A característica principal que faz com que Titanfall 2 seja tão bom é uma difícil de ser descrita apenas em palavras, pois precisa ser sentida. A sensação tida ao jogá-lo, especificamente relacionada à movimentação e às capacidades que temos com nosso personagem, é maravilhosa. É como se fôssemos leves como uma bailarina quando queremos correr por paredes, saltar por cima de precipícios e agarrarmos em beiradas. Ao mesmo tempo, quando é hora de desferir uma pancada ou saltar para cima de um oponente, o impacto que surge é potente como o de uma bigorna caindo de dez andares e acertando em cheio o concreto. Ele transita entre esses dois modos como se fossem naturais e complementassem um ao outro.

Esse elemento é um presente em todas as partes do novo trabalho da Respawn, mas de maneiras um pouco diferentes quando estamos falando da campanha ou do multiplayer.

O componente solo, que não estava presente no primeiro Titanfall, tem seu início um pouco conturbado. O motivo está na contextualização do que está acontecendo. Eu não sei dizer se o estúdio esperava que todos se lembrassem das facções que lutavam no título anterior, mas de cara nomes e siglas são despejados em nossa direção sem que tenhamos a menor ideia do que querem dizer ou representam.

Titanfall 2

Luta entre Titãs é um dos destaques da campanha. Os chefes são todos assim.

Felizmente, essa parte da premissa pode ser simplificada ao extremo, sendo compreendido que somos um membro da infantaria que luta ao lado de alguns Pilotos – aqueles com permissão para usarem Titãs, grandes robôs de combate – e que estamos indo a um planeta enfrentar um grupo de mercenários. E é isso.

A empreitada rapidamente encontra problemas e a força de ataque perde. No processo, o piloto de um Titã é ferido mortalmente, porém com suas últimas energias ele nos transfere o direito sobre seu robô, o BT-7274. Assim, como um dos poucos sobreviventes, somos agora acompanhados da enorme máquina, combatendo seja lá o que aparecer em nosso caminho para completarmos a missão que nos foi designada. É aí que a diversão começa.

É na indumentária de um Piloto que todas as capacidades de movimentação são concedidas ao nosso personagem e, do momento em que Titanfall 2 nos concede isso, passamos a ter liberdade para utilizarmos nosso arsenal como quisermos. Não que ele não tenha segmentações específicas e horas em que precisamos esperar que um NPC diga ou faça alguma coisa antes de podermos seguir em frente. No entanto, além desses eventos serem breves e não frequentes, na hora da ação em si não há nenhuma coleira nos impedindo de saltar para onde quisermos.

Como é comum em jogos de tiro em primeira pessoa, nosso personagem é frágil se atingido diretamente por vários disparos, o que, no gênero, normalmente leva à necessidade de contarmos constantemente com coberturas, e que nos abaixemos até que a regeneração de nossa vida seja ativada e as manchas vermelhas na tela desapareçam. Indo mais na veia de algo como o Doom que saiu neste ano, Titanfall 2 incentiva a agressividade, pois nos dá as ferramentas para que não sejamos atingidos desde que nos movimentemos constantemente.

Assim, graças aos ótimos controles e à facilidade em encaixarmos tipos de travessia diferentes, em pouco tempo você se sente confortável para atirar enquanto corre por paredes, saltar por cima de inimigos, deslizar pelo chão em direção a eles e atingi-los diretamente quando isso é cabível. Junto disso, em boa parte da aventura contamos com uma habilidade de nos camuflarmos momentaneamente. Apesar de poder ser usada para derrotar alguns oponentes sem que eles nada percebam, a maior utilidade que encontrei foi a de poder respirar por alguns segundos enquanto minha vida retornava, voltando então a agir de um modo mais agressivo. A camuflagem precisa ser recarregada depois de usada então ainda é preciso certo cuidado. Porém é um incentivo extra a continuarmos permanecendo no ataque em vez da defesa, quase como uma segunda chance caso você tenha sido pego em uma situação especialmente desafiadora.

Titanfall 2

Fora dos Titãs, a agilidade que temos como um Piloto é imensa

Aliada à movimentação estão as fases, construídas para que sejam jogadas dessa maneira. Na verdade, existem bons trechos em todas elas sem nenhum combate, apenas com segmentos de travessia e desafios de plataforma. Eu sei o que você deve estar pensando – plataforma em primeira pessoa é, costumeiramente, terrível. Porém, justamente por conta do quão boa é a sensação que temos ao controlar nosso personagem e por conta do feedback que temos a cada salto, esses trechos foram o exato oposto de frustrante, sendo prazerosos, divertidos e variados.

Variação, aliás, é um dos motivos para que a campanha funcione tão bem. A impressão que tive ao final da parte para um jogador é que ninguém nunca disse “não” para nenhuma ideia tida em uma reunião na Respawn. A aventura é composta de fases com conceitos diferentes que não se repetem entre si, e alguns deles contam com mecânicas únicas que nunca mais vemos novamente. Em certo momento estamos em uma linha de montagem que constrói redomas ao nosso redor (o que gera desafios de plataforma bem específicos), para em seguida irmos a uma guerra que envolve dezenas de Titãs, e então, de repente, devemos atravessar todo um trecho que brinca com distorções temporais (criando oportunidades e desafios novos no processo). É bem divertido.

Na maior parte do tempo somos acompanhados por BT-7274, que é a estrela do jogo. Nosso Piloto está mais para um avatar, sem uma grande história por trás. BT, no entanto, aparenta inicialmente ser apenas um robô de programação rígida, incapaz de entender nuances da linguagem humana, respondendo tudo de maneira literal e séria. Entretanto, em pouco tempo essa presunção é virada de ponta-cabeça e utilizada para fins cômicos bastante bons. Eu não acho que você vá gargalhar em Titanfall 2, mas o humor que pincela os intervalos entre os tiros é muito bem-vindo.

O multiplayer, por sua vez, utiliza ao máximo a movimentação livre que vemos na campanha para tornar as partidas ágeis e eletrizantes. As mesmas liberdades que temos na história temos aqui, podendo correr por paredes, dar pulos duplos etc. Isso já estava presente no primeiro jogo e já era muito bom por lá, mas a impressão é de que pequenos ajustes foram feitos aqui, dando justamente mais leveza e precisão ao nosso parkour.

A maior mudança ocorreu em relação aos Titãs, que possuem quase que classes específicas. Esses modelos são os mesmos que encontramos na campanha, e o modo como são usados varia fortemente. Scorch, por exemplo, tem tiros lentos, porém com danos em área, particularmente efetivo contra outros jogadores que não estão ainda dentro de seus Titãs. Já Legion, por sua vez, tem uma metralhadora giratória que estraçalha outros robôs se esses forem pegos de surpresa, entretanto não possui uma grande precisão se estiver mirando em alvos menores como NPCs e outros Pilotos.

Existe a possibilidade de alterarmos o funcionamento de algumas das habilidades deles. Tone é capaz de disparar mísseis teleguiados e, com uma de suas especializações, esse ataque possui dois mísseis extras. Em outra, esse poder de fogo adicional é deixado de lado para que ele tenha um escudo que dura mais tempo e absorve mais dano, aumentando suas capacidades defensivas.

Titanfall 2

Titanfall 2

É uma mudança considerável em relação ao título anterior, no qual os Titãs estavam mais para esqueletos vazios, apenas com leves indicações sobre qual seria sua melhor utilidade, para que fossem personalizados como desejássemos. Particularmente acho o direcionamento de Titanfall 2 mais interessante, pois, além de oferecer papéis concretos a cada um dos tipos de robôs, ele também aumenta a variedade tática que podemos ter nas partidas. Viu um Ronin? Você já sabe que deve sair de perto dele e manter a distância. Viu Legion? Tenha certeza de criar barreiras entre vocês dois ou de correr para perto dele e pegá-lo no corpo a corpo etc.

Além disso, no primeiro Titanfall os gigantes tinham escudos similares à vida regenerativa que tantos jogos utilizam, o que dava incentivos para que nos escondêssemos e retornássemos à bagunça quando estivéssemos mais seguros. Retomando um tema que é uma constante em todo o seu design, Titanfall 2 torna os robôs aqui mais agressivos, pois a vida dos mesmos não volta sozinha.

O que ocorre é que, quando estivermos controlando nosso Piloto, precisamos escalar Titãs oponentes (algo que acontece automaticamente quando saltamos em sua direção) e, desde que seus núcleos não estejam já expostos, nosso personagem retirará dessa máquina uma bateria, causando um dano fixo a ela. A partir de então ela estará sendo carregada pelo jogador que a retirou, caindo no chão se ele for morto.

O que é inusitado é que um aliado pode então escalar um Titã amigo (ou entrar em seu próprio) e colocar a bateria nele, dando então um escudo e recuperando parte da vida. Assim, a única forma de manter os robôs de seu time vivos é arriscando atacar os oponentes. Junto disso, quase não há valor em nos escondermos se nosso Titã está seriamente danificado. O melhor é encerrar tudo com uma auto-destruição e torcer para pegarmos alguns inimigos no processo, ou causar o maior dano possível antes de sermos aniquilados.

Esse foco em “partir para cima” dá uma energia muito boa às partidas de Titanfall 2, que são rápidas e sempre animadas. E, quando algo especialmente legal acontece por conta de um ato ousado, você se sente recompensado por ter utilizado de toda mobilidade que lhe foi provida.

Nem todas as modalidades tiram total proveito disso. Amped Hardpoint, equivalente a Domination em Call of Duty ou King of the Hill em outros jogos, acaba sendo um pouco monótono por pedir que fiquemos fixos em um só ponto durante alguns segundos. Por outro lado, Bounty eleva algo visto no primeiro Titanfall, que é a inclusão de NPCs no campo de batalha, de maneira competente e muito boa.

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Nele, de tempos em tempos aparecem ondas de inimigos ou de Titãs no mapa, controlados pelo computador. Quando derrotamos cada um desses, ganhamos uma quantia em dinheiro (sendo que, no caso do robô, o jogador que der o último tiro recebe toda a quantia). Ao término da onda, bancos são abertos, nos quais devemos depositar o que ganhamos, o que pode levar o time à vitória. No entanto, se formos derrotamos por outra pessoa, perdemos metade da quantia que estamos carregando. Assim, mesmo que tenha sido você a eliminar o Titã e ganhar a recompensa, imediatamente sua pessoa transforma-se em um alvo, além de ser garantia que haverá tocaias nos bancos esperando que aqueles que estão cheios de dinheiro cheguem lá para depositá-lo. É tranquilamente o modo mais divertido do pacote.

O multiplayer só tem um enorme porém. Ao utilizar os servidores brasileiros (localizados em São Paulo) é praticamente impossível achar partidas que não sejam Bounty. Eu tive sorte algumas vezes com Amped Hardpoint e Last Titan Standing, mas só. Simplesmente não há jogadores o suficiente para povoarem todas as playlists, em minha experiência tanto no PlayStation 4 quanto no Xbox One (que foram as versões que testei).

É possível trocar o servidor para outras regiões com mais jogadores, sendo que, estando em São Paulo, o de Nova Iorque provocou um ping na média de 150. Depois de fazer isso consegui encontrar sem problemas partidas em todas as modalidades e, de maneira geral, ainda pude jogar sem problemas. Se comparado lado a lado com um servidor local, é possível notar que a experiência não é a mesma, mas consegui ser competitivo mesmo com esse ping um pouco fora da margem do ideal. No entanto, é válido ressaltar que tenho uma internet de boa qualidade que pode ter ajudado a deixar tudo mais suave, então resultados encontrados podem variar.

A pouca quantidade de pessoas online é uma pena, porque Titanfall 2 é extremamente fresco e divertido. O primeiro título mostrava promessa, mas não foi para muito além disso. Com essa continuação, a Respawn não só aprimorou ideias do multiplayer como também criou uma campanha que em muitos aspectos foge da norma do que esperamos de shooters dessa estirpe, provavelmente sendo superada nos últimos tempos apenas por Doom.

Titanfall 2
Desenvolvido pela Respawn Entertainment
Distribuído pela Electronic Arts
Disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One
Versões testadas: PlayStation 4 e Xbox One
A análise foi feita com uma cópia do jogo providenciada via assessoria de imprensa

Análise - Titanfall 2
Titanfall 2 preenche as lacunas deixadas pelo seu predecessor, aprimorando até mesmo aspectos que já eram bons anteriormente. Além de um multiplayer ágil e divertido, sua campanha é uma focada em momentos que pegam o jogador de surpresa, permitindo que ele interaja com o cenário sem muitas limitações.
5
  • Gabriel Medeiros

    As vendas foram más apenas no Brasil?

    • Heitor De Paola

      Eu acho que não liberaram números totalmente, mas foi morno em todo o mundo mesmo.