Conforme testemunhamos o fenômeno que Pokémon Go tem causado ao redor do mundo, especialmente nos países em que o app já foi lançado oficialmente (o que não inclui o Brasil), nos deparamos com alguns causos curiosos, dentre eles a tentativa do Museu do Holocausto em impedir que pessoas capturem pokémons em seu recinto. Mas como é que o lugar, um memorial às vítimas do nazismo, sequer se tornou um ambiente de jogo, afinal?

A resposta está no Ingress, jogo anterior da Niantic Labs, no qual Pokémon Go, feito pela mesma companhia, é amplamente baseado. Em Ingress os jogadores do mundo inteiro são divididos em duas equipes, e coletivamente precisam encontrar portais espalhados pelo globo, criando ligações entre eles.

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Pokémon Go é amplamente baseado em Ingress

Para determinar os locais que serviriam como portais no jogo, a empresa contou com a colaboração coletiva dos jogadores: durante dois anos e meio, o público submeteu 15 milhões de potenciais portais ao redor do mundo, seguindo alguns critérios estabelecidos. Para serem aprovados, eles precisavam ser locais seguros e acessíveis a pé, ainda que estivessem em áreas remotas. Além disso, a companhia incentivava que apenas monumentos, memoriais, prédios históricos, obras de arte localizadas ao ar livre e determinadas estruturas fossem enviadas. Dessas 15 milhões de sugestões, 5 milhões foram aprovadas pela Niantic Labs, em todas as regiões do mundo, incluindo Antártida e Pólo Norte. Novas sugestões de portais não são mais aceitas.

Pokémon Go usa o mesmo banco de dados de Ingress, transformando os locais mais populares em ginásios, e os menos acessados em pokéstops. Assim, estas locações não foram escolhas conscientes da Niantic Labs e muito menos da Nintendo, mas sim resultado de um mapeamento coletivo. E por isso mesmo, possui, digamos, uma margem de erro.

Em decorrência disso, situações curiosas, como a do Museu do Holocausto, têm surgido. Outro causo inusitado é o do designer Boon Sheridan, que mora em uma igreja datada do século XIX em Holyoke, Massachusetts. No último final de semana, logo pela manhã, ele estranhou o movimento de pessoas ao redor de sua casa, todas olhando para ela através do celular. O susto só não foi maior por que Sheridan, adepto de tecnologia e jogos, percebeu, ao baixar Pokémon Go, que sua moradia havia sido transformada — sem sua autorização — em uma peça dentro do jogo. Embora ele tivesse entendido do que se tratava, ainda assim estranhos estavam potencialmente invadindo sua propriedade.

Em entrevista ao GamesRadar, ele pondera: “Vamos dizer que mais tarde, às duas da madrugada, alguém aparece e decide treinar. Aí outra pessoa aparece e o assalta, o agride. Quando ele gritar por ajuda, quem precisa atender àquele chamado? Eu. Eu sou a pessoa que toma a responsabilidade pelo que pode acontecer no espaço físico. E eu não tenho certeza que essa é uma responsabilidade que eu estaria disposto a tomar.”

Embora o exemplo de Sheridan possa soar radical, quando pessoas invadem espaços privados, não há como descartar a possibilidade de serem confundidas com ladrões. E mesmo que situações como esta acabem bem, sempre há chances que gerem um certo tumulto.

Embora seja possível solicitar no site da Nianctic Labs (na aba “submit a request”) a remoção de um ginásio ou pokéstop de um local, até o momento a companhia parece não ter determinado como essas solicitações podem ser atendidas de prontidão. Vale notar também que o formulário é bastante escondido dentro de seu site.

Veja também:
Este vídeo resume bem como será nossa vida após Pokémon Go

Da mesma forma, usuários que criaram portais em suas próprias casas em Ingress (que tenham sido aprovados) podem se beneficiar de ter seu próprio ginásio ou pokéstop.

Embora Pokémon Go não esteja disponível oficialmente no Brasil, igrejas e grafites de rua parecem ser os locais mais comuns a serem reconhecidos pelo jogo, como registrou o leitor do Overloadr Maycon Paixão, morador de Campo Grande, Rio de Janeiro.

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Talvez tenha sido ingenuidade da Niantic Labs utilizar o mesmo banco de dados de Ingress, considerando que, mesmo antes do lançamento de Pokémon Go, já era esperado que sua base de usuários fosse infinitamente maior que a de Ingress. Ou talvez isso faça parte de seu brilhantismo?

Pokémon Go é certamente um fenômeno a ser analisado de perto, com grande potencial de impacto na vida e comportamento das pessoas e sua relação com o espaço. Mas, da mesma forma que ele apresenta dinâmicas novas e potencialmente revolucionárias envolvendo a artificialidade do jogo e a realidade do mundo externo, ele também levanta questões sobre a extensão dos direitos de propriedade física no mundo virtual.

  • Guilherme Pires de Moraes

    Eu sou um jogador de Ingress de bastante tempo já, ainda era possível submeter portais quando jogava. Moro em uma cidade que não é capital nem nada, e por aqui tivemos muitos portais para cadastrar.

    Apesar das orientações da Niantic e lista de critérios, era consenso entre os jogadores que a avaliação, além de lenta, não seguia critério algum. Muitos portais de boa qualidade eram negados, muitos outros ruins ou em domicílio de jogadores, foi aprovado.
    A Niantic sempre foi ótima em não dar muitos esclarecimentos sobre os casos, espero que com a Nintendo envolvida na questão, isso melhore.

    • Willian Tetsuo Shiratori

      Tem portal até no meio da Ayrton Senna.

      Aquele portal pode ir pro inferno.

  • FHC

    Isso me lembra muito o Watch Dogs, em que alguns NPC’s jogavam aquele minigame de invasão alienígena e ficavam andando sem rumo com a mão pro alto combatendo o nada. Como disse o Rique, essa nova situação vale uns bons estudos.

  • As pessoas paradas na rua não é invasão de propriedade privada como soa o texto ao falar do cara lá. E sinceramente ele não tem que “estar disposto” a nada. Se acontecer perto dele e ele ouvir e puder ajudar é uma obrigação tanto moral quanto provavelmente jurídica. Não importa se o “mundo” resolveu mudar, o mundo não depende da vontade ou disposição dele.
    E envolver a localização da casa dele imagino que não seja problema algum, problema é se alguém realmente invadir os limites do lote da casa dele, ai sim tem todo o direito de reclamar com as autoridades locais etc. O jogo não tem nada a ver com isso…
    Dito isso, acho uma bobagem essa andação com celular na rua, ainda mais no Brasil. Beira a loucura.

  • João Dobbin

    Lembro quando o Rique e/ou Heitor desdenharam do trailer de Pokemon GO falando que iam ser só uns nerds parecendo malucos apontando o celular para o nada. Até concordo com eles que o futuro é isso mesmo, mas o vídeo abaixo me fez sorrir hehe
    https://vimeo.com/174821377?ref=fb-share