Nota: Devido inconsistências técnicas com o multiplayer, o modo não estava disponível durante boa parte da nossa experiência com o Watch Dogs 2. Daremos opiniões sobre ele posteriormente, em comentários no podcast MotherChip.

Desde que Grand Theft Auto estabeleceu, em 1997, o conceito de mundo aberto ambientado em metrópoles modernas, o gênero sempre se viu atrelado, de uma forma ou outra, a temas como criminalidade e mecânicas de tiro, talvez como forma de justificar uma das ações mais características desses jogos: roubar carros. Watch Dogs 2 não se limita a replicar esses elementos, como o primeiro jogo da série acabou fazendo, e oferece inúmeras novas formas de interação com seu mundo. Mais importante ainda, ele se livra dos padrões estruturais que assolam grande parte dos jogos do gênero.

Watch Dogs 2 se passa na São Francisco atual (e por extensão, o Vale do Silício e Oakland) e dialoga com a realidade na base da verossimilhança, sem medo de abordar temas atuais como racismo, monitoramento, gentrificação, dentre outros. Dedsec é um grupo hacker ativista, aos moldes do Anonymous, cujo propósito é expor as diferentes formas de controle e manipulação que empresas e o governo possuem sobre os cidadãos de um mundo conectado. Aqui controlamos Marcus Holloway, um jovem negro de origem pobre, que busca livrar o mundo do ctOS, um sistema operacional que integra toda a cidade, sendo ele próprio uma vítima deste sistema.

Aplicativos e organizações do mundo real são representados em Watch Dogs 2 com nomes diferentes. Google e Facebook, por exemplo, têm seus nomes substituídos por Nudle e Invite, e possuem um grande peso na trama conspiratória do jogo, que imagina como a venda de dados sobre nossas hábitos digitais cerceiam nossa liberdade e impactam nossas vidas. E embora o tema pareça um pouco assustador, dado o quão já estamos inseridos neste mundo, a maneira como Watch Dogs 2 o aborda é divertida, quase como se a visão pessimista do mundo exposta em séries como Black Mirror e Mr. Robot se encontrasse como a nossa ideia despretensiosa de hackers dos anos 1990.

watch-dogs-2-1

O Dedsec é um carismático grupo de hackers que luta pela liberdade

Marcus e seus amigos são hacktivistas determinados em expor as ilegalidades do mundo corporativo e governamental, para isso cometendo atos ilícitos em prol da verdade. A maioria das missões envolve infiltrar sistemas e encontrar evidências que incriminem tais organizações, que acabam virando vídeos produzidos pela hacker/designer Sitara, líder dos Dedsec, e viralizados pelo mundo. Conforme você progride, a equipe ganha seguidores, que por sua vez se aliam à sua causa, compartilhando o processamento de dados de seus smartphones, aumentando assim as chances do Dedsec de derrubar a Blume, responsável pelo ctOS.

A trama funciona mais por causa do grupo de amigos que é o Dedsec do que pelo próprio Marcus, que não é exatamente um personagem que passa por grandes transformações. Você sabe um pouco de seu passado e das suas motivações, mas sua história pessoal nunca é realmente desenvolvida, ao contrário do que acontece com outros membros, como o Wrench, que esconde o rosto atrás de uma máscara à la Daft Punk, e o tímido Horatio. Essa lacuna de Marcus é compensada pelas suas atitudes, seu bom humor e seu comprometimento por sua causa e seus amigos, o que o torna instantaneamente adorável.

As missões principais geralmente envolvem revelar algum podre das grandes companhias de tecnologia do Vale do Silício, como coagir executivos da Invite, denunciando como a companhia manipulou a opinião pública usando sua rede social para promover um deputado às eleições presidenciais. As missões paralelas, mais curtinhas, acabam nos contando histórias menores mas não menos interessantes, como uma em que devemos flagrar um homem vendendo ilegalmente acesso a câmeras instaladas em utensílios domésticos e brinquedos a pedófilos. Elas nos servem de janela para a privacidade de diferentes indivíduos, nas quais testemunhamos suas intimidades e intervimos de forma a beneficiá-los, protegê-los ou puni-los, como se fôssemos fantasmas justiceiros digitais. São pequenas narrativas, muitas delas provocativas, que contribuem para dar a Watch Dogs 2 um aspecto mais humano.

watch-dogs-2-lateral-1jpg

Há tantas formas de interagir com o mundo que você raramente usará armas de fogo

Essas tarefas geralmente envolvem nos locomovermos até locais onde podemos invadir os sistemas que nos garantem acessos a dados e imagens do circuito de segurança, mas muitas vezes eles são protegidos por guardas e firewalls. Nessas horas, temos que fazer uso das muitas habilidades sorrateiras de Marcus para despistar quem estiver por perto: como nos jogos da série Deus Ex, somos livres para agir como bem entendermos, buscando por maneiras para passarmos despercebidos ou neutralizarmos os inimigos, seja com gadgets, armas de fogo ou utilizando o próprio cenário a nosso favor.

Marcus carrega consigo um drone e um carrinho de controle remoto, os quais não apenas são capazes de atingir áreas antes inacessíveis como também podem invadir certos sistemas e atacar os oponentes, deixando bombas de eletrochoque ou mesmo explosivas pelo caminho. Também podemos ativar painéis elétricos pelo cenário, acionar veículos remotamente, abrir e fechar portas à distância, mover guindastes e empilhadeiras ou disparar notificações nos telefones dos guardas, para distraí-los. A gama de opções é tão vasta que desincentiva o uso de armas de fogo, o que me faz questionar a necessidade da Ubisoft de mantê-las, uma vez que elas não condizem com o caráter de Marcus e nem com a ideologia do Dedsec. De qualquer forma (e felizmente) o jogador nunca é forçado a utilizá-las.

Se por um lado Watch Dogs 2 acerta na variedade, quase todas as missões envolvem levar Marcus (ou o drone terrestre, também capaz de realizar alguns hacks físicos) até um painel que desbloqueia o acesso aos ambientes nos quais devemos realizar nosso objetivo. Muitas vezes, isso também envolve realizar quebra-cabeças com certos ares de Pipe Mania, no qual temos que observar um circuito elétrico no ambiente e manipular suas peças de forma a distribuir a corrente uniformemente. São puzzles bem envolventes e desafiadores, que se espalham por salas inteiras (incluindo chão, paredes e teto), torres ou múltiplos ambientes, adicionando um fator espacial à fórmula clássica do minigame.

Em suas aproximadamente 20 horas de campanha, depois de passar pelo mesmo padrão dezenas de vezes nas missões principais (travas de segurança-puzzle-objetivo), ainda que de formas diferentes, Watch Dogs 2 acaba aos poucos deixando de surpreender como faz em suas primeiras 10 horas, se tornando mais maçante do que engajante próximo ao seu final — principalmente quando você pressiona o botão que ativa a visão de “raio-x” e vê a profusão de câmeras, portas, guardas e mecanismos espalhados por uma área imensa, os quais você terá que estudar minuciosamente. Os checkpoints impiedosos, que, por alguma razão, às vezes ignoram seu progresso em missões longas, adicionam também uma certa dose de frustração à experiência.

watch-dogs-2-7

Além de linda, a São Francisco de Watch Dogs é vibrante e cheia de vida

Felizmente, há uma série de tarefas paralelas que desviam desse padrão e injetam uma enorme variedade ao jogo. O simples fato de Watch Dogs 2 fugir completamente da estrutura de torres emprestada de Assassin’s Creed, que envolve o jogador atingir um determinado ponto para liberar as atividades presentes nos arredores, já é um enorme progresso — dele, ele herdou o sistema de controle e escalada, que aqui funciona muito bem. Por mais que o mapa seja apinhado de mini-objetivos e objetos colecionáveis, eles são apresentados de forma orgânica e muitas vezes liberam pequenos e divertidos fragmentos de narrativa.

Algumas dessas atividades estão relacionadas aos apps do celular de Marcus: há um equivalente ao Uber, que nos permite fazer um bico como motorista; um similar ao Instagram, que te incentiva a tirar selfies em locais turísticos ou com figuras conhecidas da cidade; outro para identificar as músicas de sua excelente trilha sonora e adicioná-las em seu media player, como um SoundHound ou Shazam e por aí vai.

Todas essas pequenas tarefas recompensam o jogador com seguidores, o que nada mais é do que uma barra de progresso do personagem. Quando uma certa quantidade de seguidores é atingida, pontos são ganhos, que podem ser trocados por novas habilidades ou melhorias. Mas mais do que apenas dar ao jogador algo de valor por esse esforço, essas tarefas preenchem a São Francisco de Watch Dogs 2 de vida e oportunidades divertidas. Realizá-las é uma forma de reparar na cidade e conhecer suas histórias. Em certa ocasião, transportei um rapaz ao hospital, onde seu marido já se encontrava, para que eles pudessem testemunhar juntos o nascimento de seu filho. Em outro momento, na periferia de Oakland, onde se concentram imigrantes latinos, uma batida policial desencadeou tiroteios, levando um homem armado a se esconder dentro da loja de roupas onde eu estava fazendo compras. Enquanto eu me preocupava com a minha aparência, um indivíduo lutava pela sua vida, até ser baleado e tombar no carpete. Depois, fui entender que nesta parte mais pobre da cidade, a polícia costuma ser mais agressiva — oi realidade.

Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2Watch Dogs 2

Watch Dogs 2 traz uma cidade tão cheia de vida e possibilidades que por mais que viagens rápidas possam ser feitas sem custo algum (com exceção dos poucos segundos gastos na tela de carregamento) e carros estejam disponíveis por todos os lados, há momentos em que você simplesmente quer andar a pé. Como na vida real, ao caminhar pela São Francisco de Watch Dogs 2 notamos como seus desenvolvedores foram dedicados em replicar não apenas sua arquitetura, mas também sua cultura e problemas sociais, como a onda de gentrificação que tem encarecido o estilo de vida local e expulsado antigos moradores.

De certa forma, Marcus atua como um Robin Hood da era digital, e Watch Dogs 2 se preocupa em nos fazer nos preocuparmos com as pessoas comuns, que é por quem estamos lutando. Ele acerta ao nos oferecer formas de interação que vão muito além de apontar uma arma contra um transeunte ou enchê-lo de pancadas, limitações típicas de jogos do gênero. Marcus possui uma gama de expressões sociais que geram situações divertidas e inusitadas, atraem ou repelem pessoas e criam momentos engraçados, como Fable costumava fazer. Ele se preocupa em representar os habitantes e suas atividades com diversidade e humanidade, diferentemente de Grand Theft Auto, que costuma limitar suas falas a insultos. A própria pluralidade de personagens da trama principal, que conta com dois homens negros, uma mulher gorda lésbica e uma mulher transgênero, além de dois rapazes com suas próprias fragilidades sociais e Sitara, a carismática e talentosa líder dos Dedsec, reforça o quão humano e diverso Watch Dogs 2 é.

Watch Dogs 2
Desenvolvido e distribuído pela Ubisoft
Disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One
Versão testada: PlayStation 4
A análise foi feita com uma cópia do jogo providenciada pela assessoria de imprensa

Análise - Watch Dogs 2
Watch Dogs 2 confronta velhos padrões dos jogos de ação ao suplantar manjadas mecânicas de tiro com uma enorme variedade de formas criativas de interagir com seu mundo urbano. Ousa também abraçar o mundo real em vez de se afastar dele, abordando temas relevantes à sociedade moderna, da violação da privacidade ao racismo, conseguindo ser engraçado e sensível no processo. De forma legítima, ele injeta humanidade não apenas no elenco principal de personagens, já com uma notável diversidade, mas em seu mundo como um todo, fazendo com que nos importemos com as vidas ali representadas.
4
  • Hélio Ferrer

    um AAA de ação agradando o Henrique não é todo dia. Bom saber que o jogo está legal, não tinha muitas esperanças, apesar de ter gostado muito do primeiro.

  • Que foda, fico feliz deles terem acertado tão bem nessa continuação. A diversidade parece ter ganhado uma atenção especial, e isso me deixa mto animado pra jogar.

  • El Luchador

    Não tenho a menor vontade de jogar.
    : /
    Mas que bom que é melhor que o primeiro.