechas, assim, sem misericórdia alguma. Mesmo que simplórias perto de jogos realmente stealth, como Metal Gear Solid V (uma vez notada, é impossível se esconder para despistá-los, por exemplo), essas mecânicas são divertidas, mas não isentas de erros, que fazem os soldados responderem muitas vezes de forma absurda, quando como me joguei sem querer sobre um deles do telhado e seu comparsa resolveu apenas dar de costas e seguir seu caminho predefinido, como se nada tivesse acontecido.

Ao mesmo tempo, barris explosivos e armadilhas mortais parecem brotar do chão sempre que há inimigos por perto. Garrafas de bebidas alcoólicas, latas e walkie-talkies, que podem ser instantaneamente transformados em coquetéis molotov e bombas, com as habilidades corretas, estão o tempo todo te lembrando que você pode simplesmente mandar tudo pelos ares. A escolha é sua e, sinceramente, me diverti das duas formas, mas quando você passa pelo centésimo barril explosivo (que é provavelmente o clichê mais batido dos videogames) não há como não achar a ação de Rise of the Tomb Raider, às vezes, bem pouco inspirada.

Para justificar a matança, o título apresenta os soldados inimigos como lunáticos que adoram seu líder, Konstantin, um religioso puramente mau, obcecado pela ideia de imortalidade, sem nenhuma profundidade ou justificativa para seus atos. Você sabe que ele é o antagonista por cenas como a que, sem nenhuma razão aparente, ele afunda os olhos de um de seus capangas e o larga no chão, se debatendo de dor. É provavelmente o personagem mais ralo, caricato e desinteressante, razão para que a única escolha moral oferecida ao jogador não cause impacto algum, em certo momento do jogo. Sua irmã e parceira no crime é um pouco mais interessante, devido sua ambiguidade e proximidade a Lara, ainda que seus motivos sejam igualmente tolos — o que faz com que, talvez propositalmente, as personagens femininas sejam as mais interessantes em Rise of the Tomb Raider.

RIse of the Tomb Raider

Em geral, a trama funciona, principalmente por conta dos flashbacks que nos ajudam a entender as motivações de Lara e os documentos e audio logs encontrados pelos cenários, mas isso não significa que ela seja tão melhor que a do jogo anterior. Basta dizer que, durante o jogo inteiro, incontáveis vezes acontece de um personagem ter sua vida previsivelmente poupada devido a intervenção inesperada de alguém ou algo.

Para substituir o multiplayer, que simplesmente não colou no jogo original, a Crystal Dynamics introduziu o modo Expedições, uma espécie de versão “arcade” da experiência principal. Conforme você avança na aventura, os cenários são destrancados neste modo, e podem ser jogados em uma versão contra o tempo e profundamente alterados com modificadores, em uma disputa pela melhor pontuação, com placares online. Além disso, com o dinheiro coletado durante o jogo, você pode comprar pacotes de cartas aleatórias que, quando usadas previamente às partidas, adicionam vantagens e desvantagens. De coisas comuns, como começar a fase sem munição e receber bônus na pontuação final por isto, a outras absurdas, tal qual deixar Lara com uma cabeça enorme (tornando-a mais facilmente atingida pelos disparos inimigos), a modalidade permite que você crie variações dos desafios propostos originalmente.

Mesmo que Rise of the Tomb Raider não tenha uma narrativa exemplar ou queira desnecessariamente nos convencer o tempo todo de que é um bom shooter, o pacote em geral é extremamente polido e bem realizado. Em vez de modificar profundamente as mecânicas do original, a Crystal Dynamics fez a certeira decisão de mantê-las e expandi-las, focando-se na criação de um mundo rico, vasto e projetado para despertar encanto e fascínio pela sua beleza e profundidade. As sequências de ação explosivas injetam uma boa dose de adrenalina à aventura de Lara, mas são as descobertas de templos grandiosos e as soluções de seus enigmas que ficarão na sua memória por mais tempo.

Rise of the Tomb Raider
Desenvolvido por Crystal Dynamics
Distribuído pela Square Enix
Disponível exclusivamente para Xbox One (versão jogada) e Xbox 360
Lançamento para PC previsto para primeiro trimestre de 2016 e, para PS4, no final de 2016

Análise - Rise of the Tomb Raider
Moldado a partir de Tomb Raider, de 2013, a continuação não se preocupa em apresentar nada particularmente novo à fórmula, mas acerta em quase tudo que se propõe. Com um mundo fascinante de se explorar, ação prazerosa e uma narrativa que, apesar dos clichês, funciona, Rise of the Tomb Raider é bom o suficiente para manter a série relevante.
4
  • Marcelo

    Ótima analise, mas falar que Metal Gear é verdadeiramente stealth foi forçado.

    • Weslley Ngr

      Manda um Splinter Cell e a galera cai matando em cima de você, cara.

      • Diego Andrade

        Splinter Cell é o Michael Bay dos jogos do estilo. Nem se compara!

        • Ishmael

          Não quero começar uma discussão, mas por mais que hoje em dia essa afirmação seja verdadeira, nem sempre foi assim. Splinter Cell, Pandora Tomorrow, e Chaos Theory são incríveis, ainda mais pra época, em que o exemplo de jogabilidade stealth em terceira pessoa era Metal Gear. Aí a ubisoft entrou na vibe de se guiar pelas tendências de cinema e tv ao invés de simplesmente fazer um jogo…

  • Alex Amaro

    Ótimo texto, bom saber que valerá a pena jogar Tomb raider ^^

  • DDR31600Mhz

    Agora é esperar ele sair para PC

  • Só uma coisa: machado de escalada = piqueta
    =D

    • riquesampaio

      Acho que vão achar estranho se eu colocar que a Lara Croft mete a piqueta nos inimigos rs.

  • Silvio Luiz de Carvalho Filho

    Excelente review!

    Compra certa quando vier para o PC.

    Parabéns Rique!

  • Daniel Matias

    Qual de vcs vais fazer review de Fallout 4 ?

    • riquesampaio

      Teoricamente, eu. Mas infelizmente não tivemos acesso ao jogo com antecedência, então não deve sair tão cedo :/

  • Marcio Aquino

    Alguem sabe se a versão de 360 precisa instalar no HD e se é apenas um disco?

  • XboxDeuso

    Achei os gráficos excelentes. Melhor nesse aspecto no xone até agora. E a jogabilidade está no ponto certo. Realmente não esperava que ficaria tão bom assim.

  • ednaldofilho

    Top demais esse game. Quando eu comprar, pretendo jogar ele 3d estereoscópico, o primeiro é otimo em 3d, esse não deve ser diferente.