My Memory of Us transforma o Holocausto em uma fábula sobre amizade e união

Históricas ou fictícias, guerras servem de palco para videogames desde seus primórdios. Há uma inegável similaridade entre as duas coisas, o que talvez explique o constante flerte dos jogos com os combates armados: há sempre equipes antagonistas, um clima tenso de conflito, um certo grau de imprevisibilidade e um estado de vitória/derrota. Por mais sinistro que soe, não é coincidência que pessoas que jogam muito videogame conheçam mais sobre armas e hierarquia militar do que a média da população.

Mas desde que passamos a ver uma onda de jogos intimistas, focados em narrativa, vimos as guerras servirem para contar histórias sobre humanidade, companheirismo e compaixão. Se no passado jogos sobre guerra limitavam seus verbos a atacar, invadir e dominar, hoje eles também podem ser sobre curar, ajudar e proteger. Não por coincidência, alguns desses jogos estão vindo da Polônia, cuja história é marcada por invasões sangrentas, segregação social e campos de concentração.

Das terras de The Witcher e This War of Mine vem My Memories of Us, um jogo sobre duas crianças que sobrevivem durante tempos de guerra e perseguição. Em desenvolvimento pela Juggler Games, pequeno estúdio localizado em Varsóvia, o jogo nos coloca no controle de um menino e uma menina em um belo mundo 2D preto-e-branco, em desafios de plataforma e quebra-cabeça.

“Tudo começou com o encontro entre um menino e uma menina que vieram de dois mundos diferentes”, descreve a companhia, em seu anúncio oficial à imprensa, realizado recentemente. “Por um breve momento, eles deram boas risadas, sentindo alegria pelo simples fato de poderem estar juntos. Infelizmente, todas as coisas boas chegam ao fim. A guerra estourou — o Rei Mau saqueou a cidade e seus robôs-soldados estavam por toda parte. Cidadãos foram separados e alguns deles marcados e forçados a deixar suas casas e viver em um lugar isolado do resto da cidade por uma enorme muralha. Felizmente, as crianças não estavam sozinhas — elas tinham umas às outras. Suas amizades permitiam que elas pudessem permanecer juntas, ainda que o destino parecesse tentar separá-las. Essa é a história de My Memory of Us, um jogo dedicado àqueles que foram separados, mas conseguiram encontrar forças para encontrar um ao outro novamente.”

Qualquer semelhança com o Holocausto não é mera coincidência. My Memory of Us é uma alegoria à invasão da Alemanha Nazista na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial. Por meio de uma fábula, a equipe da Juggler Games quer abordar não apenas a segregação, a exclusão social e a perseguição sofrida por uma grande parte da população polonesa durante os anos 40 (especialmente os judeus), mas também o poder da amizade e da união em tempos difíceis.

Em uma entrevista por e-mail ao Overloadr, o diretor criativo Jakub Jablonski conta que o jogo é inspirado não apenas em filmes e histórias em quadrinhos que abordam o tema, mas principalmente pelas memórias de famílias e amigos que viveram esse período. “Quando você ouve os veteranos da Revolta de Varsóvia (luta armada durante a Segunda Guerra Mundial que tentou livrar a capital polonesa da invasão nazista), você percebe que muitas vezes eles falam desse período como se fossem alegres. Pode parecer estranho no começo, mas pense nisso: embora tais eventos fossem tristes e assustadores, eles eram, ao mesmo tempo, uma aventura para esses jovens. Nas suas memórias você pode encontrar não apenas a guerra, mas também amor e amizade. Isso me toca. My Memories of Us não tem ambição de contar uma enorme e detalhada história sobre o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial, nós queremos compartilhar com vocês a história de um menino e uma menina e a amizade maravilhosa que existia entre eles.”

My Memory of Us

Segregação social é um dos temas de My Memory of Us

Pergunto a Jablonki por que, atualmente, desenvolvedores poloneses parecem tão empenhados em usar a linguagem do videogame para contar histórias tocantes sobre guerra, fictícias ou não. “Hoje a Polônia é um lugar fantástico para se viver e criar”, ele responde, “mas a nossa história tem muitos momentos que foram brutais, cheios de crueldades. A Polônia foi literalmente apagada do mapa europeu por mais de 120 anos, ocupada e dilacerada por Hitler e Stalin. My Memories of Us não é sobre guerras e revoltas. Usamos esses eventos para contar uma história sobre a amizade, porque simplesmente acreditamos na ligação entre amigos, não importa quem eles são e o que a História lhes fez.”

Jablonski diz que não pode falar por todos, mas de sua própria perspectiva, esse olhar para trás é uma forma de honrar seus antepassados que sofreram com a guerra. “Meu avô foi um prisioneiro no campo de concentração em Mauthausen-Gusen. Durante a ocupação, ele imprimia cartazes antinazistas, o que resultou no seu encarceramento. Ele sobreviveu e foi liberado pelos Aliados. Esse fragmento de memória inspirou uma fase inteira em My Memory of Us. Dessa forma posso honrar a ele e muitos outros que arriscaram suas vidas.”

Uma das pessoas reais que aparecem em My Memory of Us é Irena Sendlerowa, uma ativista de Direitos Humanos que, durante a Segunda Guerra Mundial, ajudou a salvar mais de 2.500 vidas, especialmente crianças judias, enquanto arriscava a sua própria. “Nós decidimos mostrá-los devido ao nosso respeito que sentimos por eles e a sensação de que eles deveriam se tornar parte da cultura popular.”

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Embora seja uma fábula, My Memory of Us traz personagens históricos, como a ativista de direitos humanos Irena Sendlerowa

Ao mesmo tempo que My Memories of Us remete ao passado, ele parece estar em sintonia com o presente — afinal, muralhas e perseguições étnicas voltaram a fazer parte do vocabulário da política internacional. Jablonski acredita que se o jogo reflete de alguma forma a sociedade ocidental contemporânea, seria um acaso causado pela “construção fractal da nossa história”. “Essa questão me faz reforçar que o enredo que queremos contar não é sobre as muralhas em si, mas sobre o ato de pegar alguém pela mão e saltar sobre elas.”

My Memories of Us está previsto para chegar em 2018. Para saber mais, acesse o site oficial.

  • glaubertodesco

    Ótimo artigo Henrique, parabéns!