Se vistas separadamente, nenhuma das partes de The Division é incrível. Suas mecânicas de tiro são superadas por outros jogos no mercado, as habilidades que possuímos são largamente padrões para qualquer título que dialogue com elementos de RPG, a progressão através da cidade sitiada de Nova Iorque não apresenta muitas surpresa, a variedade dos inimigos é baixa e muitas outras coisas mais.

No entanto, no diálogo que há entre todos esses elementos, de repente, tudo funciona. Por mais que o ato de atirar por si só nunca seja tão satisfatório quanto em um jogo como Destiny, por exemplo, no calor da ação, ao lado de outros companheiros que estão juntos conseguindo por muito pouco sobreviver, usando de suas habilidades estrategicamente e no momento certo, correndo de cobertura em cobertura para ressusciratem um aliado abatido, e arriscando sair da proteção em busca de um kit médico ou de uma granada que poderá fazer toda diferença, as falhas de The Divison se tornam irrelevantes e ele aparece como um jogo bastante divertido.

Houve muito mistério em torno de qual seria exatamente a estrutura dessa nova franquia da Ubisoft desde a sua primeira aparição na E3 de 2013. No fim das contas, a verdade era bem mais simples do que quaisquer trailers transpareciam. The Division é, basicamente, um Diablo em terceira pessoa e com armas de fogo.

The Division

The Division

Nosso palco é Nova Iorque, que foi isolada do resto do mundo por conta de uma epidemia criada por terroristas, espalhada através do dinheiro em uma Black Friday (a mensagem é clara: usem cartões de crédito). O caos toma conta de tudo, milhares morrem e facções passam a dominar as ruas da metrópole. É aí que entramos em cena. Como um agente da “Divisão”, é nosso dever retornar o controle ao governo dos Estados Unidos, e para isso será preciso atirar em muitas pessoas.

O melhor a se fazer com a premissa e história de The Division é ignorá-las completamente. Apesar de haver um germe de algo interessante aqui, tudo é extremamente mal contado, e há diversos furos na lógica que rege esse mundo. Por exemplo, o tempo desde o início da infecção até como as coisas chegaram nesse ponto parece ter sido menor do que três meses. Não me entenda mal, eu não duvido na capacidade da humanidade de trazer à tona a barbárie e transformar cidades em cenários dignos de um longa do Mad Max. É só que, dado o controle governamental que ainda existe no resto do mundo, me parece que ao menos demoraríamos um pouco mais de três meses antes desse esfacelamento total ocorrer. Isso sem contar o grupo que criou uma fábrica de napalm no meio de Nova Iorque, e que usa isso como combustível para alimentar dezenas de lança-chamas obtidos sei lá como. Enfim, ignore a história, foque-se nas mecânicas.

The Division faz com que atirar em muitas pessoas, por horas a fio, seja bom principalmente por dois fatores. O primeiro, é que o sistema de progressão do personagem é muito interessante e o jogo está sempre nos alimentando com algo novo. O segundo, é que o design de suas missões principais é excelente.

Progredir é mais do que subir de nível. Enquanto isso é um fator e faz com que você fique mais forte, quase todas as missões, tanto principais quanto secundárias, são divididas em três classes, referentes a alas de nossa base de operações. Elas são Médica, Técnica e Segurança. Além de avançar na história, completar esses objetivos significa adquirir pontos dedicados a essas alas, usados para melhorá-las. Quando isso é feito, imediatamente algum bônus é aberto para nosso personagem. Isso pode vir na forma de modificadores para nossas habilidades e traços passivos que estão ativos o tempo todo – como carregar mais kits médicos –, ou alguns que precisam de certos requisitos para serem ativados – como estar perto de morrer para que sua acurácia aumente.

The Division

The Division

O que ocorre é que quase sempre, ao retornar de um grande evento, haverá alguma parte dessas alas a ser melhorada. Claro, nem sempre o que você puder abrir será algo que combine com o seu estilo de jogo ou com o que deseja para o seu personagem. Ainda assim, a sensação de que algo novo está para ser adquirido está lá, criando um loop que faz com que você sempre queira avançar um pouco mais para conseguir mais pontos e, consequentemente, mais atributos ao seu personagem. É como caminhar em direção à cenoura na ponta da vara enquanto já há uma cenoura em sua boca.

Isso sem contar todos os equipamentos adquiridos o tempo todo em missões e explorações da cidade, que aparecem na forma de armas e diversas armaduras. Há uma quantidade assustadora de bônus associados a cada uma dessas partes e a maior parte soa esotérico. Características extremamente específicas, como quantidade de dano obtido em tiros na cabeça ou duração de certas habilidades, são aumentadas em porcentagens mínimas, o que me fez questionar qual era exatamente o valor dessas melhorias. Felizmente, é fácil ignorá-las em favor dos atributos principais, especialmente o valor referente à defesa, que no fim das contas parece ser o mais importante.

E, como mencionei, a outra grande estrela de The Division está no design de suas missões principais. Elas acontecem em locais comuns da cidade, como lojas de departamento e delegacias de polícia. Seus elementos – como por exemplo balcões e escadas rolantes – são usados de maneira inteligente, criando gargalos em seu embate com oponentes que pedem que você pense bem em cada movimento e aja com cuidado. Nenhum ponto é sempre seguro, o que faz com o que o avançar em direção aos inimigos, com o intuito de assim acertá-los melhor, seja sempre tenso e emocionante, especialmente quando aliados são derrotados e é preciso pensar como se aproximar deles para ressuscitá-los.

Junto disso está uma inteligência artificial que, fora alguns momentos específicos em que ela entra em pane e inimigos ficam simplesmente parados, age de maneira tática, pegando-o desprevenido constantemente. Há soldados específicos que farão de tudo para flanqueá-lo e tirá-lo de coberturas, normalmente imbuídos de armas que causam um belo estrago quando chegam próximos de nós, como escopetas e lança-chamas. Isso fica mais interessante ainda quando o jogo começa a colocar na mesma situação oponentes com armadura pesada e franco-atiradores, que causarão muito dano caso o peguem fora de uma cobertura.

The Division

The Division

Todas as missões podem ser feitas sozinho, mas se você não tem intenção de jogar ao lado de outras pessoas, então eu creio que The Division não é para você. Os melhores momentos do título só vêm à tona quando há ao menos um outro jogador o acompanhando, especialmente quando ele está munido de um set de habilidades diferente do seu. Vale deixar claro que não quero dizer com isso que é necessário se comunicar com os outros que estão em uma sessão com você. Eu não troquei uma palavra com nenhum outro jogador, mas fiz todos os estágios com outras pessoas. Isso é facilitado pelo sistema de matchmaking, que pode ser ativado tanto na porta de uma missão quanto diretamente através do mapa. Raramente demorei mais do que alguns minutos para encontrar alguém e, imediatamente, me teleportar para onde eles estavam.

Parte dessa tensão gostosa vem do fato de que inimigos não são facilmente derrotados, sendo comumente necessário despejar um pente inteiro para ver um deles ir ao chão. Por mais que tenha visuais realistas, The Division foca-se no elemento de RPG em seus combates. Um tiro na cabeça de um oponente causará mais dano, mas não o derrotará instantaneamente. O que você verá são números saltando dele, tal qual em Borderlands, indicando quanta vida ele está perdendo. Isso é bem esquisito no começo, afinal estamos acostumados a ver humanos caírem rapidamente em cenários militares com um pé no real, com em Call of Duty e Battlefield, mas não demora para essa estranheza se dissipar e tudo ficar normal.

O que as missões principais têm de extraordinário o conteúdo secundário tem de mundano. Os objetivos opcionais, por mais que ofereçam recompensas palpáveis (como pontos para o melhoramento das alas e instruções para a construção de novos equipamentos, que podem ser feitos com as peças de armas e armaduras que forem desmontadas) são repetitivos e chatos, sempre se calcando na mesma estrutura. Além disso, ir atrás deles significa perambular muito por Nova Iorque, que é um cenário muito sem graça. É surpreendente a quantidade de detalhes espalhados pela cidade e como quase nada parece se repetir. Mesmo depois de mais de 20 horas de jogo ainda estava encontrando coisas que não havia visto antes. Entretanto, isso não muda o fato de que o visual de The Division é um sem inspiração e genérico. Há recriações fiéis da cidade real, mas artisticamente tudo é monótono e sem charme, algo presente também nos personagens em si.

Mais importante do que isso, mecanicamente a cidade não oferece muito. Ela é um mapa aberto não muito grande, em que cada zona é correspondente a dificuldades específicas. Porém, você não verá outros jogadores correndo pelas ruas. Isso só acontece se você entrar em um grupo, que tem no máximo quatro pessoas. Fora isso, eles só são vistos dentro das bases. O resultado é que Nova Iorque é quase sempre um deserto, algo condizente com a premissa que afirma que muitas pessoas morreram por conta do vírus, porém chato em termos de jogabilidade.

Isso só muda na Dark Zone, ou Zona Cega como foi traduzida, um segmento compartimentalizado da metrópole, que em termos gerais é a área de PvP de The Divison. Lá dentro outros jogadores da Divisão são encontrados e é permitido atirar neles. No entanto, se você fizer isso ganhará o status de traidor, o que faz com o que outros possam matá-lo sem com isso sofrerem penalidades.

Derrotar outros humanos é interessante porque a Dark Zone oferece os melhores equipamentos do jogo. Assim, se você derrotar alguém que adquiriu itens por ali poderá roubar todos eles para si, mas as coisas não são tão simples. A única forma de retirar equipamentos da Dark Zone, que estão sempre infectados neste lugar, é através de um helicóptero, que deve ser chamado e demora alguns minutos para chegar ao local. Nessas horas, é comum que hordas de NPCs venham atacá-lo e é bem difícil sobreviver a essas ondas sozinho. Outros jogadores que estão por perto são avisados quando o helicóptero está a caminho, dando a deixa para que vocês se unam e sobrevivem à empreitada daqueles que vivem na Zona Cega. Entretanto, você nunca sabe quando o outro jogador está prestes a traí-lo e roubar tudo que você tem, o que torna esses momentos constantemente tensos e excitantes.

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O único problema é que é bem fácil ignorar a Dark Zone por inteira se você não for ativamente atrás dela. As mecânicas presentes nessa área são legais, mas são muito restritas a apenas uma parte da cidade. E, como por enquanto The Division não tem algo equivalente a uma raid, não há exatamente grandes incentivos para que você vá atrás de itens melhores do que os dados pela campanha normal.

Finalmente, há a questão do conteúdo de fim de jogo. Por enquanto, esse aspecto de The Division é um tanto ralo. Há missões especiais que são abertas, cuja recompensa são moedas Phoenix, usadas em um vendedor que possui um acervo de excelente qualidade. O que ocorre é que, fora refazer as mesmas missões em uma dificuldade elevada, não há onde colocar em uso esses equipamentos mais poderosos, o que tira a graça de obtê-los.

Dito isso, aqui ofereço um porém. Enquanto acho compreensível que muitos busquem por conteúdos que sejam repetíveis e possam voltar por um longo tempo ao mesmo jogo, devo dizer que saí satisfeito com o conteúdo base de The Division. Suas missões principais são muito boas e, se isso for tudo que pude ter com esse título até que novas coisas sejam lançadas para ele, por mim está bom assim. Mas, é claro, essa satisfação irá variar de acordo com o que cada um busca em seus videogames.

The Division é um bicho estranho. Há muita coisa nele que não é boa e outras que não funcionam muito bem. Mas, no geral, suas mecânicas se complementam de maneira competente, o que me agarrou do começo ao fim. Eu gostaria de que houvesse mais história e de que ela fosse para algum lugar, em vez de só ser algo jogado de canto e de repente acabasse, e que a tensão da Dark Zone fosse, de alguma forma, mais presente no resto da campanha. No fim das contas, o que dá certo aqui sobrepuja o que saiu de errado, fazendo com que The Division seja bem legal, mesmo tendo a sensação de que, com alguns ajustes, ele poderia ter sido muito mais.

Análise - The Division
Individualmente, as partes que compõem The Division não são chamativas. Mas, no todo, ao dialogarem umas com as outras, temos um jogo bem divertido, mesmo que fique claro que havia o potencial para que ele fosse mais do que é.
4
  • PeterPetri

    “Nosso palco é Nova Iorque, que foi isolada do resto do mundo por conta de uma epidemia criada por …”
    “Apesar de haver um germe de algo interessante aqui”
    Epidemia.Germe.
    I see what u did there

  • El Luchador

    A poluição visual na tela me broxa 500% pra jogar esse jogo.
    A ambientação é legal, o sistema de combate é qualquer nota, mas aquele monte de informação e paredes que brilham quando você se aproxima, entre outras coisas, me tiram totalmente do “mundinho”.

    Pode ser que isso não seja um defeito do jogo, mas sim do que eu esperava encontrar.

  • rodrigo

    “Parece um Diablo em terceira pessoa” …. sensacional