É curioso o quanto que Braid e The Witness têm em comum, mesmo que mecanicamente não compartilhem similaridades. Ambos criações de Jonatham Blow, os jogos não apresentam quebra-cabeças do mesmo estilo, mas tematicamente pedem a mesma coisa do jogador: aprenda um simples conjunto de regras e, depois de as dominar, pense nas diferentes e não óbvias formas através das quais essas instruções podem ser aplicadas.

The Witness não tem tutoriais ou qualquer tipo de ensinamento direto, entregue o jogador. O título começa já nos dando controle, nos direcionando por corredores que possuem placas com pequenos labirintos dentro, mostrando que se fizermos uma linha chegar até o ponto final, as portas nas quais essas placas estão ligados serão abertas. E com isso entendemos o básico do que deve ser feito.

O que ocorre é que, uma vez terminada essa área inicial, a ilha inteira na qual The Witness se passa fica aberta ao jogador, com todas as suas áreas principais podendo ser imediatamente acessadas. Nesse sentido, nada te impede que você resolva quaisquer dessas placas com labirintos que encontrar.

O que barrará seu progresso, no entanto, é a falta de conhecimento necessário para solucionar alguns desses quebra-cabeças. Enquanto todos podem ser resumidos a “labirintos em que devemos levar uma linha do começo ao fim”, o modo como você faz isso é variado e inventivo de maneiras inicialmente inimagináveis. Assim que você colocar um pé para fora da primeira área encontrará placas que possuem, por exemplo, símbolos em seus caminhos. Isso indica que há um conjunto de regras específico em atividade aí, que te impede de simplesmente seguir em direção à saída da forma mais rápida.

The Witness

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A compreensão dessa instrução, e de todas as outras, nunca se dá através de uma explicação escrita, um vídeo informativo ou algo do tipo. Esse entendimento virá com a resolução de labirintos mais simples que contêm essa regra, aumentando progressivamente sua complexidade até que você entenda o que fez para que o jogo aceitasse aquilo como correto.

Talvez soe complicado, mas The Witness faz isso de maneira extremamente elegante. Sem que você perceba é como se estivesse aprendendo novas línguas e, de repente, labirintos que até então eram indecifráveis e impossíveis, tornam-se legíveis e factíveis de serem finalizados. O momento em que isso ocorre (e isso acontece em uma constância enorme durante todo o jogo) é maravilhoso, e te fará entender por que Arquimedes nem se deu o trabalho de ser vestir para sair berrando “eureka”.

O mais interessante é que as versões simples dos labirintos que lhe ensinam o básico não apresentam todas as variações possíveis da regra em questão. Há uma maleabilidade nelas e descobri-las representa algumas das maiores sacadas de The Witness. Isso faz com que o jogador se sinta a pessoa mais inteligente do mundo ao entregar a ele, digamos, as letras, mas deixando-o formar palavras por conta própria.

Mesmo depois de se tornar confortável resolver algum tipo de labirinto, não demora para que apareçam alguns que misturam duas ou mais regras. Isso, por sua vez, faz com que você tenha de se distanciar dos padrões que estava enxergando até então e passe a ver aquilo que era natural de outra forma. Por conta disso, há um sentimento de surpresa sempre presente, um pequeno twist que, quando resolvido, inevitavelmente traz um sorriso ao rosto do jogador.

The Witness

The Witness

E, sem entrar em detalhes (porque descobrir isso por conta própria é o grande prazer de The Witness), mas há também uma série de outros labirintos que não envolvem nenhuma forma de símbolos. Esses englobam os cenários da ilha em si, da área em que eles estão, e pedem que haja atenção a outros elementos fora do painel.

Depois de algumas horas o olhar fica tão aguçado em busca de pistas e dicas que tenham a ver com os quebra-cabeças que comecei a me sentir John Nash em Uma Mente Brilhante, procurando por padrões em todos os cantos, tentando encaixar lógicas da maneira que pudesse. E, todas as vezes que isso ocorreu, bastou me distanciar por algum tempo do labirinto que estava me travando, esfriar a cabeça, voltar e perceber que a resposta correta era muito mais simples e direta do que eu imaginava.

Travar assim em alguns dos enigmas é algo que irá ocorrer com qualquer um que jogue The Witness e é tentador procurar por respostas em FAQs. É claro que cada um sabe como gosta de aproveitar o seu tempo com seus jogos, mas se me permitem uma recomendação, evitem ceder a essa tentação. Encarar os labirintos por minutos seguidos, sentado e pensando, concentrado até que a resolução apareça, é muito recompensador. Mas essa recompensa só pode ser alcançada se a barreira entre o problema a resposta existir. Ao saltá-la no primeiro sinal de frustração, The Witness perde boa parte do seu brilho e impacto. Além disso, como cada quebra-cabeça está ensinando-o algo novo, é bem possível que atravessar o enigma sem entendê-lo leve a maiores dificuldades no próximo conjunto de painéis.

Se há um único porém em The Witness (fora o de não ser um jogo para você se puzzles não são sua praia, é claro) é que não há necessariamente um tempo de descanso em sua jogabilidade. Ao resolver um labirinto sua recompensa imediata será um labirinto ainda mais difícil, e isso pode ser um pouco cansativo. No entanto, em minha experiência isso aconteceu apenas nas primeiras horas do jogo, quando ainda era preciso de muita energia para se atravessar até mesmo os mais fáceis dos desafios. Depois de superar isso, meu sentimento era o de querer mais e mais puzzles, de entendê-los cada vez melhor.

The Witness

The Witness

A beleza da ilha certamente ajuda também a relaxar a mente. The Witness tem um visual bem chamativo e um tanto único, com cores vibrantes e intensas que poderiam pertencer a uma bela pintura. Esse estilo contribui com o mistério desse ambiente como um todo, que tem regiões conectadas de climas amplamente diferentes (florestas encontram desertos, que estão ao lado de um pico com neve) e não se encaixa exatamente em nenhum período histórico.

O mistério também tem força por conta da narrativa, se é que ela pode ser chamada assim. O mais novo título de Jonatham Blow não tem nada que possa ser descrito como uma história. O que existe são diários em áudio escondidos pelo ambiente, mas a maior parte deles é composto de citações de filósofos, físicos, astronautas etc, cuja temática em si pode ser associada e entendida como uma mensagem que está tentando ser passada. Esses elementos narrativos também aparecem de outras formas, por vezes secretas, que são bem legais de serem descobertas, mas é possível chegar ao final do jogo sem encontrá-los. Pessoalmente achei os textos escolhidos interessantes e instigantes, mas não espere por nada claro ou por uma trama com começo, meio e fim.

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Falando em fim, o encerramento de The Witness pode ser alcançado sem que todos os labirintos sejam resolvidos. Depois de terminar um certo número deles a área final é aberta, porém será difícil terminá-la sem se ter ao menos compreendido todas as regras presentes na ilha. Dito isso, mesmo depois de mais de duas dezenas de horas traçando linhas em labirintos, ainda me sinto completamente compelido a ver o que mais essa ilha esconde e quais enigmas diabólicos estão ali sem terem sido resolvidos.

The Witness permite que o jogador tenha uma catarse atrás de catarse. Ele faz com que seja quase possível ver a lâmpada acendendo em cima da cabeça daqueles que entendem a lógica do que é pedido e sejam inundados de alegria por terem chegado a isso sozinhos. Este é um daqueles jogos que estará na sua cabeça enquanto você estiver no banho, na fila da padaria ou na academia, pensando sobre o que deve ser feito naquele quebra-cabeça especialmente difícil, cuja resposta não aparece faz três dias. Então, de repente, a solução surge diante dos seus olhos sem que você acredite que até então não tenha conseguido enxergá-la. Nesse exato momento, The Witness é o melhor jogo do mundo.

The Witness
Desenvolvido e distribuído por Thekla Inc.
Disponível para PC e PlayStation 4 (será lançado futuramente para iOS)
Versão testada: PlayStation 4

Análise - The Witness
Com uma simples mecânica de traçar linhas em labirintos, The Witness consegue ser instigante, desafiador e muito recompensador. Ao tratar o jogador de forma inteligente e dar a ele as ferramentas para que descubra por conta própria as lógicas e regras de cada quebra-cabeça, o novo trabalho de Jonathan Blow oferece momentos prazerosos singulares que provavelmente permanecerão por um bom tempo na mente daqueles que o jogarem.
5
  • El Luchador

    Me convenceu, Heitor.
    o/

  • Rodrigo Souza

    Nada além de um puzzle desafiador com belos gráficos. Sinceramente não é
    nenhuma genialidade como muitos sites de games estão colocando nas
    notas. A ideia é extremamente simples e bem executada, porém pelo que vi
    não há nenhum outro apelo de história ou até trilha sonora que me faça
    pagar R$73 nisso. Quem sabe numa promoção da Steam.

    Ou talvez eu não seja o público alvo mesmo.

    • Guilherme Gondin

      Bem, os puzzles são muito bem feitos e a equipe tomou um bom tempo para lapida-los, então não há muitas falhas, mas realmente é só isso mesmo, um puzzle muito bom.

  • Jabez Asafe

    Vai sair pro Xbox One tbm, só não tem previsão.

  • Rubens Peixoto

    Puzzles que parecem impossíveis, mas que com o tempo vc descobre a solução e se sente um gênio, que vão te ensinando uma coisa nova a cada desafio… Portal 2 fez a mesma coisa há muito tempo, e com uma baita narrativa! Normalmente nos jogos de ação/aventura que possuem um ou outro puzzle, eu percebo que me divirto mais resolvendo-os do que com o jogo em si. Então definitivamente eu sou o público alvo XD.