Não é coincidência que Abzû seja constantemente comparado a Journey. O jogo de estreia da Giant Squid foi moldado a partir da obra-prima da thatgamecompany, carregando não apenas a mesma filosofia do estúdio como também seu talento. Parte da equipe responsável por Journey trabalhou diretamente em Abzû, incluindo seu diretor de arte, Matt Nava, que aqui atuou como diretor criativo, e o compositor Austin Wintory. Diante disso, é compreensível entender por que, em pouco menos de cinco minutos de experiência, eu já estava sendo levado às lagrimas pela sua beleza arrebatadora.

De certa forma, Abzû replica todas as qualidades de Journey, em diferentes graus de equivalência. O correr e deslizar sobre a areia fofa são substituídos pelo mergulho. Sem a necessidade de subir até a superfície para recuperar oxigênio, seu personagem (que, à primeira vista, parece humano) pode nadar para qualquer direção. A liberdade de movimentos que o jogo nos dá é impressionante: podemos saltar como golfinhos, pegando impulso em direção à superfície, realizar loopings debaixo d’água e nadar de cabeça para baixo. De alguma forma, a equipe da Giant Squid foi capaz de criar um sistema de mergulho sofisticado (algo que jogos raramente acertam) que nunca nos deixa desnorteados — ainda que eu tenha sentido a necessidade de acessar o menu de opções de câmera para alguns ajustes, no início.

Por mais que sua precisa simulação da vida marítima seja repleta de sistemas complexos, não é isso que vemos e sentimos enquanto mergulhamos entre suas algas e cardumes virtuais. A beleza estarrecedora de seus cenários evocam sentimentos tão fortes que Abzû se torna uma experiência puramente emocional e sensorial. Por mais que existam objetivos e padrões lógicos em sua estrutura, eles se tornam secundários perto de panoramas tão exuberantes.

Há algo de hipnótico e encantador em apenas observar e interagir com a vida aquática de Abzû. Seus cenários são ricos em vegetação, com enormes algas que balançam harmoniosamente de um lado para o outro. Os peixes e mamíferos preenchem o espaço, compondo uma valsa de movimentos, formas e cores. Testemunhamos a cadeia alimentar em ação em diferentes ecossistemas e nadamos lado a lado de uma infinidade de espécies. É uma das experiências mais acolhedoras, libertadoras e mágicas que já vivi em um jogo.

Abzu-screenshot-2A experiência se estende por diversos hubs, onde encontramos diferentes estruturas rochosas, templos submersos e alguns elementos completamente surreais, e interagimos com inúmeras espécies, todas elas legítimas e nomeadas conforme suas classificações científicas. Criaturas maiores, como tubarões, peixes-bois e orcas nos permitem gentilmente agarrar em suas nadadeiras e ser levados pelos seus movimentos.

Novamente canalizando Journey, há diversos segmentos de velocidade aqui, que conduzem o jogador a uma única direção, limitando seu controle em favor da dramaticidade de sequências planejadas com sintonia visual e sonora. Em uma delas, por exemplo, a câmera se desloca para a lateral do personagem, focando as baleias gigantes que se aproximam, remetendo à maravilhosa sequência de Os Pinheros de Roma, de Fantasia 2000.

Rapidamente, identificamos um padrão mecânico: é preciso encontrar pequenos drones enterrados na areia, que abrem caminho a novos cenários. Há também objetivos opcionais, como a busca por áreas de meditação, conchas de crustáceos e pequenos portais que liberam novas espécies aos ambientes. Ao final de cada área principal, sempre chegamos a abismos sombrios, onde precisamos recuperar a vida local.

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Nada disso, contudo, envolve confrontos contra chefes ou desafios similares. Há, inclusive, menos desafio aqui do que havia em Journey. Praticamente toda a experiência é pacífica e, no máximo, precisamos encontrar os mecanismos que liberarão a passagem para a próxima área.

Isso não quer dizer que Abzû evita conflito. Há um elemento hostil em certa parte do jogo, que tem uma função mais narrativa do que mecânica e ajuda a construir o sentimento de superação e transformação. Trata-se de uma história transmitida de forma subjetiva e não verbal — inclusive, similar a Journey, através de painéis com pictogramas deixados por civilizações antigas. Mas sem um sistema de jogo multiplayer, Abzû é uma experiência mais solitária, sobre a busca pela harmonia entre as espécies e o empoderamento dessa união. É uma belíssima alegoria, que parece dizer muito sobre a necessidade de desconstrução da rivalidade entre povos e perspectivas, principalmente em épocas de tanta polarização política.

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Embora a curta experiência seja encantadora e impactante — certamente uma das coisas mais belas a surgir nos videogames nos últimos anos –, Abzû sofre um pouco com sua falta de profundidade mecânica. Ok, nem mesmo Journey era tanto sobre isso, mas haviam ali elementos de progressão e uma certa complexidade no funcionamento dos movimentos do personagem, como a questão do tamanho do cachecol do personagem, que determinava o alcance do voo do herói, tal como o já mencionado sistema de cooperação online, que amplificava o significado da experiência. Abzû abdica desses elementos sem substituí-los, deixando uma lacuna. Ele instiga o jogador a explorar seus cenários em busca de certos objetos mas nunca o faz entender quais são os benefícios mecânicos de coletá-los — se é que eles existem.

Mas ao nos entorpecer com a beleza e exuberância de seus movimentos, cores, formas e melodias, Abzû se liberta desta necessidade. Ele é capaz de nos fazer sequer notar o brilhantismo técnico por trás de suas simulações e sistemas, tamanho é o poder de encantamento de suas imagens e músicas, bem como deixamos de reparar nas inúmeras partes que compõem um filme quando estamos emocionalmente envolvidos com sua história e personagens.

Abzû
Desenvolvido pela Giant Squid
Distribuído pela 505 Games
Disponível para PS4 (versão testada) e PC

Análise - Abzû
Em uma mídia na qual a norma é o caos, o barulho, a violência, a competição e o conflito, Abzû é uma experiência calma e pacífica que nos lembra da importância de relaxar, respirar e procurar a beleza que nos cerca, mas nos foge aos olhos.
5
  • Carlos Scatolini

    Ótima análise!

  • Guilherme Gondin

    Interessante, eu achei que esse jogo fosse ser bem sem alma.

  • Pra matar a vontade de quem foi assistir Procurando Dory. Uma experiência encantadora.

  • Rodrigo Pscheidt

    Eu achei bem o oposto. Achei Abzû um tanto vazio e melancólico. Acho que (entre outras coisas) Journey foi marcante também por seu pioneirismo e aqui não há isso, ele me pareceu simplesmente querer “emular” os feelings e sensações de Journey em um novo ambiente. Não que isso o torne ruim, só achei que ele jamais alcança a magnitude de Journey por mais que se esforce.

    Meu review, caso alguém tenha interesse noutra opinião: http://www.arkade.com.br/analise-arkade-abzu/

  • Ótimo texto. Não concordo com tudo, nem com a nota máxima, mas mostra bem o tipo de experiência que você curte e o seu prisma sobre o game.

    As vezes sinto falta de um 5/5, mesmo que o “/5” seja pequenininho. Quem não vê outra análise não sabe da mecânica do logo do site se completar conforma a nota.

  • Eric Estrada

    ”Journey” fez-me chorar no seu final. Que jogo belo, que metáfora para a vida! Minha experiência com ele foi magnífica. O belo tb me faz chorar. Vou procurar este ”Abzu”.