Owlboy é como uma grande obra do Super Nintendo que nunca tivemos a chance de jogar durante a vida do console. Bebendo levemente da estrutura de títulos como Super Metroid, controlamos Otus, um garoto coruja que nasceu mudo. Otus está em treinamento com Asio, seu mestre, para poder realizar a tarefa que as corujas fazem, aparentemente, há séculos: serem guardiãs dos céus e das terras flutuantes, protegendo pessoas de perigos como ataques piratas e seja lá mais que possa ser ameaçador.

Otus não é o melhor dos aprendizes, mas ele domina sem problemas uma habilidade que oferece uma liberdade bem maior do que jogos costumam nos conferir. Desde o início, podemos voar livremente para qualquer direção. Existem barreiras que impedem momentaneamente nosso progresso, como cachoeiras que inutilizam nossas asas, entulhos que não podemos destruir por conta própria e plantas espinhosas que sozinhos não podemos atravessar. Ainda assim, é gratificante já, na primeira área de todas, perceber que podemos voar para qualquer canto e que a tela continua se expandindo e revelando pequenos segredos deliciosos de serem encontrados, na forma de moedinhas colecionáveis, argolas que devemos atravessar ou vegetais, que à la Super Mario Bros. 2 podem ser puxados diretamente da terra. Aqui, entretanto, eles aumentam nossa barra de vida para além de seu limite normal, dando um bônus temporário.

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A vila bucólica em que Owlboy tem início

Além da liberdade, parte desse deleite ocorre por conta do visual de Owlboy. Nos últimos anos, a pixel art foi de algo que víamos com olhos felizes e nostálgicos para um estilo que é primeiramente encarado com ceticismo. Há simplesmente tantos e tantos jogos com essa cara que o frescor por puramente seguir uma estética com ares de retrô perdeu seu impacto, sendo mais caracterizado como um lugar comum. Felizmente, exceções a isso volta e meia surgem e Owlboy está nesse campo.

Há muita vida nesse mundo que devemos proteger, uma que transparece nos mínimos detalhes. São graminhas que ondulam ao vento de maneira independente, indo a nuvens que vagarosamente passeiam ao fundo, e também a inimigos que despertam quando nos aproximamos para então nos detectarem e atacarem. Haja outros personagens com os quais conversarmos ou não, os locais pelos quais viajamos vivem, independente de nossa presença ali ou não.

É bastante impressionante o número de figuras cuidadosamente animadas que foram criados apenas para aparecem por poucos minutos, ou animações de fundo feitas só para nos darem a sensação de grandiosidade. Em um certo momento, visitamos a capital desse mundo e, por motivos concernentes à trama, não é possível visitar essa cidade em um passeio de lazer. No entanto, mesmo que não vejamos muitas das localidades, é fácil acreditar se tratar de uma metrópole devido a tudo que se estende para o fundo de nossa tela, além de nos deixar claro a magnitude do evento que está ocorrendo nessa capital quando chegamos lá. Owlboy captura o sentimento mágico de nos fazer indagar sobre o que há para além dos limites da tela de nossos televisores.

Os detalhes em excesso às vezes entram no caminho da utilidade. Há monstros contra os quais lutamos cujos pormenores me foram incompreensíveis. Eu conseguia entender o que o ser como um todo era, mas não exatamente o que partes de sua face deveriam representar. Em contrapartida, mesmo com faces diminutas, Otus e os companheiros que encontramos em nossa jornada têm rostos bem animados e variados. Há em especial uma expressão de surpresa feita pelo menino coruja, de olhos arregalados, que do começo ao fim foi engraçada.

É através desses companheiros que passamos a conseguir ser mais efetivos no combate e alcançar novos lugares. Com exceção de um artefato encontrado logo no começo, que permite que esses amigos sejam teleportados instantaneamente até Otus, a pequena coruja não ganha novas habilidades. O que ele ganha são novas companhias, que podem ser levadas livremente por suas garras para onde quisermos.

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Geddy é o primeiro companheiro que carregamos em nossas garras, que nos auxilia em puzzles e combates

Geddy, o primeiro desses companheiros, possui uma pequena pistola. Com ela, além de ser possível derrotar certos inimigos, podemos quebrar entulhos, como caixas e vasos, que o pequeno ataque giratório de Otus é incapaz de danificar. Ao mesmo tempo, defesas metálicas são fortes demais para o armamento de Geddy, porém elas podem ser removidas com a empreitada do menino coruja. Assim, é preciso progressivamente fazer um malabarismo usando de nossas diferentes capacidades para que se possa derrotar certos oponentes.

A complexidade cresce quando adquirimos companheiros adicionais, que podem ser invocados para as garras de nosso personagem sem nenhum limite. Cada um deles têm ataques específicos e, em alguns casos, habilidades necessárias na resolução de enigmas. Nenhum desses puzzles me fez coçar a cabeça em indagação, mas eles são criativos e divertidos de serem resolvidos.

Novos companheiros resultam na possibilidade de acesso a novas áreas, mas não espere por algo que lhe permita encontrar nas partes iniciais enormes tesouros até então inacessíveis porque você não podia queimar plantas com espinhos, por exemplo. Existem segredos específicos escondidos, mas, no geral, Owlboy nos impele a seguir em frente, algo reforçado pela ausência de mapas. Existem apenas placas que nos guiam a localidades gerais (e garantiram que eu nunca me perdesse), mas nada que te informe exatamente sobre os meandros existentes em cada uma das áreas que visitamos. Isso é um pouco aflitivo no começo, ainda mais por conta da liberdade que temos em voar para todas as direções, mas em pouco tempo eu havia me acostumado e entendia a geografia desse mundo.

Há momentos em que as capacidades de nossos amigos são infrutíferas contra nossos oponentes, então a única solução é usar de furtividade.O jogo é bem leniente, então, mesmo não tendo um foco em torno dessa jogabilidade, ele acaba não sendo frustrante. Na verdade, esses segmentos têm a utilidade de representarem através de mecânicas a força desses inimigos, algo que, por sua vez, alimenta ideias proferidas na trama. Meu conselho: seja visto e capturado pelos gnomos ao menos uma vez. Garanto que o resultado é mais assustador e surpreendente do que você imagina.

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Owlboy se sustenta em suas mecânicas, mas há um outro aspecto a ele também muito importante: seu tom e como ele, deliberadamente, faz referência aos jogos da geração a qual remete. E como primeiramente os aceita para então os negar.

Tudo começa em uma pequena vila de ares bucólicos. Há conversa sobre piratas, mas ninguém de fato os teme. Nosso maior problema é não sermos o melhor dos alunos e as broncas subsequentes que tomamos por conta disso. As preocupações de outros indivíduos giram em torno do som de seus tambores, da temperatura da água de sua fonte natural e outras trivialidades mais.

O que acontece é que estamos treinados em relação ao que esperamos de jogos com esses ares. Por mais que o clichê desse início de aventura seja amplamente utilizado por videogames, indo de Link despertando na segurança de sua casa vendo seu tio partir, a Crono acidentalmente viajando de um festival alegre para tempos em que perigos eram mais constantes, estamos acostumados a não sentirmos a presença de uma ameaça. Claro, Ganon está maquinando algo maligno e Lavos meio que já venceu antes de alterarmos o fluxo temporal, mas, como jogadores, nunca há dúvidas sobre nossa vitória.

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E é ao quebrar o que esperamos de um jogo que remete à eras passadas dos videogames que Owlboy deixa claro que ele não está aqui para apelar à nostalgia ou nos fazer sentir seguros dentro de um espaço identificado como um pertencente a nossa infância. Sem entrar em detalhes da trama, mas coisas definitivas acontecem, pessoas que deveriam ser sábias se mostram tão falhas quanto o garoto incapaz de aprender suas lições e vemos que, por maiores que sejam os esforços, nem tudo pode ser alcançado só porque acreditamos naquilo.

E, em torno de tudo isso, há também um invólucro que nos mostra que a busca por reconhecimento não é o motor principal que guia ações que você acredita que devem ser feitas. Ser um herói nem sempre envolve que outros nos enxerguem como sendo um. Igualmente importante, mesmo com tudo isso, Owlboy não esquece em nenhum momento do quão importante é às vezes parar para rir e ser engraçado.

Nem tudo relacionado ao desenvolvimento dos personagens ou sobre a trama é bom. Mesmo ativamente querendo se desvencilhar disso, há uma boa dose de clichês e eventos. Entretanto, não achei que esses momentos tiravam em nada o valor de outros que são genuinamente emocionantes. Alguns deles usam da mudez de nosso protagonista para pedir atitudes ao jogador, aumentando o impacto do que é narrado.

Owlboy nos engana. Ele se aproxima como se quisesse apenas referenciar o que veio antes, mas a verdade é que ao mostrar tudo que possui, ele acaba por se tornar uma referência.

Owlboy
Desenvolvido pela D-Pad Studio
Distribuído pela D-Pad Studio
Disponível para PC
A análise foi feita com uma cópia do jogo providenciada via assessoria de imprensa

Análise - Owlboy
Owlboy se apresenta como um jogo de apelo nostálgico, que referencia títulos que jogávamos na era 16-bit. Em pouco tempo, no entanto, ele se mostra como algo que vai muito além disso, usando de uma estética reconhecível para negá-la.
5

  • Márcio Barbosa

    Bem legal. Não fosse vocês acho que não saberia desse jogo. Vai ter shuffle dele?

    • Heitor De Paola

      Sim, deve sair amanhã mesmo.

  • Guilherme Carrion

    “Ser um herói nem sempre envolve que outros nos enxerguem como sendo um”, bonito. Fiquei bem curioso com o jogo com certeza irei atrás.

  • Guilherme Gondin

    Estou a tanto tempo esperando esse jogo que não consigo acreditar que ele saiu e é bom XD

  • Feike do luiz

    Esse jogo é muito fraco

  • Jacksonmetal Rocha

    Estou jogando,somente uma palavra pra esse game ,jogaço!!!!