O ano de 2016 está para se encerrar e com isso é hora de decidirmos quais os jogos que mais gostamos que tenham saído nesse período.

Além de nossas listas (e a da escolha do público) que serão publicadas ainda nesta semana, chamamos também pessoas que tenham aparecido no Overloadr, seja em textos ou convidados de nossos podcasts, para compartilharem quais os títulos que mais as marcaram neste ano que está para nos deixar.


Simone CamposSimone Campos é uma escritora com cinco livros publicados (além de Penados y Rebeldes, disponível online), sendo o mais recente deles A Vez de Morrer, de 2014. Dentre seus trabalhos está Owned, um livro jogo “choose your own adventure” aos moldes daqueles escritos por Steve Jackson. Ele pode ser lido/jogado gratuitamente no site Novo Jogador. Simone está atualmente trabalhando em um novo romance e em uma HQ.

A escritora participou do Bilheteria #100, em que conversamos sobre seu trabalho literário, sua relação com jogos e sobre facadas.

 

Eis os melhores do ano para Simone Campos:

The Witness (Thekla)

Ainda tenho o CD-ROM original do célebre puzzle game Myst, que comprei e joguei aos 13 anos de idade. Pois bem, assim que The Witness, novo jogo do designer de Braid, Jonathan Blow, foi anunciado, tive a sensação de finalmente poder entrar de novo em um mundo maravilhoso e despovoado, cercado de enigmas lógicos. Ainda não terminei de jogar, mas temos certamente um sucessor espiritual à altura de Myst. The Witness também lembra o livro A invenção de Morel, de Bioy Casares, em que um fugitivo da justiça vai parar numa ilha supostamente deserta e encontra estranhos habitantes. E embora o papo sobre Deus não me cative, seus “easter eggs” sobre filosofia da ciência lembram o tom do seriado Cosmos, de Carl Sagan. Uma ótima viagem, em todos os sentidos.

Leia a análise do Overloadr de The Witness

Dark Souls 3 (FromSoftware)

Joguei Dark Souls 2 inteiro, e aproveitei quando fui chamada para resenhar e joguei um pouco de Dark Souls 3. Sim, é tão bom quanto o segundo. Sim, é tão difícil quanto o segundo. Tão gostoso de sofrer… Parte do segredo é como a narrativa fica bem escondida debaixo de camadas de processos – você fica mais preocupado em encontrar meios de sobreviver (mesmo que, ironicamente, já esteja morto), enquanto, lá no fundo da sua cabeça, Tico e Teco tentam montar os parcos fragmentos de história que você ganha enquanto a próxima cena carrega. Mas isso não explica tudo: Bloodborne, “primo” da franquia Souls saído no ano passado, tem a mesma “narrativa escondida”, mas não me empolgou. Talvez seja o visual vitoriano, o level design não tão desgracido quanto o da cepa principal. E olha que sou fã de H.P. Lovecraft… O difícil é o jogo ser difícil e obscuro do jeito certo, e pra mim, nesse nível, só os Dark Souls conseguem.

Assista ao Shuffle do Overloadr de Dark Souls 3

Dark Souls 3

Dark Souls 3

Virginia (Variable State)

Esse point-and-click foi comentado como “inspirado em Twin Peaks”. É um daqueles jogos que podem dar polêmica logo de saída: será que podemos defini-lo como “jogo” ou devemos optar por “filme interativo”? Como cinéfila e gamer, digo que é excelente cinema que bebe das convenções dos games. Do ponto de vista cinéfilo, é um filme mudo, colorido e interativo, e onde estranhamente se vê tudo em primeira pessoa (mas várias primeiras pessoas diferentes). Do ponto de vista gamer, a modelagem 3D dá nostalgia dos games da virada do milênio e você se sente meio preso no lugar devido à “direção de cena”, que obriga sua visão a ficar inclinada, a ter somente 180° de liberdade, ou faz cortes “bruscos” para você não ter que trilhar todo um corredor de novo. A limitação da agência em face do que você normalmente é capaz de fazer num jogo dialoga belamente com a história, que trata de opções (limitadas e limitantes!) que se faz na vida. Talvez você precise ter nascido antes de 1989 ou ser um hipster incurável para vibrar com a “fisicalidade” de mexer num microfilme e revelar um filme fotográfico no quarto escuro, mas pessoalmente achei excelente.

Leia a análise do Overloadr de Virginia

Dreamfall Chapters (Red Thread Games)

O último capítulo desse adventure norueguês saiu em 2016, então disseram que vale. The Longest Journey, o primeiro jogo da série, foi lançado ainda nos anos 1990. A protagonista April Ryan era rara para a época: órfã, cheia de questões mal resolvidas e nuances; começava a história seminua, mas não sexualizada, e era capaz de fazer comentários irônicos, céticos e curiosos sobre tudo em seu ambiente futurista e fantástico. Sua visão era contagiante: você queria clicar em tudo só para conhecer April melhor. Dreamfall (2006) continuou a história, complicando-a e adicionando Zoe Castillo, protagonista um tanto antipática (acho ótimo: por que toda moça fictícia precisa ser fofa e responsável?), e piadinhas de gamer pra gamer: você tenta empurrar uma caixa e Zoe alega “ainda não ter força no braço para isso”, como Lara Croft no então recente Angel of Darkness. Dreamfall Chapters apresenta vários protagonistas além das duas moças, e muitos NPCs cativantes, como Enu e Likho. As piadas e a trama ficaram mais ousadas: há um sistema de desenvolvimento de personagens através de suas escolhas que realmente parece fazer diferença – um dos meus personagens se revelou gay, e matei um ser muito querido sem querer (trapaceei e voltei atrás). Foi uma conclusão satisfatória, com dezenas de pontas soltas amarradas, 17 anos após o começo da história.

Dreamfall Chapters

Dreamfall Chapters

Pokémon Go (Niantic)

Quem não jogou Pokémon Go esse ano? EU, pois meu celular não roda essa bagaça! Fiquei ressentida e jurei não trocar de celular apenas para jogar isso – até porque não tinha grana. A desenvolvedora, Niantic, criou também o Ingress, jogo mais antigo também baseado em geolocalização que teve muitos seguidores no Brasil. Joguei um pouco de ambos no celular do meu marido e fiquei muito feliz pelo método inovador de arrancá-lo um pouco de casa num dia de sol. Embora já esteja acostumada a fazer meu exercício e minha socialização separados do meu game, reconheço a força cultural de um aplicativo como esse, que através da ficção dá oportunidade para que pessoas se conheçam e façam algo diferente do usual (oui, até sexo).

  • Guarda Belo#AIKE2018

    Fiquei bastante curioso com Dreamfall Chapters.
    Parece ser um ótimo jogo.

    • Tais

      sou suspeita pra falar porque acompanhei a saga toda, mas no geralzão eu recomendaria chapters, hahaha! mas se tu tiver saco pra jogar the longest journey e dreamfall antes, melhor ainda.

      • Vinicius Siviero

        Tem a versão web desse jogo?

  • rodrigo

    total Pokemon GO