O que acontece com aventureiros quando não há mais aventuras a serem tidas? Quando nós lemos ou assistimos uma obra que aborda na mais pura forma uma aventura, é comum, quando ela chega ao fim, sermos assolados por uma espécie de tristeza. É como se momentaneamente pudéssemos ser transportados a um mundo que ainda está repleto de mistérios e tesouros a serem encontrados, um diferente deste nosso já desencantado, que guarda surpresas àqueles que forem bravos o suficiente para irem atrás delas. Mas então, eventualmente essa aventura acaba e somos arremessados de volta a nossa realidade. Nós temos de novamente nos preocupar com contas, com o trânsito, com as roupas que estão no varal. Sobra tristeza.

Diante disso, algo que sempre me provocou curiosidade é, como fica a vida desses aventureiros que fizeram tais descobertas? Qual é o ânimo de Indiana Jones, após encontrar o Cálice Sagrado, em acordar em uma segunda-feira, fria e chuvosa, para dar aulas? Como é possível voltar a uma vida normal depois que tanto dela é determinada por esses momentos grandiosos e heroicos?

Uncharted 4: A Thief's End (PS4)

Uncharted 4: A Thief’s End (PS4)

É mais ou menos neste contexto que encontramos Nathan Drake no início de Uncharted 4: A Thief’s End. Drake está conflitado. Ele possui uma boa vida, um emprego decente, é casado com uma ótima pessoa e as coisas são tranquilas. Em uma belíssima sequência – provavelmente uma das mais singelas de toda a série -, podemos olhar com vagarosidade a casa do herói, olhando antigas relíquias que foram encontradas e relembrando aventuras, tanto as que presenciamos quanto outras sobre as quais podemos apenas indagar. O choque mais delicioso, no entanto, vem da observação de objetos mundanos, pertencentes a um lar como qualquer outro, extremamente comuns, mas que poderiam ser alienígenas em um universo que trata tanto do exótico como Uncharted. Em nenhum momento o mais recente trabalho da Naughty Dog critica essa existência que, enquanto comumente qualificada como “normal”, é uma plena e satisfatória. Porém, mesmo reconhecendo que o que ele possui agora é bom, mesmo tendo prometido não voltar a vagar pelo mundo à mercê de diversos perigos, fica óbvio rapidamente que Drake está dividido.

Em meio às indagações sobre o que é realmente importante, não demora para que um inesperado evento faça surgir uma nova aventura – uma que envolve a vida de Sam Drake, irmão do protagonista, dando um tom mais pessoal à trama. Entretanto, mesmo que esteja mais uma vez indo em direção aquilo que inegavelmente ama, Nathan deixa claro que parte dele não acredita mais que essa é uma vida que ele possa levar. Por toda duração de A Thief’s End, ele está em conflito.

E conflito, por sua vez, é uma palavra que define bem o jogo como um todo. Uncharted 4, ao mesmo tempo, é e não é Uncharted do modo que você conhece. Enquanto ele pode ainda ser descrito como um jogo de ação, dividido entre partes de exploração, travessia de cenário e tiroteios, a proporção na qual cada um desses elementos é encontrado difere fortemente das entradas anteriores, por vezes dando ao título um ar de desconexo.

Uncharted 4: A Thief's End

Uncharted 4: A Thief’s End

Nestra entrada, as andanças de Drake são mais introspectivas do que o eram anteriormente. Os segmentos de paz e tranquilidade eram uma raridade bem-vinda nas aventuras anteriores. Aqui, os trechos pacatos de apreciação do ambiente e travessia de cenário são a norma, puxar a arma e matar aqueles que nos opõem a exceção. É possível sentir na cadência tons de The Last of Us, de uma Naughty Dog mais interessada no arrebatamento provocado pela beleza natural e arquitetônica dos locais visitados, e não na injeção de adrenalina causada por perseguições alucinantes, prédios desabando e desastres naturais ocorrendo ao nosso redor (apesar de que tudo isso, especialmente mais para o fim do jogo, definitivamente está presente). A série Uncharted, até então, era sobre o barulho. Uncharted 4 é sobre o silêncio.

Sem esquecer que ainda estamos falando de uma história na qual um homem sozinho derrota todo um exército e é capaz de escalar qualquer formação rochosa com as mãos nuas sem nunca quebrar nenhum membro, Uncharted 4 deu um passo em direção ao sóbrio e real, fugindo dos tons quase de desenho animado que certos aspectos de Uncharted 3: Drake’s Decepction tinham. Essa é uma direção que pode pegar alguns de surpresa, mas foi uma que adorei imensamente. Ela funciona por conta do cuidado e esmero tido pelo estúdio na criação dos ambientes e locais que exploramos. Uma costa na Itália, uma cidade em Madagascar, montanhas na Irlanda. Cada um desses cenários soa mundano, porém todos apresentam um espetáculo visual à parte, sendo por si só recompensas quando escalamos um paredão particularmente íngreme, nos permitindo ver aquilo que nos cerca em toda sua imensidão.

Eu não sou uma pessoa que coloca grande peso em gráficos, mas é impossível não sentir um baque e o desejo de soltar o controle por alguns instantes quando esses cenários se desvendam diante de nossos olhos. E possível sentir vida na vegetação, ver pequenos animais correndo e se escondendo e, de tempos em tempos, nos deslumbrarmos com uma ruína tão repleta de detalhes e enfeites que é difícil acreditar que ela não existe em nosso mundo. Isso sem mencionar a animação dos rostos dos personagens, tão incríveis que parecem poder ser tocados por nós. Já vimos títulos muito bonitos nesta geração de consoles, mas o que a Naughty Dog fez aqui está um nível além do que presenciamos.

Uncharted 4: A Thief's End

Uncharted 4: A Thief’s End

Há também a escala, o escopo das terras que são visitadas, que não me lembro de serem tão impactantes desde Shadow of the Colossus. Uncharted 4: A Thief’s End não é de forma algum um jogo de mundo aberto, porém a liberdade que temos de exploração em diversos lugares é muito maior do que anteriormente. Há momentos em que estamos dirigindo um jipe, por exemplo, conseguindo observar ao longe as ruínas em que devemos chegar. A primeira impressão é de que será impossível cruzar esse caminho, que não há como haver trilhas que nos levem até lá em meio a uma tortuosa planície. Entretanto, através de seu design meticuloso, temos ampla liberdade para seguir quaisquer das estradas que aparecem diante de nós e, sem que percebamos, somo gentilmente afunilados em direção ao caminho correto, de pouco em pouco nos aproximando daquele objetivo que há alguns minutos parecia impossivelmente longe. Eu nunca imaginei que isso poderia ser dito de um Uncharted, mas as melhores horas dessa nova entrada são aquelas em que não fazemos nada além de vagar e contemplar o que há ao redor, ouvindo no processo observações e conversas entre os personagens presentes.

Nem toda exploração ocorre em locais mais abertos. Escalar por rochas e paredes com caminhos pré-definidos continua sendo parte central do título. A beleza do visual é o maior chamativo desses segmentos, graças a ângulos de câmera que se focam nos precipícios e vastidão do que há por perto de Drake. Isso não elimina totalmente o tédio que há nessa mecânica, já que todos os perigos presentes são extremamente roteirizados e, a essa altura, batidos. A bem da verdade é que existem muitos momentos em que não é preciso nada mais do que segurar a alavanca em uma única direção enquanto apertamos o botão de pulo para seguirmos em frente. Esteja tudo desmoronando em volta ou não, as chances de erro dessas horas são mínimas, o que diminui a possibilidade de emoções.

Ao menos a escalada é mais variada agora devido a um gancho que empunhamos, que oferece uma ilusão de escolha. Com ele podemos nos balançar livremente, sem direção pré-definida, apesar de ser raro haver mais do que um caminho que possa ser seguido. Um pouco mais para frente da aventura o jogo introduz um pino usado para escalada em montanhas, o que adiciona a necessidade de pressionarmos um botão quando saltamos em direção a paredes específicas. A mecânica não é particularmente profunda nem apresenta qualquer forma de desafio. Ela é bem desnecessária.

Uncharted 4: A Thief's End

Uncharted 4: A Thief’s End

O fato de frequentemente não precisarmos ter pressa em correr de um canto para o outro contribui imensamente ao desenvolvimento de Sam Drake, irmão do protagonista, que até então jamais havia sido mencionado (por conta de motivos que são explicados na trama). Inicialmente eu estava incrédulo de que conseguiria me importar com o personagem, o que aparentava ser problemático já que toda a motivação por trás da nova empreitada ocorre para que possamos proteger Sam. Como eu estava errado. A personalidade dele pode ser definida como “sagaz”, assim como a de Nathan Drake. Entretanto, mesmo que haja uma forte similaridade, o papel dele como irmão mais velho, possuindo conhecimentos específicos sobre Nathan que não tinham sido desenvolvidos nos outros jogos, permite que a afeição a ele cresça rapidamente. Além disso, como as partes de ação são esparsas, mesmo que ainda se trate da duração média de sempre (cerca de 12 horas) do resto da franquia, há agora mais tempo para os personagens crescerem e se mostrarem. Não foi preciso muito tempo para que eu apreciasse Sam tanto quanto aprecio Elena ou Sully.

Tanto do jogo é baseado no contemplativo que por mais de uma vez senti uma espécie de susto ao, de repente, ver o ícone de minha arma aparecer na tela e perceber que estava diante de um trecho em que deveria derrotar mercenários de uma PMC que está em busca do mesmo tesouro que nós. Como ocorre desde Uncharted 2, existem várias partes em que é possível eliminar toda a oposição furtivamente, pegando soldados inimigos desprevenidos um por um. Uncharted 4 adiciona uma camada a essa mecânica, colocando medidores que indicam claramente quão suspeito um oponente está e quando ele viu alguma coisa. Além disso, é também possível fugir e se esconder deles, colocando-os novamente em um estado de busca, abrindo para que de novo os eliminemos furtivamente.

O curioso é que a mecânica facilita bastante a vida daqueles que não querem ser vistos, sendo bem leniente com o que é considerado ser encontrado. Mais do que isso, os vilões não são particularmente inteligentes em detectar coisas que estejam fora do normal. Houve uma vez em que matei um soldado, me escondi e, em seguida, um aliado dele se aproximou do cadáver apenas para exclamar algo como “parece não haver nada de errado aqui”, imediatamente virando as costas e me dando a chance de eliminá-lo.

Independente de uma inteligência artificial não muito impressionante, o susto sentido foi proveniente do fato de perceber o quanto que eu não ligava para essas partes. Não há nada de errado em si com os controles de tiro. Se qualquer coisa, eles estão entre os melhores da franquia, junto com Uncharted 2. No entanto, diante de construções tão sublimes e delicadas, a aparição de arenas contendo homens armados soa como uma concessão, uma súbita realização de que isso é Uncharted e, logo, é preciso que haja tiroteios. Eu não estou dizendo que preferiria que essas partes não existissem, porém a impressão constante é de que elas eram um resquício do que a série era, que não se mescla perfeitamente com as novas ideias que foram o foco da Naughty Dog aqui. E, curiosamente, o contraste entre esses dois momentos é tão forte que a natureza psicopata de Drake, que no decorrer de sua carreira já chacinou a população de uma pequena cidade, vem ainda mais à tona. Isso de maneira alguma elimina a beleza daquilo que compõe a maior parte de Uncharted 4, entretanto é impossível não sentir que há um conflito entre os conceitos presentes no título.

Uncharted 4: A Thief's End

Uncharted 4: A Thief’s End

Para toda criatividade que há em como exploramos cenários e chegamos a novos lugares, Uncharted 4 é surpreendentemente pedestre quando o assunto são enigmas de ambiente. Chega a ser cômico o número de vezes em que é preciso empurrar uma caixa, quase sempre igual, de algum lugar alto para que possamos utilizá-la como apoio. Trata-se de um puzzle que na primeira vez que aparece já não impressiona. Depois da décima quinta vez fazendo a mesmíssima coisa, sem que sequer algum dos personagens reconheça o absurdo daquilo, meus pensamentos eram mais voltados à confusão, incrédulo que alguém tenha achado uma boa ideia repetir essa mesma mecânica tantas e tantas vezes.

A repetição infelizmente é também uma constante no azar de Drake. Ainda mais do que seus predecessores, Uncharted 4: A Thief’s End é apaixonado com a ideia de quebrar pisos assim que o herói coloca seus pés neles, criando uma situação de perigo imediato sobre a qual raramente temos controle. O problema não é o uso disso em si, mas o quanto que isso ocorre. É tão frequente que em vez de chocante torna-se engraçado, ao ponto de que é possível telegrafar cem por cento das vezes quando isso está para acontecer. Mais uma vez, de forma alguma isso diminui o valor daquilo que é espetacular, porém não deixa de ser chamativo que o esmero colocado em tantas características do jogo seja tão ausente em algumas outras.

Fora isso há também o multiplayer. Apesar de Uncharted ser mais lembrado por suas elaboradas campanhas, tanto Uncharted 2 como Uncharted 3 tinham ótimos componentes para vários jogadores, divididos em modos cooperativos e competitivos. Uncharted 4 foca-se apenas no competitivo e é, de longe, o multiplayer mais fraco que a série já teve. Funcional é o único adjetivo que usaria para caracterizá-lo. Há elementos não vistos antes aqui, na forma de invocações que podem ser feitas na partida, que vão desde totens que atacam oponentes a franco-atiradores que podemos posicionar pela fase. A parte legal é que isso é feito com dinheiro que é ganho não só quando derrotamos oponentes, mas também através de diamantes espalhados pelos estágios, então até mesmo os menos habilidosos têm chances de usarem todo o rol de habilidades do modo para vários jogadores.

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No entanto, existem atualmente exemplos de multiplayers tão mais variados e interessantes, que fazem coisas tão diferentes, que não consigo enxergar motivos para alguém se prender ao de Uncharted 4. Nada é chamativo ou especial, e as mecânicas de travessia e escalada de cenários não adicionam algum twist inesperado ao mata mata. O multiplayer não é ofensivo, mas também não há nada que o destaque.

Uncharted 4: A Thief’s End tem igualmente partes que amei e partes que achei tediosas. É bem chamativo como há ao mesmo tempo aqui coisas que não foram exploradas por outros jogos e trechos que são tão batidos e repetitivos que rapidamente se tornam cansativos. Trata-se de um título dividido entre a vontade de fazer algo novo, de trazer ideias frescas, mas que também sente a necessidade de se ater às raízes que consagraram a franquia. O resultado é um produto às vezes um pouco desconjuntado, às vezes em conflito consigo mesmo por não conseguir se decidir totalmente por qual caminho quer seguir. Dito isso, por mais que não se trate do melhor Uncharted que já tivemos em mãos, aquilo que é bom e novo é tão impressionante, tão maravilhoso, que foi fácil para mim ignorar os tropeços, os problemas com puzzles chatos e a cadência, com alguns capítulos que se arrastam um pouco mais do que deveriam. Uncharted 4 pode não acertar em tudo, mas ele se arriscou a trazer novidades a uma série que parecia não ter mais para onde ir e nisso ele tem sucesso.

Análise - Uncharted 4: A Thief's End
Com tons que parecem inspirados em The Last of Us, Uncharted 4: A Thief's End é um jogo com uma ênfase extremamente reduzida na ação, concentrando-se mais na exploração e na apreciação de belíssimos cenários. Se a série Uncharted até hoje podia ser definida pelo seu barulho, Uncharted 4 é chamativo pelo seu silêncio.
5
  • FHC

    Droga, com todo mundo dando 5/5 não aguento o hype!

  • Puruluchu

    Emprego decente* no terceiro parágrafo, Heitor

  • Jonas S. Marques

    Caralho, Heitor, dou 5 pro teu review, que baita review.

  • Edvaldo Nogueira Junior

    Me dei conta que fazia tempo que não lia um texto de análise, somente vídeos, mas este me prendeu. Congratulations man. Quanto ao jogo, mesmo com péssimas notas teríamos que jogar, não é mesmo ?

  • Lucas Matias

    Esse texto aumentou ainda mais minha vontade de jogar, e me fez ter inveja do seu dom para escrita. Parabéns Heitor.

  • Não sei quanto ao jogo propriamente dito, mas essa análise merece 5/5 mesmo.
    Que análise gostosa de se ler.

  • Sérgio Figueiredo

    Análise magnífica Heitor! Foi um review muito bacana! Com essa mudança de enfoque do jogo eu fiquei ansioso para jogar. Tava meio incrédulo por ter que fazer as mesmas coisas de novo em um novo Uncharted, mas agora vou comprar definitivamente o game!!!

  • João Dobbin

    Os reviews de vocês são ótimos, muito bem escritos. Mas uma dica para deixá-los de um jeito mais fácil de ler é quebrar mais o texto, dividir em subtópicos etc. Blocões de texto são cansativos, mesmo que o conteúdo seja ótimo!

  • El Luchador

    Bela análise, Heitor!

  • Fernandokaiser023 Kaiser

    Boa analise ,mas tentei jogar o MP do 2,e do 3 .E quase me deu sono,horriveis,sem graça alguma ,um amontoado de tiros sem estratégia,por vez o MP do 4 é o melhor de todos ,trazendo elementos do MP de the last of us.