The Last Guardian existe. O famigerado jogo da Team Ico (divisão hoje em dia conhecida como genDESIGN), anunciado em 2009 (e em desenvolvimento desde 2007) está finalmente em nossas mãos. Por um lado, é maravilhoso que o estúdio que já nos forneceu joias como Ico e Shadow of the Colossos, títulos extremamente influentes na indústria, esteja agora com um novo trabalho que leve em frente a estética que, em certa medida, nunca foi tão bem explorada por outros quanto por eles. Por outro, o tempo necessário para que The Last Guardian ficasse pronto está presente em claros sinais no jogo, que tem problemas técnicos e conceitos de design que são interessantes no papel, mas chatos na prática.

A começar por sua estrutura, The Last Guardian não será estranho a ninguém que tenha jogado Ico. Na pele de um garotinho que acorda em um estranho mundo que ele desconhece, é preciso que atravessemos puzzles de cenário que frequentemente envolvem escalar estruturas, puxar alavancas, interagir com itens etc. A diferença é que em vez de sermos acompanhados por outra figura humana (como o éramos por Yorda) aqui caminhamos ao lado de Trico, uma besta gigante com movimentos felinos, asas, pés de galinha e chifres.

A proporção do animal em relação ao garoto é o que dá o tom de muitos dos enigmas. Se um local é muito alto para o alcançarmos, é provável que a solução seja chamar Trico até a posição que desejamos, para então o escalarmos e esperarmos que ele levante sua cabeça, servindo como um andaime vivo.

Ao mesmo tempo, o tamanho do bicho às vezes serve como impeditivo para que ele continue ao nosso lado, dando então início a puzzles que pedem que de alguma forma abramos caminho para ele, seja levantando um portão gigante ou apenas identificando passagens que estão fora da vista de Trico.

O ser é o grande charme de The Last Guardian. Suas animações detalhadas ajudam a vender a ideia de que ele é uma entidade viva à parte de nós, mas são suas atitudes que realmente nos convencem. Trico não é um robozinho que responde imediatamente aos nossos comandos, muitas vezes perdendo-se em devaneios próprios ou iniciando atividades que animais (ainda mais os não domesticados) costumam fazer, como correr em campos abertos, se coçar, rugir etc.

The Last Guardian

Boa parte de The Last Guardian se passa dentro de construções de tons marrons, mas trechos iluminados pelo sol se destacam por sua beleza

Essa é uma ideia que foi explorada anteriormente pela Team Ico, especificamente com o cavalo de Shadow of the Colossus. Agro ao mesmo tempo nos obedecia e tinha vontade própria, volta e meia nos puxando subitamente para um lado, pegando-nos de surpresa. Trico age de maneira similar, mas há uma diferença crucial entre as duas situações.

Se tudo que desejo é cavalgar em uma linha reta e Agro faz uma curva para a direita, eu sei exatamente em que momento – e como – o cavalo agiu por conta própria. No entanto, se Trico se recusar a saltar para cima de uma plataforma, não há como se ter certeza se ele apenas se recusou a obedecer imediatamente aquilo que lhe foi pedido ou se a ideia de ir para cima dela está completamente errada e não é caminho para a solução do enigma.

Foram incontáveis as vezes que passei minutos e minutos andando a esmo, procurando a resposta para meu impasse, para então descobrir que o primeiro plano de todos que tive era o correto, só não tinha funcionado porque Trico, sei lá por quais motivos, não executava as ações necessárias para irmos em frente. Isso é extremamente frustrante pois coloca o jogador em um eterno impasse, pois sempre há uma incerteza se sabemos o que devemos fazer e Trico não ativou suas animações, ou se estamos seguindo trilhas que não levam a nada.

O curioso é que, ao mesmo tempo, se a besta não agisse dessa forma, o elo que acabamos por formar com ela pela duração da aventura nunca ocorreria. É desenvolver um laço com nosso protagonista, apesar de toda essa independência e capacidade de ir embora se ele assim quisesse, que torna crível a amizade entre o pequeno garoto e monstro gigante.

Isso coloca The Last Guardian em uma posição muito estranha, pois seus conceitos resultam em um belo impacto emocional. Afinal, se Trico pode decidir não nos obedecer, significa que quando nos ajuda ou se compadece está fazendo isso através de uma ilusão muito bem construída de livre-arbítrio. Isso é muito forte. Por outro, nada disso impede que o jogo frustre e tenha trechos e mais trechos muito tediosos, por não oferecer ao jogador o feedback necessário para que ele entenda se está ou não agindo corretamente. Tudo acaba envolvendo muita tentativa e erro.

The Last Guardian

Muito da arquitetura do lugar em que estamos é claramente voltado a seres do tamanho de Trico e não da proporção de nosso personagem

Eu não consigo enxergar como uma coisa pode existir sem a outra, resultando em um problema sem solução que irá incomodar diferentes pessoas de diferentes maneiras. Consigo prever relatos de indivíduos completamente apaixonados por Trico, para os quais esses obstáculos não significarão nada. Ao mesmo tempo, outros devem ficar travados ante o tédio que a desobediência da besta pode causar. Pessoalmente, me encontro no meio, por vezes encantado com o que jogo foi capaz de realizar e em outros momentos bocejando alto com a cadência lenta e demora para Trico fazer qualquer coisa.

O que piora essa situação de impasse de The Last Guardian é que ele tem uma gama de outros problemas mais técnicos que acompanham todos esses momentos. A começar pelo fato de que, mesmo tendo seu desenvolvimento começado no PlayStation 3, o título não consegue rodar bem no PlayStation 4. Quedas de taxa de quadro são constantes e presentes por toda a duração da campanha, especialmente em áreas externas. Em momentos específicos, isso é tão severo que a tela chega a congelar por alguns momentos, com outras ocasiões possuindo taxas de dígito único, completamente travadas.

A pior consequência disso é uma sensação de desnorteio quando a câmera é girada em busca dos caminhos que devemos seguir. A baixa taxa junto a uma espécie de motion blur me provocou leves tonturas em certos momentos. Associado a isso está a câmera, que, pura e simplesmente, é muito ruim. Ela não sabe lidar com espaços fechados ou com elementos que aparecem próximos a ela, comumente mostrando um maçaroca de pixels que nos impede de fazer qualquer coisa. Há situações em que, quando um objeto se aproxima de nossa visão, a câmera de repente dá um fade out para atravessá-lo, se reposicionando. Esses cortes nunca deixaram de me pegar de surpresa. Sempre achava que tinha acionado sem querer uma cutscene, mas nunca era o caso e isso sempre me tirava a atenção. Além disso, ela é péssima em enquadrar momentos importantes ou simplesmente dotados de beleza, volta e meia cortando elementos que gostaríamos de observar por motivo nenhum.

Finalmente, mesmo tendo terminado e posteriormente rejogado um pouco da campanha novamente para verificar algumas coisas, não consegui me sentir cem por cento confortável com os controles. Eles são bem similares aos de Ico, mas o que era aceitável em 2001 não o é necessariamente em 2016. Há uma prioridade a animações que é compreensível e até bem-vinda, conferindo também vida ao garoto. Entretanto, há momentos em que a precisão que necessitamos não está lá, ou em que nosso personagem fica preso em geometrias (especialmente no Trico), sem que fique evidente para qual direção precisamos levar o direcional para nos movermos livremente. Em mais de uma ocasião me atirei em buracos achando que iria executar outra ação que não fosse me arremessar para minha própria morte, ou ficava preso no monstro, virando de repente de ponta de cabeça, sem entender o que devia fazer para alcançar seu topo.

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The Last Guardian é o jogo mais explícito em termos de narrativa que a genDESIGN/Team Ico fez até hoje, porém isso não significa que respostas serão mastigadas e jogadas em nossa direção. O que ocorre é que ele dá mais contexto para o resto do mundo do que qualquer um de seus predecessores, mas ainda há uma boa dose de mistérios para se indagar e intuições que podem ser feitas a partir de peças do cenário. Dito isso, diferente do Ico ou Shaow of the Colossus, esse foi o trabalho do estúdio que menos me fez ponderar sobre o que há para além dos locais que vemos durante nossa aventura, amarrando e se fechando de maneira um pouco mais definitiva do que eu esperava.

The Last Guardian tem problemas e nem todos deles são provenientes do tempo que ocorreu desde que suas ideias surgiram até que ele fosse terminado. Eu definitivamente não gosto de tudo que há nele e em diversas ocasiões me vi frustrado ou completamente entediado. Ainda assim, mesmo que alguns de seus conceitos entrem em conflito com que consideramos uma boa experiência, ele realiza coisas que não vemos, exatamente dessa forma, em outros jogos. Eu não acredito que ele seja tão único ou que vá ser tão influente quanto os trabalhos anteriores do estúdio, mas ainda há aqui, por trás de todos tropeços e percalços, algo por vezes mágico e especial. E, seja como for, depois de tanto tempo, eu fico feliz que um novo trabalho de Fumito Ueda enfim exista, mesmo que acompanhado de defeitos numerosos e alguns severos.

The Last Guardian
Desenvolvido por Team Ico, SIE Japan Studio e genDESIGN
Distribuído pela Sony Interactive Entertainment
Disponível para PlayStation 4
A análise foi feita com uma cópia do jogo providenciada pela assessoria de imprensa

Análise - The Last Guardian
The Last Guardian tem conflitos em seus conceitos, entre oferecer vida a Trico e dar um bom feedback ao jogador. O resultado é um jogo inquieto, porém cujas concessões permitem a criação de um ser que realmente parece ter vida própria e, por vezes, emociona. É uma pena que, independente disso, o trabalho é acompanhado de uma boa dose de problemas técnicos.
3
  • Apesar dos pontos negativos acho quase impossível não comprar esse jogo <3

  • rodrigo

    esperar o patch de correção

  • El Luchador

    Me parece chato.

    É CHATO?

    Toda foto e video que vejo parece da mesma cena, fazendo as mesmas coisas.

    • Carlos Scatolini

      Eu ainda não me conformei com o fato de que deixaram de fazer uma continuação para o Shadow of the Colossus para fazer um joguinho desse. Cara, que desperdício.

      É exatamente isso: toda cena parece a mesma.

      Boring.

  • Kalel Mota

    Assistindo o Shuffle e lendo a análise me pergunto se o fato de ter jogado com mais pressa para o propósito do review pode ter prejudicado a experiência que o jogo oferece, principalmente nas partes que se referem ao Trico obedecer os comandos. Pra mim, pelo menos, isso parece crucial para a proposta.

    Ps.: Não sei há quanto tempo está com o jogo, tirei essa conclusão baseado no shuffle.

    • Heitor De Paola

      É um jogo de 12 horas que eu tive mais de três dias para jogar, foi mais do que o suficiente sem que tivesse que correr completamente. Eu até cheguei a rejogar cerca de um terço dele para verificar novamente algumas coisas.

  • Convidado

    Que análise boa! Parabéns.
    Acredito que vou esperar o valor baixar para pegar, segurou meu hype heheh…
    Mas apesar dos defeitos, a experiência parece ser muito marcante e única no PS4.

  • Diego Moreira

    Esse jogo tem os mesmo problemas que ICO e SOThC. Camera ruim, taxa de quadros oscilante, mesma paleta de cores para quase o jogo todo, resposta dos comandos do controle meio “atrasadas”. Achei o jogo legal, mas não faz jus ao Hype. Prefiro Shadow of The Colossus.

  • Darth Paul Poor Traaais

    Então é isso, acabou a espera e o que temos é um jogo que faz jus ao legado do Team ICO e “encerra” a trilogia bem. Só que demorou anos demais pra isso acontecer. Um jogo que chegou tão atrasado e ainda assim consegue ser relevante, de sua própria maneira. Bom review. The Last Guardian pra mim, só quando estiver bem mais barato ou junto com os resmaster de ICO & Shadow of the Colossus…