Eu não sei apontar com precisão se o que eu sinto é fruto de um afeto pouco a pouco desenvolvido ou se é consequência de uma síndrome de Estocolmo. Seja qual for o motivo, o resultado é um só: eu gosto de Dark Souls III.

Após uma breve parada em Bloodborne que, apesar de ter muitos dos pilares de um jogo Souls, se desviou o suficiente para ser algo à parte, a From Software retorna ao mundo de Dark Souls, em sua terceira edição, nos permitindo novamente beber de Estus Flasks e colocar um escudo em nosso braço se assim quisermos, em vez de contarmos apenas com cambalhotas para sobrevivermos.

Enquanto Dark Souls III tem algumas novas ideias e mecânicas, fica claro desde o início da aventura que o que temos aqui não é, nem busca ser, uma revolução à fórmula. Isto é, por bem ou por mal, mais Dark Souls da maneira como ele sempre foi, ao ponto de que uma das principais novidades – as habilidades das armas – pode ser praticamente inteiramente ignorada se o seu estilo de jogo assim ditar. Isso não é um problema em si, mas é preciso ter consciência de que, em sua terceira aparição, o título é menos mágico do que anteriormente, por assim dizer, e as surpresas mais previsíveis. No entanto, a tensão característica da série, com seus combates que fazem a mão tremer, suor escorrer, pedem por atenção total e causam uma satisfação como sem igual quando aquele chefe particularmente desafiador é derrotado, continua sem dúvida nenhuma presente, tão incrível quanto sempre.

Dark Souls 3

Dark Souls 3

Entrando mais a fundo na nova mecânica citada, o sistema de habilidades das armas é muito interessante e permite uma variedade ainda maior no combate. Todas as armas do jogo possuem alguma forma de habilidade, às vezes ativa, como um ataque especial, ou passiva, que concederá bônus temporário ao personagem. A ativação desses poderes consome FP, uma barra adicional que pode ser basicamente entendida como o MP de outros jogos. Alguns escudos também possuem poderes que utilizam desse recurso, sendo a exceção aqueles que em vez de uma habilidade têm a função de Parry (o ato de repelir um ataque a abrir a guarda do oponente).

Aliado a isso está um Estus Flask adicional. Aos que nunca se aventuraram por um Dark Souls, os Estus Flasks são frascos de cura de uso limitado, que são recarregados quando descansamos em uma bonfire, que funciona em linhas gerais como um checkpoint. Agora, além do Estus que recupera nossa vida há um Ashen Estus Flask que preenche justamente a barra de FP. A presença dessa segunda forma do artefato adiciona uma camada estratégica inédita ao jogo.

Ao conversar com o ferreiro que está no Firelink Shrine, que funciona como o hub da aventura, é possível alternar o número de Estus Flasks e Ashen Estus Flasks. Assim, se o total de frascos obtidos naquele momento for de quatro, você pode fazer com que todos eles sejam itens de cura, fazer com que tenha um de cura e três que recuperam FP, ir na fé que FP é mais importante e fazer com que nenhum deles seja voltado a recuperar sua vida e assim por diante. Eu tenho que admitir que não morrer foi sempre mais importante para mim, o que me fez ignorar o Ashen Estus e carregar comigo o tempo todo o máximo possível de Estus Flasks normais. Entretanto, consigo ver jogadores mais habilidosos e dispostos a experimentações carregando uma variedade interessante desses itens, contando com as habilidades de suas armas mais frequentemente. Além disso, o FP também é necessário para o uso de magias, então personagens focados nesse tipo de poder terão de fazer uso do novo frasco de cinzas.

Dark Souls 3

Dark Souls 3

O que mais aprecio nesse sistema que relega a você a decisão de quantos itens de cada tipo quer levar é que ele reforça algo que sempre foi presente em Souls: a ideia de que você pode jogar da forma que quiser. A minha estratégia não envolveu um uso constante de FP, utilizando a habilidade de minha espada apenas ocasionalmente quando um inimigo com um escudo grande aparecia. Mas a possibilidade está lá, deixando claro que, se eu decidir por me aventurar novamente por Dark Souls III, poderei personalizar meu herói de maneiras completamente diferentes, que por sua vez pedirão por estratégias distintas nas lutas. Eu não estou pronto para fazer isso agora porque só de pensar em enfrentar o último chefe novamente começo a tossir de nervoso, mas é legal saber que a chance de experienciar Dark Souls III de maneira diferente está lá, se eu assim quiser.

Aqueles que ficaram decepcionados com a estrutura de chefes de Dark Souls 2, que os tinha em uma quantidade enorme porém em lutas pouco memoráveis, deverão ficar aliviados em como os embates estão agora. Os temerosos guardiões das diferente áreas possuem visual e tamanho variados, e estruturas inesperadas, às vezes indo além do “bater quando uma brecha aparecer” de maneira bem criativa para serem derrotados. É verdade que alguns são definitivamente mais assustadores do que difíceis, resultando em lutas que se encerram de modo anticlimático. No entanto, no geral, os chefes são bem legais e um dos pontos altos da aventura, culminando em lutas acompanhadas de belíssimas músicas que dão peso à situação, mesmo que você nem sempre saiba qual a importância da figura que está matando para a história daquele mundo. Todos os chefes possuem uma mudança de comportamento e ataques quando chegam na metade de sua vida, volta e meia pegando-nos de surpresa. Enquanto alguns deles pedem que você mude de estratégia fortemente, foi um tanto decepcionante ver quantos deles se resumiam a passarem a ter ataques de fogo quando chegavam nesse estado.

Além dessas batalhas, as áreas que as precedem também têm aparência diversa, porém no geral dentro do esperado. Muitas delas seguem tão proximamente conceitos já vistos que poderiam ser simplesmente complexos adicionais dos jogos anteriores, como as catacumbas. Há, por exemplo, mais uma vez um trecho de floresta visualmente cansativo e com segmentos em que é preciso caminhar por poças que provocam envenenamento. Isso já apareceu em literalmente todos os outros jogos da franquia e surgir mais uma vez só soa um pouco preguiçoso. Não são todas as localidades que são assim, me saltando à mente uma área urbana de arquitetura particularmente bonita, mas eu não me importaria de ter vistos mais coisas novas durante minhas andanças.

Dark Souls 3

Dark Souls 3

Existem alguns pequenos detalhes diferentes no design de Dark Souls III que simplificaram a experiência de maneira positiva. O Firelink Shrine tem agora uma aparência similar ao Nexus de Demon’s Souls e concentra mais intensamente os NPCs do que em títulos anteriores. Já de cara há um ferreiro e um vendedor por ali, e personagens adicionais encontrados na aventura são enviados para essa área, tornando-a mais populosa com o passar do tempo. Assim, não é necessário ficar teleportando para diferentes partes do mundo em busca de um ferreiro específico que venda aquela exata flecha que você deseja. Não é nenhuma mudança complexa, mas foi uma que eu apreciei imensamente, além de me parecer algo que torna o jogo mais palatável a novatos.

Na verdade, Dark Souls III é um bom ponto de entrada aos que nunca tocaram em um título da série Souls antes. Não me entenda mal, ele pode ser brutalmente difícil e alguns chefes com certeza fizeram com que os vizinhos me odiassem, de tanto que xinguei, mas os embates me parecem largamente mais tranquilos quando comparados aos de Dark Souls e Dark Souls 2. Sem entrar em detalhes, basta dizer que não há nada aqui que chegue perto da dificuldade insana de Ornstein e Smough, por exemplo.

Além disso, o jogo é bem generoso com bonfires e corta-caminhos. Basta ser atento que esses estarão sempre por perto, permitindo que você volte a Firelink Shrine, suba de nível e não sinta que perdeu nenhum progresso. Repito, ele não é fácil. Mas se você quer se adentrar na franquia, Dark Souls III é um bom jeito de começar a subir essa ladeira.

Como ocorre nos outros trabalhos da From Software, os detalhes da trama e dos eventos do mundo não são escancarados. Muito disso só pode ser apreendido com a leitura das descrições dos itens e através da observação de elementos espalhados pelo mundo. No entanto, comparativamente o novo Dark Souls é bem mais explícito em seus fatos; pela primeira vez que tinha uma noção clara, desde o início, do que eu tinha fazer e quem tinha de derrotar. Além disso, mesmo sem entender praticamente nada dos eventos dos títulos anteriores, houve personagens e localidades cuja importância e significado provocaram em mim pequenas exclamações de espanto, então com certeza tudo está um pouco mais aberto do que antes.

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A versão a que tive acesso foi a de PlayStation 4 e, infelizmente, ela possui diversos problemas técnicos. A começar, sua taxa de quadro é inconstante, por vezes fazendo com que o jogo fique em câmera lenta, como se fosse Mega Man no NES. Isso ocorre com mais frequência nas áreas iniciais, mais ou menos nas primeiras três horas, e aliviando em seguida. Ainda assim, mesmo depois desse trecho é comum observar pequenas travadas de tempos em tempos. Também me deparei, em locais mais abertos, com elementos do cenários que piscavam constantemente, além de alguns objetos que não tinham quaisquer texturas.

Há também um problema que acredito existir em todas as versões que é o fato de que, até hoje, From Software não sabe direito como tratar a câmera do jogo. Não é o tempo todo, mas, mesmo sendo o quarto título em que eles a utilizam da mesma forma, ainda haverá uma meia dúzia de ocasiões que você morrerá porque, do nada, tudo que é focado pela câmera é uma maçaroca de pixels indefiníveis. Isso é especialmente problemático em áreas fechadas ou quando a mira é travada em inimigos grandes. Há uma luta com um chefe opcional que simplesmente não é jogável se a câmera for travada nele.

Há menos surpresas em Dark Souls III. Essa é a sina da maior parte dos jogos que receberam continuações. Mas o que mais importa aqui continua sendo fresco. O combate ainda é excitante, deixando-nos constantemente alertas com receio de um golpe destruidor que possa surgir, e o mundo explorado, mesmo que às vezes cause a sensação de “já vi isso antes”, ainda é fascinante de ser visto, especialmente devido à ansiedade de como será o chefe que está por vir. Ele pode não ter o frescor que observamos quando Demon’s Souls e Dark Souls surgiram, mas certamente evita os problemas que senti em Dark Souls 2, apresentando uma aventura mais concisa e recheada de coisas a serem vistas.

Dark Souls III
Desenvolvido pela From Software
Distribuído pela Bandai Namco Entertainment
Disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One
Versão testada: PlayStation 4

Análise - Dark Souls III
Ao ser o terceiro de sua franquia, Dark Souls 3 tem menos surpresas do que seus antecessores, porém pequenas boas decisões de design, chefes criativos e o combate bom como sempre garantem que a experiência continue válida e excitante.
4
  • El Luchador

    Belo review, Heitor!

    Vi (na PSN) que tu tava jogando no final de semana e fiquei ansioso para sua opinião.

    Comprarei o jogo de certeza, mesmo sem ter jogado o 1 e o 2 (mas ter platinado Bloodborne).

    • O 1 vale muito a pena… Muito! E vai deixar a experiência do 3 muito melhor (embora não seja necessário pra jogar o 3).

      • Lucio de Souza

        Então acha q dá pra pular o 2?

        • Alexandre Barbosa da Silva

          Não pula o 2 não. O “pior” jogo dessa franquia ainda é superior a maior parte da concorrência. E Dark Souls 2 tem alguns dos melhores momentos da série (a batalha do Looking Glass Knight por exemplo, ou a parte em que acontece uma espécie de “viagem no tempo”), o grande problema do jogo é que ele é muito longo e dilui um pouco esses momentos. Um jogo excelente mesmo assim!

          • Não esqueça ‘dela’. Seria uma trairagem com a segunda melhor NPC da série Souls.

  • Thiago Gomes

    O de PC esta com o mesmo problema, mas OK.
    Comecei a jogar ontem mesmo (liberou para nós as 19hs) e as 19:10 muita gente chorando no Facebook, pois o jogo não esta muito bem otimizado e muitos PC’s não estão aguentando, apesar de serem do nível da configuração mínima. Tem um aviso na pagina da produtora avisando sobre um problema de iluminação e pedindo para deixarem no LOW alguns itens do gráfico. (fonte: Kotaku)
    Consegui jogar uma hora mais ou menos e me diverti bastante.

  • “corta-caminhos”

    Porque não “atalhos”?????????

    • Better Call Foggy

      Pra ter mais caracteres, ORA BOLAS

      • Heitor De Paola

        Exato, eu ganho bombons baseado no número de caracteres que publico no Overloadr.

  • Caetano +Velozo & +Furioso

    A análise não ia ser do rique? (ainda vou ler, rs)

  • Leonardo Schmidt

    Legal que você tenha gostado, Heitor! Sendo que não és tão fã da série assim… Em relação aos problemas de framerate, não tem o que fazer, pois é a marca registrada da franquia. Voltei a jogar o Dark Souls 1 recentemente, na retrocompatibilidade do Xbox One, e Blighttown continua quase injogável. Grande abraço e parabéns pelo texto.

  • Edvaldo Nogueira Junior

    Jogo fantástico, alguns problemas gráficos nas paisagens de longa distância. Meu notebook rodou liso com a maioria das configurações no high e algumas no médio. Joguei duas horas e está sendo o começo de série Souls mais empolgante até agora.

  • Lucas Matias

    Ótima análise.
    Eu estou gostando MUITO do jogo. Apesar da influência do Bloodborne, ele ñ perdeu sua essência. Só queria entender, como a From Software faz um dos melhores RPGs de todos os tempos, e ñ aprende a fazer um sistema de criação de personagem decente, mas blz vc quase ñ enxerga ele dentro de tanta armadura 🙂

  • Lucio de Souza

    Só tá feio 249,00 na Live…
    Vou ter que esperar baixar um pouco.
    Valeu.