Em uma das cenas mais chocantes de Cidade de Deus, o traficante Zé Pequeno encurrala duas crianças e as obriga a escolher entre levar um tiro no pé ou na mão, como forma de punição por realizarem assaltos dentro da favela. Aos prantos, escolhem a mão, mas levam no pé. Agonizam encolhidos no chão, ao som das risadas dos criminosos, que, ainda insatisfeitos com a punição, forçam uma terceira criança a matar um dos pequenos com uma pistola. Por mais angustiante e terrível que seja, a cena é importante para o filme, cuja trama mostra o papel das crianças e adolescentes na rede de tráfico de drogas comandada por Zé Pequeno.

Abuso infantil existe em histórias pelo simples fato de que ele existe no mundo — basta olharmos para os contos de fadas, especialmente suas versões originais. Segundo a Fundação Abrinq, 10.465 crianças e jovens de até 19 anos foram assassinados no Brasil em 2015, o que corresponde a 18,4% dos homicídios cometidos no país durante o ano. Em mais de 80% dos casos, a morte ocorreu por uso de armas de fogo.

Embora a representação do abuso infantil seja comum em outras mídias, como forma de denunciar a negligência e a violência física, psicológica ou sexual cometida por adultos à crianças, escritores e designers parecem ter evitado o tema em videogames ao longo das décadas — talvez pelo fato de os próprios videogames terem sido vistos como uma atividade infantil durante muitos anos. Mas conforme a mídia amadurece, mais e mais temas outrora considerados tabu no meio interativo são tratados de forma consciente pelos videogames. Recentemente, temos visto a nudez ser tratada com mais naturalidade em jogos, como em Conan Exiles, por exemplo.

O mais recente título a tratar diretamente de abuso infantil, provavelmente como nenhum jogo o fez até agora, é 2Dark, do game designer Frédérick Raynal, criador de Alone in the Dark, Time Commando e Twinsen’s Odyssey. O jogo é uma aventura de furtividade com visuais retrô, sobre um policial que desvenda uma rede de tráfico humano.

Com exceção do escritor Thierry Platon, a equipe de desenvolvimento de 2Dark é composta por alguns profissionais que trabalham com Raynal desde o início dos anos 90, incluindo a artista Yaël Barroz e o game designer Didier Chanfray. Disto isto, há muito de seus principais trabalhos — Alone in the Dark e Twinsen’s Odyssey — em 2Dark.

A violência é um tema central em 2Dark. Durante um acampamento em família, Smith testemunha a morte de sua esposa e o sequestro de seus dois filhos. Sete anos após o crime não solucionado, Smith descobre pistas relacionadas ao desaparecimento de crianças na cidade de Gloomywood (que também é o nome do novo estúdio de Raynal), e passa a investigar o caso por conta própria, esperançoso de que ele possa reencontrar seus filhos.

Ao longo do jogo, no controle de Smith, desmantelamos uma quadrilha de tráfico humano que sequestra e vende crianças para inúmeros propósitos perversos. Os principais clientes são psicopatas que as usam para satisfazer seus desejos mais sórdidos: um homem que promove brigas de cães com crianças e vende as filmagens para possíveis interessados, uma família canibal, uma mulher obesa que as abate e as transforma em bonecas por meio de taxidermia etc.

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A crueldade contra crianças é um dos temas principais de 2Dark

A equipe por trás de 2Dark não tem medo de chocar o jogador com imagens e situações de extrema crueldade, nos apresentando personagens tão grotescos e monstruosos que é difícil não querer matá-los na primeira oportunidade — uma ação possível, mas que o jogo desencoraja.

Mas apesar de ser tematicamente pesado, 2Dark ameniza o choque ao fazer uso de uma estética descrita por Barroz como “gore-cute”. “2Dark é a visão de Fred, um assunto difícil e, para mim, uma oportunidade de sustentar essa visão, criando gráficos que podem ser considerados ‘bonitinhos’, para tornar palatável um tema difícil”, explica no diário de desenvolvedor a diretora de arte, que também é casada com Raynal.

De certa forma, o que ela faz é o oposto que Roberta Williams fez em 1994 ao também abordar assuntos difíceis em seu jogo Phantasmagoria, como violência doméstica e estupro. Ao fazer uso de filmagens com atores reais, por mais baixa que fosse a resolução do vídeo, seu jogo apresentou algumas cenas de assassinato bastante cruéis e explícitas, até hoje chocam pelo realismo.

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Na pele do detetive Smith, temos que salvar crianças de uma rede de tráfico humano

Embora as situações de violência com crianças retratadas em 2Dark possam ser tão ou mais pesadas do que a vista em Cidade de Deus ou Phantasmagoria, ao evitar o realismo e assumir um tom que pende para a fantasia e o absurdo, o jogo consegue abordar diversos aspectos do abuso infantil e da crueldade humana sem traumatizar o jogador, e ainda assim gerar momentos de legítima perturbação, graças também à construção rica de seu universo e personagens.

É nosso papel encontrar e resgatar as crianças encarceradas, acorrentadas e encaixotadas, que choram e berram, denunciando suas localizações. Em seguida, temos que escoltá-las até a saída da fase, sendo cauteloso para que elas não sejam detectadas (ao se assustar com um corpo morto, deixado por nós anteriormente no cenário, por exemplo), atingidas por inimigos ou caiam em armadilhas.

Durante este processo, é indispensável salvar o progresso do jogo, que é feito unindo os itens de isqueiro e cigarro no inventário. Sim, fumar é a única forma de salvar o jogo, o que toma algum tempo e ilumina o local em que se está — e você não quer fazer isso com inimigos por perto. Assim, o nível de tabagismo do herói é proporcional à quantidade de saves que o jogador realiza durante a fase, e se ele abusar do recurso, Smith passa a tossir, denunciando sua presença aos inimigos. Fumar na presença das crianças também se torna uma constante ao jogador inseguro, o que não deixa de ser uma outra forma de abuso contra os pequenos. A diferença é que, neste caso, é o jogador que o está cometendo.

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Embora 2Dark evoque um pouco de Alone in the Dark, é Twinsen’s Odyssey (e seu antecessor Relentless) que ele realmente canaliza. Os personagens reagem de maneiras diferentes de acordo com seu comportamento e falam por meio de balões de textos que flutuam sobre suas cabeças. É possível arremessar doces em alavancas para ativá-las à distância, bem como fazíamos com a bola mágica em Twinsen’s Odyssey. Os cenários de ambos os jogos lembram casinhas de bonecas, como a própria Barroz descreve. E, por mais que sejam títulos direcionados a públicos diferentes (a classificação indicativa de 2Dark no Brasil é 18 anos, enquanto que Twinsen’s Odyssey era indicado para todas as idades), crianças estão fortemente presentes em ambos os jogos, e nos dois devem ser resgatadas.

Há uma sinceridade artística potencialmente controversa em ambos os jogos. Em Twinsen’s Odyssey há personagens bêbados e conteúdo sexualmente sugestivo, além da possibilidade de assaltar lojas e espancar crianças. Nele, Raynal incluiu a consciência do jogador e seu senso de moralidade à experiência, ainda que atos questionáveis nem sempre passassem sem punição. Em 2Dark, além das situações e personagens já mencionados, há sugestão de pedofilia.

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O choro das crianças pode atrair a atenção de psicopatas

Embora esse tipo de liberdade artística seja cada vez mais comum em videogames, especialmente no meio menos comercial dos desenvolvedores independentes, este não era bem o caso na época em que Twinsen’s Odyssey foi lançado, há 20 anos, o que denota uma integridade autoral, que ainda se faz presente no trabalho de Raynal.

Ainda hoje, jogos que possuem tratamento realista e que permitem que o jogador tome atitudes violentas raramente possuem crianças em seus universos. Os títulos da série Grand Theft Auto as eliminam completamente de seus mundos, enquanto que The Elder Scrolls V: Skyrim as tornam imortais e inatingíveis pelo jogador, ao contrário dos NPCs adultos, que podem ser atacados por ele se assim ele quiser.

A completa exclusão ou o tratamento diferenciado à crianças em jogos que representam o mundo adulto são até compreensíveis (especialmente de um ponto de vista comercial), dado que a sociedade costuma aceitar melhor (ou até mesmo ignorar) a violência entre indivíduos adultos do que aquela direcionada à crianças. Contudo, se essa fosse a abordagem modelo, não teríamos títulos ousados como 2Dark, BioShock e Inside, que ignoram o discurso demagógico do protecionismo infantil e a controvérsia para levar adiante visões autorais, das quais crianças possuem papéis importantes.

2Dark está disponível com legendas em português para PC (via Steam), PlayStation 4 e Xbox One.

Veja também:

  • Gabriel Morato

    Que orgulho desse texto Rique!

  • José Cordeiro

    Adorei o texto.

    Não sabia que Alone in the Dark era do mesmo criador de Twinsen’s Odyssey, nem que ele ainda fazia jogos (pra ser honesto, nunca procurei).

  • “Contudo, se essa fosse a abordagem modelo, não teríamos títulos ousados como 2Dark, BioShock e Inside, que ignoram o discurso demagógico do protecionismo infantil e a controvérsia para levar adiante visões autorais, das quais crianças possuem papéis importantes.” – TEJE LACRADO!

  • Jogão da porra, uma pena que é bem curto.