A Primeira Guerra Mundial não é um palco comum para os videogames. Ela pode já ter sido explorada anteriormente, mas o mais comum era termos jogos focados nos combates aéreos que ocorreram nela. Quando visitávamos um conflito grandioso e antigo, a Segunda Guerra Mundial era a parada mais frequente.

Existem muitos motivos para isso, mas um dos principais envolve a ideia de antagonismo. Dadas as atrocidades cometidas pelo Terceiro Reich, não é difícil enxergarmos os nazistas como puros vilões, inimigos que matamos às dezenas sem nem pensarmos sobre isso duas vezes. A Primeira Guerra Mundial não tem essa conotação, mais lembrada pelo grande avanço tecnológico ocorrido em sua duração e pelo enorme massacre a milhões de jovens, originando a Geração Perdida.

Videogames têm dificuldades em lidar com antagonismos não definidos. Por mais que narrativas mais subjetivas tornem-se mais e mais comuns, ainda estamos falando de uma mídia que na esmagadora maioria da vezes nos aponta direta e definitivamente a algo “mau” com que devemos lutar, nos dando objetivo e finalidade.

Justamente por conta da complexidade desse episódio de nossa história que Battlefield 1 usa, desde o começo, um tom respeitoso e por vezes sombrio para nos introduzir os personagens que acompanhamos em sua campanha. Em vez de seguirmos apenas uma única narrativa, passamos brevemente pela vida de diferentes indivíduos, cada um em um front de guerra diferente, passando por dificuldades específicas. No entanto, por mais que tente olhar para tudo de maneira sóbria, Battlefield 1 falha em fazer com que sua campanha seja interessante, variando entre ruim e medíocre, sendo impossível em qualquer momento nos importarmos com quaisquer das figuras que controlamos. É curioso, mas no multiplayer, porção em que a reverência aos que foram perdidos nesse combate é deixada de lado e a grandiosidade caótica e espetacular vem à tona, que o novo trabalho da DICE torna-se relevante.

O protagonista de Through Mud and Blood

O protagonista de Through Mud and Blood

As campanhas, que ocorrem não só em locais diferentes mas também em tempos diferentes, podem ser jogadas na ordem que quisermos. Elas não dialogam umas com as outras e os personagens vistos nunca mais são referenciados novamente. Na teoria, isso poderia nos dar uma boa perspectiva da vastidão da Primeira Guerra Mundial e como vidas de diferentes partes do globo foram afetadas por ela. Na prática, o foco no lado humano é usado de maneira muito rasa, ao ponto de que é difícil decorarmos o nome de qualquer um que controlemos, quanto mais ligarmos para seus destinos.

Cada um desses contos tenta ter um foco diferente. Por exemplo, Through Mud and Blood foca-se no uso de tanques, nos colocando dentro de um deles por pelo menos metade da aventura, enquanto Friends in High Places tem algumas fases no cockpit de um avião. Já Nothing is Written, em que usamos uma combatente que luta ao lado de Lawrence da Arábia, pede que nos atentemos à furtividade para termos mais facilmente sucesso em nossos objetivos.

A variedade é bem-vinda, mas mesmo em sua pouca duração (terminar todas as campanhas não leva mais do que cinco horas e algumas delas acabam em cerca de trinta minutos), cada uma das histórias torna-se chata antes de seu encerramento. Por mais que se trate de um jogo muito bonito de se ver, o design das missões é só mais do mesmo, não envolvendo quase nada além do que matarmos tudo que está em nossa frente, eliminarmos uma pessoa específica sem que outros nos percebam ou, ocasionalmente, conquistarmos um objetivo como se estivéssemos em um mapa do multiplayer.

Em certas ocasiões nos é concedida alguma liberdade em como iremos encerrar nosso objetivo, nos sendo permitido navegar por um mapa aberto, sem que seja pre-definido em que ordem devemos cumprir nossos requisitos. Entretanto, essa mesma ideia já apareceu diversas vezes, e de maneiras melhores, em outros jogos. Nada aqui irá chamar atenção. O ponto alto de todas as campanhas aparece em um trecho que devemos percorrer uma terra de ninguém – território em disputa, localizado entre trincheiras de nações diferentes – , mas mais pela beleza em sua destruição do que por conta de algo que tenhamos que realizar como jogadores.

Battlefield 1

Pode parecer meio absurdo, mas os cavalos são realmente úteis no multiplayer

Em meio a isso, o próprio tom respeitoso acaba diluído à mesmice de nossas ações. O único momento em que o peso do que é contado é integrado às mecânicas está na introdução, em que controlamos diversos Harlem Hellfighters. Nesse segmento, que funciona também como um tutorial, nos é dada a informação de que não há como sobrevivermos por muito tempo. Assim, por melhor que ajamos, eventualmente somos subjugados pela força inimiga e, quando perdemos a vida, passamos a controlar outro combatente no mesmo front até que o mesmo ocorra com ele.

O conceito é muito legal e podemos sentir a força opressora destruindo nossas tropas cada vez mais, sem que possamos fazer nada por conta própria para impedir isso. Infelizmente, caso você dure tempo demais com um desses soldados é fácil perceber o surgimento de um inimigo que é imortal, completamente imune às nossas balas, não importa o quanto que disparemos. Esse momento fixamente roteirizado anula boa parte da graça que surge através de mecânicas. Não há nada de errado em jogos nos afunilarem em direção a algo que queiram que façamos ou vejamos, mas há maneiras mais elegantes disso ser feito. Preferencialmente, o jogador não deve notar que isso ocorreu, a alteração do percurso deve acontecer como se tivesse sido uma decisão – ou falha da mesma – que tenha vindo de nossa parte. Essa roteirização facilmente percebida acontece em outras partes das campanhas também.

Battlefield não ter um bom componente solo de qualidade não é surpresa. Com exceção de Battlefield: Bad Company, a série não é celebrada por suas narrativas engajantes. Mas aqui a mediocridade é mais triste por conta de seu cenário. Essa poderia ser a vez em que veríamos a Primeira Guerra Mundial finalmente ser um bom terreno para uma história em videogames, mas no fim das contas as decisões tomadas são calcadas no óbvio e no seguro. Junto disso, é no mínimo peculiar que nenhum dos contos seja focado em um soldado francês. E há uma oportunidade perdida em não vermos o ponto de vista do lado alemão, algo que seria factível aqui, diferente do terreno complicado que existe se o cenário fosse a Segunda Guerra Mundial.

Battlefield 1

Se todos agirem juntos, tanques podem ser destruídos rapidamente, mas eles nunca deixam de ser assustadores

Quando vamos para o multiplayer, no entanto, por mais que o contexto histórico tente ser transparecido – especialmente no novo modo Operations, que possui uma pequena narração sobre os eventos daquela batalha em sua introdução e em seu fechamento –, a reverência perde espaço e o que temos em seu lugar é o espetáculo. E, por mais que campos de combate vastos e caóticos, repletos de explosões e tiros para todos os lados não sejam nenhuma novidade, é ao abraçar seu lado mais jogo, ignorando o tom utilizado na parte solo, que Battlefied 1 mostra suas verdadeiras qualidades.

Mais uma vez, não é inesperado que o multiplayer seja aquilo que mais chama a atenção. Isso sempre se deu com Battlefield e aqui não temos uma exceção. Ainda assim, a diferença entre essas duas porções é como noite e dia. Se tudo que você tem interesse em ver é a campanha, esqueça Battlefield 1. Entretanto, se você não tem nem intenções de olhar para a parte single player, tudo bem. O segmento para vários jogadores é excelente e faz o pacote todo valer a pena.

Há um frescor em estamos em palcos pertencentes à Primeira Guerra. Mesmo que o acesso a armas automáticas seja maior do que o esperado para a época (algumas classes tem como equipamento básico metralhadoras), eu não senti que aquele que atira primeira é necessariamente sempre aquele que sairá vencedor. É como se as armas de pior qualidade quando comparadas às modernas precisassem de uma finesse maior para serem manuseadas, o que leva a uma incerteza sobre quem sairá vivo dos tiroteios.

E incerteza, por sua vez, é a característica definidora de por que as partidas desse jogo são tão legais. Há tantos jogadores juntos, utilizando de tantos equipamentos e veículos, que a imprevisibilidade faz com que cada momento seja diferente do anterior. A essa altura todos estão cansados de ver gifs de aviões que caíram no chão a metros de distância de um jogador, acertando no processo soldados inimigos e construções. Porém, mesmo não se tratando de algo que em seus eventos é novo, os pormenores nunca se repetem e é sempre animador quando uma dessas coisas ocorrem ao nosso lado.

Diferente de outros jogos de tiro em primeira pessoa, Battlefield 1 é um que me faz ativamente dar risadas enquanto jogo, de tão absurdas que são algumas situações. Eu tenho certeza de que outras pessoas em meu time estavam frustradas com o que estava acontecendo, mas não tenho como não achar hilário ver o telhado da casa em que eu estava desabando completamente devido a uma explosão de granada, me levando a cair dentro de uma sala que estava cercada por inimigos.

Isso não significa que não há frustrações. Franco-atiradores ainda parecem capazes de acertar oponentes com precisão de distâncias maiores do que o aceitável, levando a mortes que dificilmente temos como prever ou evitar. Além disso, é comum que pessoas ignorem completamente as mecânicas do esquadrão, que agrupa até cinco membros em uma equipe, com seu líder sendo capaz de dar ordens sobre quais pontos devem ser atacados ou defendidos. Por conta do quão fácil é sermos subjugados por um grupo de inimigos que venha em nossa direção, os rounds mais divertidos que tive foram de longe aqueles nos quais o esquadrão trabalhava de maneira unida – algo que é possível de ser feito mesmo sem comunicação com microfones –, pois não só mais objetivos eram conquistados como o tempo em que permanecia vivo era maior. Quando cada um age por si fica um pouco chato.

E mesmo não sendo o atirador mais hábil do mundo – miras antigas são complicadas – ainda encontro prazer em conseguir realizar pequenos feitos, como ressuscitar aliados caso esteja usando a classe médica ou destruindo tanques inimigos se estiver como Assalto.

Falando em tanques, talvez o elemento mais condizente com a Primeira Guerra Mundial presente no multiplayer é o quão assustadores eles são. É possível derrotá-los e esforços conjuntos podem alcançar isso em pouco tempo, mas encontrar um desses veículos estando despreparado é desesperador e, quase sempre, morte certa. Por outro lado, pilotar um deles, especialmente quando há outras pessoas comandando as armas secundárias, providencia ótimas oportunidades.

O ato de termos acesso a tanques e aviões é um pouco diferente do que costumava ser. Na tela do mapa, na qual podemos decidir onde vamos nascer (em um ponto capturado, ao lado de um membro de nosso esquadrão etc) é possível selecionar ícones dos aviões ou tanques, desde que eles estejam disponíveis. Em certas modalidades, como o clássico Conquest, bandeiras adicionais que são controladas providenciam veículos adicionais. Se for possível selecioná-los, em vez de decolarmos com o avião, por exemplo, ele já estará voando, aparecendo de repente nos céus. Isso evita a fila de pessoas esperando que novos aviões surjam, apertando furiosamente o botão de ação para que embarquem neles.

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Apesar de Conquest continuar sendo uma modalidade boa, o novo Operations foi o que dominou a maior parte do meu tempo com Battlefield 1. Esse modo é composto de diversas batalhas interconectadas, nas quais o time que ataca deve capturar todos os pontos estratégicos, levando o time que defende a recuar e proteger novos pontos que surgirão. É bem interessante olhar ao longe e ver os locais pelos quais o conflito atravessou ainda pouco. E, por mais que a vitória apareça momentaneamente, é normal que reviravoltas ocorram, especialmente se um Behemoth – um zepelim gigante e com diversas armas – aparecer em combate. Se muitos jogadores estiverem o operando ele pode aniquilar infantaria facilmente, tornando difícil qualquer movimentação. Por outro lado, vê-lo explodir e se transformar em uma enorme bola de fogo é maravilhoso.

Por fim, por mais que tenha elogiado o caos, War Pigeons e Team Deathmatch são as modalidades menos atraentes justamente por caírem demais no aleatório. War Pigeons é uma espécie de pique-bandeira, em que os dois times estão tentando levar um pombo a um local específico, para então soltá-lo e convocarem um bombardeio. Diferente de uma bandeira, o pombo pode ser abatido, então há essa complicação a mais. No entanto, sem alvos mais fixos tudo se move de maneira muito abrupta, levando a mortes frequentes em que o inimigo simplesmente nasceu em um ponto próximo a você, pegando-o o desprevenido. Isso deve ser exatamente o que alguns buscam, mas não me interessou nem um pouco.

É uma pena que a campanha seja um desperdício. Eu ainda espero um dia vermos a Primeira Guerra Mundial ser explorada em videogames através de uma narrativa bem escrita e relevante. Ao menos, por mais que a campanha não seja boa, o multiplayer de Battlefield 1 me fez não ligar para os problemas do pacote como um todo, me permitindo focar puramente em saltar em partidas com outras pessoas e me deliciar com o caos ao meu redor.

Análise - Battlefield 1
Apesar de tratar seu material base com respeito, a campanha de Battlefield 1 varia entre ruim e medíocre. No entanto, o multiplayer, que deixa de lado o tom reverente e abraça seu lado jogo, é extremamente divertido e fresco, fazendo com o que o pacote valha a pena.
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