Poucos estúdios de games são tão versáteis e originais como o chileno ACE Team. Fundado em 2002 pelos irmãos Andres Bordeu, Carlos Bordeu e Edmundo Bordeu, o estúdio tem sido associado ao surrealismo, graças ao seu trabalho excepcional de arte em jogos como Zeno Clash (e sua linda continuação) e Abyss Odyssey. Com The Deadly Tower of Monsters, eles mostram não apenas um excelente domínio técnico e artístico, mas também um enorme talento para a escrita e comédia — muito do qual já estava presente em Rock of Ages, outro jogo da equipe.

The Deadly Tower of Monsters, a nova obra do estúdio, é uma excelente sátira de filmes B de ficção científica dos anos 50 e 60, com referências à Planeta dos Macacos, O Monstro do Mar Revolto, Planeta Proibido, dentre outros. Toda a ideia por trás de The Deadly Tower of Monsters é genial: o que estamos jogando é a versão remasterizada em DVD de um filme dos anos 50 ou 60, comentada pelo diretor, Dan Smith, que não hesita em opinar sobre como os filmes de sua época eram mais interessantes que as produções atuais, repletas de computação gráfica.

Smith serve como um narrador, comentando o que é visto e feito pelo jogador, que alterna o controle entre Dick, Scarlet e o Robô, os protagonistas do filme — que é na verdade um jogo de ação e plataforma com perspectiva aérea, vamos deixar isso claro. Mas em vez de se limitar ao que Bastion fazia, narrando o que está sendo feito pelo jogador e por vezes complementando a experiência, ele faz comentários sarcásticos sobre o cenário, os personagens, a “atuação” dos atores e os efeitos especiais de cada “cena”. Há sempre uma ponte inteligente entre o gameplay e a narração, de forma que o texto reflita não apenas questões mecânicas do jogo (como sua explicação de onde vão parar as moedas quando coletadas ou por que é possível trocar de personagem) mas as próprias ações do jogador (fique parado por um tempo ou saia girando seu personagem por aí e ele fará algum comentário sobre isso, no contexto do filme).

deadly-tower-of-monsters-posterEm certo momento, por exemplo, o diretor fala sobre como ele tratava mal as lentes de suas câmeras, não se importando em, às vezes, tocar os dedos no vidro. Neste momento, ao passar por uma fonte de luz, é impossível não rir ao notar impressões digitais marcadas sobre a tela. Em outro momento, Smith fala como a ação de seu filme, repleta de saltos e tiros, dariam um bom jogo, “afinal jogos são sobre isso. E matança.” E por isso jogos estariam estragando a juventude, em sua opinião. Seu assistente retruca, dizendo que seu filme também é repleto de violência, ao que ele responde que ali a violência é diferente. “O que nós estávamos fazendo é arte.”

Os comentários não apenas recheiam a experiência com um humor inteligente e legitimamente engraçado, mas acabam transformando Dan Smith em um personagem incrível. A escrita excepcional, a melhor já feita pela ACE Team, faz dele um homem em ruínas, ranzinza, hipócrita, claramente conservador e nostálgico. Mas conforme o jogo avança, testemunhamos seu esforço e amor por sua obra, além de toda a engenhosidade manual de sua produção, revelada em detalhes. Nada disso, porém, deu a Smith o reconhecimento e sucesso que ele almejava, o que explica muito de sua personalidade rabugenta. Sua história é, no fundo, triste — uma que ele tenta, a todo custo, sobrepujar com sua acidez.

O diretor é certamente um dos aspectos mais brilhantes de The Deadly Tower of Monsters, mas todo o resto está a altura — e sem trocadilhos. Seu objetivo é escalar a parte externa (e às vezes interna) da enorme torre que dá nome ao jogo (e ao filme que ele representa), eliminando uma enorme diversidade de monstros pelo caminho. São macacos, homens-polvo, formigas gigantes, cérebros saltitantes, homens invisíveis e todo tipo de criatura típica de filmes da época. Todos eles, na ficção do jogo, são pessoas fantasiadas ou bonecos criados com diferentes tipos de material. Alguns são animados em stop motion, como os dinossauros (como na obra de Ray Harryhausen, mestre da técnica no cinema clássico), outros pendurados por fios.

Alternando o controle entre os três protagonistas, cada qual com suas próprias habilidades especiais, você pode acessar diferentes áreas da torre, que escondem segredos, objetos colecionáveis e peças que podem ser usadas para comprar atualizações das armas, tanto de curto alcance quanto de longa distância. Há uma infinidade delas, todas bem diferentes umas das outras, o que me fez querer experimentar e brincar com suas possibilidades.

E, por se tratar de uma torre, repleta de desafios criativos de plataforma, essa exploração acontece mais verticalmente do que horizontalmente, permitindo que você se jogue de um lugar elevado para atingir uma área abaixo que não podia ser alcançada de outra forma, usando um jetpack para amortecer a queda. Assim, durante a escalada, é preciso observar e memorizar estas áreas, para que, quando você estiver alguns (ou diversos) metros mais alto, seja possível acessá-la por cima, jogando-se de onde estiver. Por mais que The Deadly Tower of Monsters se assemelhe, à primeira vista, a roguelikes modernos, com uma pegada de Diablo, ele é essencialmente um jogo de plataforma. E um excelente.

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A ACE Team não apenas criou um jogo de ação e plataforma vertical, mas elaborou mecânicas que condizem com essa proposta. A câmera não pode ser manipulada pelo jogador, e se posiciona quase sempre de cima para baixo, sempre mostrando o que há abaixo dele — e, portanto, toda a área que ele já escalou. É uma decisão de design brilhante, não apenas por conta da exploração vertical, mas por sempre lembrar o jogador de todas as áreas pelas quais ele já passou, dando uma constante sensação de progresso. Afinal, o que se vê quando está no topo de torre, é o cenário do jogo em sua totalidade. E mesmo que ele caia, há inúmeros checkpoints instalados por toda a torre, permitindo que ele tenha um acesso instantâneo para qualquer parte já visitada que desejar. Há também a possibilidade de se teleportar instantaneamente para a borda da plataforma anterior a uma queda ou salto, que certamente evita frustrações para os momentos em que você cai sem essa intenção.

Outra coisa interessante feita pela ACE Team foi transformar todos os achievements do jogo em missões, as quais, quando realizadas, rendem ao jogador pontos que permitem subir o nível dos personagens (que compartilham a mesma progressão) e dar-lhes novos aprimoramentos. E mesmo que eu fosse capaz de terminar o jogo sem as melhorias dos níveis mais avançados, me senti instigado em realizá-las, tão agradável é explorar a torre e buscar segredos.

The Deadly Tower of Monsters
Desenvolvido por ACE Team
Distribuído por Atlus
Disponível para PC (versão jogada) e PlayStation 4

Análise - The Deadly Tower of Monsters
The Tower of the Deadly Monsters não é o primeiro jogo a satirizar filmes antigos de ficção científica, mas é possivelmente o melhor. Além de ter uma escrita inteligente e bem humorada, o que é essencial para qualquer sátira, ele é um dos primeiros grandes jogos a chamar atenção em 2016 pela sua originalidade. Tudo nele funciona em plenitude: suas mecânicas de plataforma e combate conversam muito bem com seus sistemas de progressão e navegação, mas é seu level design, em conjunto com a excelente direção de arte, que nos apresenta desafios interessantes e variados, mantendo a experiência sempre fresca e charmosa.
5
  • Diego Ferreira

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    • riquesampaio

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  • Rinaldo Igual Junior

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    • riquesampaio

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  • William Dorneles

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      Corre lá no post do Patreon e comente lá pra participar do sorteio.

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