Fragments of Him me fez dizer “eu te amo” para pessoas importantes a mim

O que faz com que algumas lembranças permaneçam por mais tempo em nossas memórias do que outras? Que certos eventos sejam recordados com mais facilidade? Segundo a neurociência, os sentimentos fazem parte dessa equação: picos de felicidade ao lado de pessoas amadas são tão vívidos em nossas memórias quanto momentos de profunda tristeza, como uma separação ou a perda de alguém querido. Fragments os Him explora esses momentos.

Trata-se de um jogo sobre amor. Do amor familiar e do cuidado e preocupação de uma mãe com seu filho; do amor romântico, do primeiro e constrangido toque, dos beijos cheios de paixão à estabilidade de um relacionamento baseado em confiança, segurança e companheirismo. E também das decepções que ambos os tipos de amor podem acarretar.

Mais do que me fazer chorar copiosamente durante suas aproximadamente duas horas de duração, Fragments of Him me fez refletir sobre minha própria vida e as pessoas ao meu redor, como poucos jogos já fizeram. O título do estúdio independente holandês Sassy Bot é uma experiência narrativa poderosa, delicada e sutil sobre a morte de um indivíduo e as pessoas e memórias deixadas por ele. A perda aqui, porém, serve como um gatilho para que o roteiro explore a profundidade e implicações do amor e das relações humanas.

Desde o inicio você sabe que Will morrerá. Em uma das sequências iniciais do jogo, ele desperta, enquanto seu namorado, Harry, com quem ele divide sua vida e seu lar, continua a dormir. Arrumando-se para o trabalho, reflete sobre a felicidade que seu relacionamento proporciona a ele e Harry, e pondera se não seria a hora de pedi-lo em casamento. Poucos minutos depois, Will sofre um acidente fatal de carro.

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A partir daí, Fragments of Him explora as memórias de três personagens cujas vidas estavam entrelaçadas com a dele: sua avó, que o criou, sua ex-namorada, com quem ele compartilhou um período de amadurecimento e parte da sua vida universitária, e de Harry, com quem ele vinha construindo sua vida atual. As sequências simulam a maneira como visualizamos lembranças em nossa mente: tudo possui uma coloração acinzentada e pessoas e objetos aparecem e desaparecem conforme a importância que eles representam em cada momento.

Você é como um espírito: sem uma presença física e controle direto dos personagens, vaga pelos cenários em primeira pessoa buscando por pontos de interesse que, quando ativados, guiam a história para frente.

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– That Dragon, Cancer é sobre perder quem você ama incondicionalmente

Vemos os eventos de forma fragmentada, sempre da perspectiva do personagem central de cada ato, o qual também atua como narrador, como se estivessem recordando suas histórias com Will e refletindo sobre o passado, após sua morte. São eles que conduzem a narrativa e fortalecem nossa relação com o protagonista, mostrando a importância que ele teve em suas vidas.

Impelida a criar o neto sozinha, a avó de Will, uma mulher viúva, fez o possível para dar a ele a educação e os valores que lhe pareciam corretos. Certo dia do passado, quando Will era apenas um garotinho, ela percebe que ele parecia mais calado que o normal, brincando sozinho na sala de casa, após chegar da escola. Ao questioná-lo, Will diz estar chateado por ter brigado com um menino, que ofendeu uma garota por causa do tom escuro de sua pele. Sua avó o anima, dizendo que sua atitude foi um ato de coragem. Em seguida, o carrega no colo para o quarto, onde lê para ele uma história sobre egoísmo até o garoto cair no sono. Mal ela sabia que, alguns anos no futuro, ela teria que confrontar seus próprios preconceitos com relação à sexualidade do neto.

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Cada personagem lida com algum tipo de conflito relacionado a Will: sua avó, com a aceitação de sua maturidade e sexualidade; sua ex, com a inevitabilidade do término de seu relacionamento com ele, perante um novo amor vivido por Will; seu companheiro atual, com a devastação emocional de seu falecimento. Acompanhar os passos de cada personagem em direção à superação e a aceitação dos fatos, depois de termos presenciado tantos momentos de afeto e compreensão entre eles, é de encher o coração de esperança.

Da mesma forma, assistir à morte de Will e, posteriormente, ter contato com o que há de mais íntimo e particular em seus pensamentos, e também nos das pessoas que foram marcadas por ele, tem um efeito devastador. É como perceber o que há de mais admirável, belo e humano em alguém quando já é tarde demais — o que me fez, após enxugar as lágrimas, querer dizer para algumas pessoas próximas o quanto eu as amava.

Fragments of Him é certamente um dos jogos mais poderosos que você pode jogar agora — um capaz de curar feridas, encorajar o perdão e fortalecer uniões. É uma experiência de profunda identificação, independentemente de gênero, identidade sexual e idade, e uma da qual possivelmente não será esquecida por quem a viver.

Fragments of Him está disponível no Steam.

  • FHC

    Só de ler isso já quase escorreu a lágrima aqui

  • Guilherme Gondin

    Rola um shuffle?