The Last Guardian é com certeza um jogo da Team Ico. Digo isso no sentido de que, não soubesse você qual estúdio o está desenvolvendo, bastaria cinco minutos olhando para ele em ação para saber que se trata de um sucessor (ao menos em espírito) de Ico e Shadow of the Colossus.

Eu pude assistir os cerca de 20 minutos que dão início à aventura em uma demonstração ocorrida a Brasil Game Show 2016. Esta foi a mesma demo mostrada a jornalistas na E3 deste ano e foi comandada por um representante da Sony Santa Monica.

The Last Guardian pode ser um jogo novo, mas é extremamente familiar. Qualquer um que já tenha jogado especialmente Ico, mas também Shadow of the Colossus, se sentirá imediatamente em casa. Coisas como as cores lavadas e a movimentação mais solta do personagem são características marcantes do Team Ico e se fazem presentes aqui. Da mesma forma, fica também rapidamente claro o tipo de ação que executaremos durante a jornada que teremos ao lado do garotinho protagonista e de Trico, a besta com ares de quimera.

Não que isso fosse segredo, mas – guardadas quaisquer surpresas que possam existir posteriormente –, The Last Guardian pode ser mais diretamente comparado a Ico, porém trocando Yorda por Trico. No trecho que vimos, pequenos puzzles ambientais precisavam ser resolvidos através da comunhão entre garoto e besta, que nos auxilia a alcançar lugares mais altos ou a quebrar paredes intransponíveis para o pequeno humano.

Quando as coisas começam, Trico não está interessado em fazer amigos. O ser foi acorrentado no fundo de uma caverna, uma na qual fomos deixados, aparentemente, para virarmos comida dele. Além disso, estranhas marcas apareceram no corpo desse garoto, cuja narração (feita pelo menino anos e anos depois, quando já mais velho – então, ei, ele não morre no final!) denota terem surgido misteriosamente.

The Last Guardian

The Last Guardian

Sem muita opção, ele acaba auxiliando o bicho que se encontra preso, primeiramente alimentando-o com barris de comida encontrados por perto e, posteriormente, retirando do corpo dele estacas que o perfuram, até finalmente retirar suas correntes. Terminado isso, Trico passar a ser amigável e a nos seguir quando berramos, sem se importar de ser escalado quando necessário. Com essa verticalidade conquistada, uma passagem previamente inacessível passa a estar em nosso alcance. Trata-se de um ambiente completamente diferente da caverna vista até então, repleto de luz e claramente criado por mãos humanas (ou ao menos por seres racionais). Nesse local há um espelho que emite um facho que altera o comportamento de Trico. Quando o apontamos a algum lugar, a besta dispara raios de seu rabo, destruindo certas estruturas.

Outros artefatos serão encontrados progressivamente durante a aventura, permitindo que controlemos outras das capacidades de Trico, porém nos primeiros 20 minutos esse é o único que foi visto. O trecho seguinte também continha puzzles leves e tranquilos, ao que tudo indica mais voltados para que o jogador se acostume, ensinando como escalamos em correntes. Isso é necessário para que alcancemos mais barris de comida, de forma a convencermos Trico a descer até a água, algo que não agrada o animal.

Tudo isso era pontuado pela narração vinda do garoto já velho, que passava não só dicas sobre o que deve ser feito (quando apontava que Trico estava com fome, por exemplo), como também descrevia aquilo que ele pensava e sentia naqueles momentos. Isso é chamativo pois é uma exposição bem maior que os jogos da Team Ico tiveram até agora. Não que eles fossem desprovidos de textos e falas – Shadow of the Colossus os têm em grau maior do que Ico –, mas eles nunca apareceram explicitando aquilo que está passando pela cabeça dos personagens. Não entendermos o contexto de onde estamos ou o que o herói de Ico deseja, por exemplo, é parte da construção de encanto e mistério daquele mundo, algo diminuído aqui. Ainda assim, é sempre possível que sutilezas estejam guardadas para momentos posteriores, quanto mais a relação entre o protagonista e Trico se aprofundar.

Algo que me deixou um pouco preocupado, no entanto, foram questões técnicas de The Last Guardian. Não me refiro ao fato dele graficamente ser um jogo de PS3 em vez de PS4, pois isso era esperado, mas sim de elementos mais pontuais. É válido deixar claro que essa é uma build usada na E3, ou seja, há ao menos quatro meses separando seu desenvolvimento e o lançamento final do título, tempo enorme para que muita coisa mude. Porém, a demo que vimos do jogo sofria de diversos deslizes, como uma queda frequente em sua taxa de quadros e pequenos bugs relacionados à movimentação do personagem. Ele atravessava constantemente partes do cenário e se deslocava de maneira pouco natural e truncada.

The Last Guardian

The Last Guardian

Não tenho como apontar precisamente a qualidade dos controles e câmera por não ter jogado por conta própria. No entanto, em mais de uma ocasião ficou evidente que a pessoa que nos fazia a demonstração aplicava comandos que não eram entendidos pelo jogo por sabe-se lá que razões. Isso apareceu mais fortemente em duas horas distintas. Uma em que o garoto deveria escalar uma pequena beirada, porém sua mão não se conectava a ela de maneira nenhuma, sem que houvesse o que ser feito. Em uma outra, o prompt para que o menino arrancasse as estacas fincadas em Trico não apareciam, por mais que ele estivesse encostado nelas. Foi preciso se afastar delas e retornar para perto algumas vezes até que o jogo entendesse e os comandos corretos surgissem.

Finalmente, a câmera pareceu tomar vida própria em algumas ocasiões, sem saber como se comportar quando Trico bloqueava o ângulo de visão de áreas mais restritas, me desnorteando momentaneamente.

De novo, é perfeitamente possível que esses tropeços técnicos estejam corrigidos quando tivermos The Last Guardian em nossas mãos. E também seria injusto não lembrar que Shadow of the Colossus, no PlayStation 2, rodava bem mal no console, com uma taxa de quadros bastante baixa, e isso não o impediu de brilhar naquilo que realmente importava. Dito isso, não esperava ver tais problemas em um título que está em desenvolvimento há tanto tempo e que, para os padrões dos videogames atuais, não é particularmente bonito.

Seja como for, eu fiquei interessado em ver mais. Não que já não estivesse antes; quem, depois de todos esses anos, não está ao menos curioso para ter uma noção do que nos aguarda em The Last Guardian? Finalmente não demorará muito para descobrirmos. Ele estará disponível para PlayStation 4 no dia 25 de outubro.

  • jorgemoai

    Mais fácil fazer um vídeo….