Você quer jogar mais Gears of War? Se a resposta a essa pergunta for não, nem perca tempo com Gears of War 4. O trabalho da The Coalition é, sem tirar nem por, um sucessor aos mesmos moldes do que vimos da série no Xbox 360. Se Gears até então não o tinha atraído, não é essa entrada que o fará mudar de ideia. No entanto, se sua resposta foi sim, tenho boas notícias a você. Gears of War 4, representa um ótimo novo episódio para a franquia, alcançando os mesmos níveis de qualidade que fizeram as aventuras de Marcus Fenix e cia serem tão apreciadas na última década.

Você talvez duvide dessa afirmação na primeira hora da história, porque Gears of War 4 não tem o melhor dos começos. Apesar de ser visualmente impactante logo de cara, nos colocando de frente a uma tempestade de fogo – um novo desastre natural de Sera –, a campanha demora um pouco para pegar o ritmo. Na pele de JD Fenix, filho de Marcus, acompanhado dos também novatos Del e Kait, os dois primeiros capítulos nos colocam em confrontos contra robôs, chamados de DeeBees, que não são os inimigos mais interessantes já vistos. Isso ocorre porque o trio faz parte de um grupo de “Outsiders”, pessoas que resolveram viver fora da jurisdição do governo supranacional chamado de COG. Aparentemente, desde que a guerra contra os Locusts terminou, essa liderança ganhou tons ditatoriais, controlando de maneira estrita seus cidadãos, chegando a haver referências ao uso de violência. A situação escala quando, além de invadirem uma cidade em construção para roubarem uma das tecnologias do governo, JD e os outros são acusados por Jinn, a líder do COG, de estarem raptando pessoas, crime que eles sabem que não cometeram. Isso, é claro, é apenas a premissa, não demorando para que problemas ainda maiores do que um regime extremista surjam.

O tempo não foi gentil com Marcus Fenix

O tempo não foi gentil com Marcus Fenix

De modo geral, os DeeBees não fogem do que você espera de oponentes em jogos de tiro. Alguns empunham metralhadoras, outros escopetas, alguns são maiores e têm metralhadoras giratórias, outros armas explosivas etc. A maior diferença está no fato de que, como não se tratam de seres vivos, eles não ligam muito para o próprio bem-estar, volta e meia ignorando coberturas e marchando em nossa direção. Estrategicamente, isso não representa muitas mudanças. Se qualquer coisa, esses embates são mais simples do que os tidos anteriormente, pois é mais fácil atingi-los, considerando o quão expostos eles ficam.

Felizmente, do terceiro capítulo em diante o jogo desperta e a ação torna-se instigante e divertida até o fim. A maior razão para isso está na troca dos oponentes. Os robôs largamente desaparecem e, desse momento em diante, passamos a enfrentar novamente os Locusts – ou ao menos algo bem parecido com eles, referenciados como Swarm –, cuja inteligência e variedade tornam os combates bem mais eletrizantes. Boa parte das unidades deles são velhos conhecidos. Drones são os inimigos mais constantes, nos pegando de surpresa de acordo com o armamento que utilizam. Como de costume em Gears of War, a dificuldade das batalhas está em manter um equilíbrio entre sobreviver à saraivada de tiros normais enquanto ficamos atentos a ataques específicos que podem nos eliminar instantaneamente.

Se formos atingidos continuamente passamos a nos rastejar, podendo ser ressuscitados por aliados (e a IA faz um excelente trabalho em relação a isso), porém uma granada certeira, uma motosserra na cara, um tiro do Torque Bow e outros mais acabam conosco na hora. E como é comum que em qualquer luta haja alguns soldados do Swarm ou DeeBees com essas capacidades, auxiliados por um punhado de inimigos com armas normais, os confrontos de Gears apresentam uma necessidade maior de cautela do que seu shooter normal, constantemente misturando ação com decisões táticas. Isso só fica mais aparente nas dificuldades mais elevadas, que eu recomendo que você escolha se Gears of War não é alienígena a você. O Normal é um pouco fácil demais, ao ponto de quase não pedir que usemos coberturas, o que tira um pouco da graça do combate. O Hardcore, que é o que vem logo acima, é mais condizente com o que jogos normalmente chamam de “médio”.

Kait é a personagem mais interessante dentre os novatos da série

Kait é a personagem mais interessante dentre os novatos da série

Além dos drones com diferentes armas, o Swarm tem algumas unidades inéditas que agem de maneira curiosa. Sem entrar em muitos detalhes, basta dizer elas pedem por um modo de agir diferente daquele que funciona na maior parte do tempo, retirando a segurança que normalmente encontramos em coberturas.

Há também algumas novas armas encontradas, apesar de nenhuma delas ser tão chamativa quando equipamentos icônicos como o Lancer e o Longshot. Dito isso, não são essa meia dúzia de armamentos não vistos antes ou um punhado de monstros diferentes que fazem a campanha ser legal. Sua principal qualidade é que ela possui uma variedade boa de ambientes e ações e, fora os primeiros capítulos, sua cadência funciona muito bem. Os locais pelos quais temos que passar vão de velhas fábricas a museus e minas infestadas, cada um deles com uma estrutura bem distinta que pede que rearranjemos nossas táticas na hora. Ele também é inteligente sobre quando introduzir partes com mecânicas diferentes, como um segmento em que pilotamos uma moto ou vestimos um traje robótico que nos torna quase imortais. Nenhuma dessas ideias, obviamente, é sem precedentes ou muito original, mas a Coalition soube quando inseri-las de forma que, com exceção de seu início, nunca senti tédio na aventura.

Curiosamente, o modo horda foi levemente implementado à campanha. Em certas ocasiões temos de sobreviver a ondas de inimigos, ganhando recursos entre cada uma das levas que podem ser usados no Fabricator para construirmos defesas como turretas automáticas e cercas de arame farpado que diminuem a velocidade de oponentes. A tempestade de fogo que vemos logo de início é também uma companheira constante, que altera algumas regras quando se faz presente. Os fortes ventos afetam a trajetória de nossas granadas e alguns projéteis, além de ser sempre nesses momentos que podemos interagir com partes do cenário que resultam em efeitos caóticos e às vezes imprevisíveis.

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Finalmente, Gears of War nunca teve os melhores chefes dos videogames e, enquanto a luta final desse novo título é bem sem graça, há alguns confrontos com monstros mais fortes e chefes que são tensos e empolgantes, pedindo mais do que simplesmente atirar continuamente contra o oponente.

No fim das contas, essa é uma boa introdução a novos eventos que veremos serem desenrolados mais a fundo em jogos subsequentes. Os novos personagens não são tão carismáticos quanto Marcus, Dom, Cole etc eram, mas ao final da campanha eu até que me importava um pouco com alguns deles. Kait, em especial, acaba tendo um arco um pouco mais profundo devido aos motivos que a impelem nessa jornada, pois essa guerra passa a ter tons pessoais para ela. Del também tem fagulhas de desenvolvimento, se mostrando como alguém culto e conhecedor da história de Sera. Ele e JD, no entanto, estão o tempo todo mais preocupados em fazer piadas ruins e comentários engraçadinhos sobre a situação, ao ponto de que se fossem descritos pelo narrador da Globo em uma propaganda da Sessão da Tarde seriam chamados de “dupla de amigos que só entra em altas confusões”. Isso é especialmente decepcionante por conta de JD, já que sua relação difícil com Marcus Fenix aparece muito superficialmente, sendo que havia algo chamativo aí que poderia ter sido explorado. Um trabalho melhor poderia ter sido feito para que eles se destacassem mais, mas pelo menos vemos as figuras antigas que gostamos, então isso compensa.

Só não há desculpas para o quão abrupto é o encerramento da história. Mecanicamente toda a conclusão é muito boa, catártica e divertida e provavelmente contém alguns dos cenários mais bonitos de toda a aventura. Entretanto, narrativamente mais parece que uma página de livro foi cortada pela metade, pois não há uma conclusão em si. Apenas parece que o fim da história está ausente.

O Modo Horda, introduzido no segundo jogo da série, traz algumas mudanças. Sua base permanece a mesma: você, ao lado de aliados (até quatro deles, levando a cinco no total) devem sobreviver a ondas de inimigos que ficam progressivamente mais fortes. A cada dez níveis um chefe aparece e, depois de derrotado, os oponentes ganham permanentemente uma melhoria, como mais dano, mais vida etc.

O que há de diferente na modalidade de Gears of War 4 é que ela elevou as mecânicas de Tower Defense apresentadas em Gears of War 3 e pegou emprestada algumas das ideias do sistema de classes de Gears of War: Judgment. No início de toda partida é preciso decidir em que local será colocado o Fabricator. A posição deste pode ser mudada a qualquer momento, mas decidir seu local é muito importante pois, tal qual ocorre na campanha, é através dele que construímos fortificações, como barreiras que diminuem a velocidade dos inimigos, turretas automatizadas que nos auxiliam na defesa, além de ser apenas no Fabricator que podemos ressuscitar companheiros abatidos antes do final de uma onda.

Serrar inimigos ao meio continua sendo muito bom

Serrar inimigos ao meio continua sendo muito bom

Para que essas fortificações sejam criadas é necessário coletar energia, que aparece quando derrotamos um oponente. Essa energia permanece em campo até o início da próxima onda, então é comum que os poucos segundos de paz antes da chegada de novos monstros sejam povoados de uma correria alucinada, na qual o time tenta agarrar o máximo de energia o possível. Ela pode ser pega durante o conflito, mas isso represente um cálculo de risco e recompensa, afinal correr até ela significa sair da proteção. Isso leva a momentos bem tensos, em que um pouquinho mais de energia pode representar a criação de um item que fará toda a diferença, mas o risco de morrer tentando agarrá-la pode afundar o time.

Em cima disso empilham-se as classes. Antes de começar você pode decidir qual classe utilizará, o que altera não apenas a arma com a qual você renasce após cada morte, mas também quais habilidades distintas você empunhará. Por exemplo, os Scouts têm um bônus de energia quando esta é coletada, o que significa que os recursos do time poderão ser mais vastos. Os engenheiros, por sua vez, podem criar arrumar fortificações e construí-las por um preço reduzido, o que pode resultar em um número maior de estruturas. Algumas outras, como o soldado, são voltadas exclusivamente ao combate e seus bônus referem-se ao dano recebido e dado.

Pela minha experiência no novo Modo Horda, as ideias das classes são bem legais, mas demoram um pouco para serem sentidas. Apenas depois de subir de nível algumas vezes (pois cada uma delas tem um nível específico) e desbloquear bônus distintos que suas funções começam a vir à tona. Isso, no entanto, é sempre acompanhado de um porém. As mudanças à modalidade só realmente brilham caso você esteja jogando de forma coordenada com um grupo de amigos, com os quais esteja se comunicando constantemente. Com estranhos, na hora da ação ninguém quer saber qual é a sua classe ou qual a funcionalidade dela. Todos querem correr o mais rápido em direção às energias e quem estiver mais próximo do Fabricator que construa o que for necessário para sobrevivermos. Isso não torna impossível vencer, mas em mais de uma ocasião vi alguém gastar dinheiro ressuscitando uma pessoa quando faltavam pouquíssimos inimigos para a onde ser encerrada, o que traria o jogador morto de volta à vida instantaneamente, sem que tivéssemos gasto nossos preciosos recursos. Comunicação teria feito muita diferença.

Outra peculiaridade do Horda que denota a necessidade de um entrosamento está no fato do Fabricator poder ter sua posição mudada a qualquer momento. Nas minhas horas dentro do modo foi uma constante que novos jogadores que entram na partida (pessoas podem entrar entre as ondas) volta e meia decidiam saberem qual é a melhor posição do Fabricator, mesmo que aqueles que estavam na sessão até então tivessem entrado em um ritmo específico e estivessem conseguindo avançar do jeito que as coisas estavam. É bastante irritante, especialmente porque não há nenhuma maneira de impedir alguém de fazer isso. Além disso, por ser uma empreitada longa como antes, frustrações podem surgir no caminho. Foi desanimador chegar à onda cinquenta, a última de todas, apenas para ver os outros jogadores da partida desistirem por conta da dificuldade. Me vi sozinho e obrigado a também desistir, já que sem pessoas adicionais era basicamente impossível passar dali.

Eu apenas ressalto isso para deixar claro que o Horda tem seus tropeços e as novidades não o favorecem se você apenas gosta de jogar com estranhos (mas isso não representa de nenhuma forma um impeditivo). Entretanto, a modalidade continua extremamente divertida e tensa, e alguns dos meus momentos favoritos com o jogo surgiram dali. É muito prazeroso ver-se em uma situação na qual você não acredita mais haver saída, apenas para subitamente o time conseguir contornar os problemas e sair vitorioso. Eu ainda não me sinto completamente confortável com as classes, mas elas têm ficado progressivamente mais interessantes.

Gears of War 4

Gears of War 4

Quanto ao modo versus, tal qual a campanha, se o multiplayer competitivo de Gears of War nunca foi sua praia não é o de GoW 4 que mudará sua opinião. O traço mais marcante dele é que, diferente das outras modalidades, ele roda a 60 quadros por segundo (o que faz diferença no Xbox One, pois no PC, dependendo de sua máquina, é possível rodar tudo em uma taxa de quadros maior). Ao menos nesse início de vida do jogo, a tática utilizada nos títulos anteriores, de saltar constantemente e se focar no uso da shotgun, continua sendo válida e amplamente praticada pelos jogadores presentes.

Por conta disso, um dos tipos partida mais divertidos acabou sendo o Arms Race, no qual as armas que o time inteiro empunha rotacionam de acordo com o número de mortes que ocorrem. É bem legal porque você é sempre pego de surpresa, especialmente quando está precisamente posicionado para utilizar um armamento de longa distância, apenas para de repente se ver com uma escopeta em mãos. Encontrar partidas dentro de estilos de combate específicos é às vezes um pouco demorado, mas o Social Quickplay, que rotaciona modalidades, costuma ter um matchmaking rápido.

Fora os primeiros dias após o lançamento, em que eu era chutado aleatoriamente do online com uma mensagem de erro, Gears of War 4 tem sido bem estável. Houve uma ocasião ou outra em que eu pude sentir o lag interferindo em minhas ações, especificamente me impedindo de acertar golpes corpo a corpo que, em relação ao que eu estava vendo, deveriam ter ocorrido. Curiosamente, no entanto, isso aconteceu apenas no Modo Horda, mas não no Versus.

Fora das partidas há todo um elemento de coleta de cartas. Estas se dividem em três tipos. Podem ser apenas estéticas – abrindo novos personagens ou skins para usarmos –, podem ser uma recompensa – como “mate cinco pessoas em uma partida para ganhar um bônus de experiência” -, ou melhorias para as habilidades das classes do Modo Horda. Essas cartas são adquiridas através de pacotes, comprados com uma moeda ganha dentro do próprio jogo, mas é claro que também estão à venda com dinheiro real.

Antes que você fique preocupado, os aprimoramentos ao personagens não estão presentes no Versus, então alguém que esteja disposto a gastar reais ou dólares para abrir mais pacotes não estará tendo vantagens. Após chegar na onda 50 do Modo Horda na dificuldade normal, algo que demorou cerca de cinco horas, eu havia acumulado 2000 moedas, sendo que o pacote mais caro custa 4000. A velocidade da sua coleta depende também da sua habilidade, então é bem possível que você consiga tê-las mais rapidamente do que isso, mas isso deve dar uma noção do tempo necessário para se conseguir mais skins e afins. Junto disso, você pode destruir as cartas que não quer, transformando-as em sucata, que pode ser usada na construção de cartas que considere mais úteis. Isso é mais importante ao Horda, já que cartas podem ser aprimoradas quando versões repetidas são combinadas.

Gears of War 4 pode ser mais definido como um título que joga no seguro, isso é fato. Mesmo as mudanças feitas ao Modo Horda são marginais; o cerne do que é realmente bom aqui é exatamente aquilo que já era bom em Gears of War 2. Mas o título da Coalition replica aquilo que havia em seus predecessores de maneira competente. O resultado é um excelente jogo que não o fará mudar seus conceitos sobre essa franquia, mas será um deleite para aqueles que já a apreciavam.

Gears of War 4
Desenvolvido pela The Coalition
Distribuído pela Microsoft
Disponível para Xbox One e Windows 10
Versão testada: Xbox One
A análise foi feita com uma cópia do jogo providenciada via assessoria de imprensa

– Assista ao Shuffle da campanha de Gears of War 4

Análise - Gears of War 4
Gears of War 4 não o fará mudar de ideia se você nunca foi um fã da franquia. No entanto, mesmo jogando no seguro, este é um jogo tão competente quanto àqueles presentes na trilogia original, acompanhado de um Modo Horda que traz algumas mudanças interessantes.
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  • riquesampaio

    “O tempo não foi gentil com Marcus Fenix”
    Eu diria que o Whey não foi gentil com Marcus Fenix, pq de resto, até que ele tá BEEEM inteirão.