Jet Set Radio (ou Jet Grind Radio, nos EUA) era diferente de tudo o que existia quando foi lançado para Dreamcast em 2000. Você fazia parte de uma gangue de patinadores em uma Tóquio alternativa, meio futurista mas bastante calcada na realidade, e precisava grafitar e conquistar territórios antes das gangues rivais. Um de seus maiores méritos é captar o sentimento da rebeldia juvenil sem cair na representação da violência, explorando a ideia de desafio às autoridades através de um ato cheio de significados: o grafite. A atitude anarquista, a liberdade (simbolizada pelos patins, que te deixava realizar uma série de movimentos e manobras em alta velocidade), a arte urbana e a música serviam de retrato para a juventude do final da década de 90. Ele foi um daqueles jogos da Sega que abraçava a cultura contemporânea e a encapsulava na forma de videogame.

Quase 20 anos depois, temos, nesta quarta-feira (31) o lançamento de Hover: The Revolt of Gamers, que anda sendo descrito como o sucessor espiritual de Jet Set Radio, o que por si só já faz com que ele mereça alguma atenção. Criado por três jovens franceses, Hover foi financiado coletivamente em 2014 e passou por um longo período de acesso antecipado no Steam. A campanha foi tão bem sucedida que eles conseguiram até incluir na produção o principal compositor do clássico do Dreamcast, Hideki Naganuma, que deu a Hover uma trilha sonora electropop bem dançante e colorida.

Se por um lado Hover impressiona pela sua fluidez e escopo, especialmente se levamos em consideração o tamanho enxuto da equipe de desenvolvimento, ele falha em capturar parte da essência de Jet Set Radio. A tentativa de representar a rebeldia ainda existe, mas a carga cultural que a legitimava é praticamente nula aqui. Você não precisa ir muito além do subtítulo meio constrangedor (“A Revolta dos Gamers”) para perceber como Hover “patina” sobre o conceito. No título, fazemos parte de uma equipe de resistência a um governo ditatorial que baniu os videogames e qualquer outra forma de entretenimento do país. Assim, nosso objetivo é se rebelar contra o sistema, ganhando reputação dentro da nossa gangue para realizar missões cada vez mais arriscadas.

Além da ideia em si ser bem mais convencional do que tínhamos em Jet Set Radio, Hover não se propõe a representar um grupo, uma cena ou uma estética. A gangue de “gamers”, bem como o mundo que ela habita, é certamente a parte mais genérica e sem inspiração de Hover, e nada disso parece dizer qualquer coisa sobre o mundo real da mesma forma de Jet Set Radio o fez. Então, sob este ponto de vista, Hover falha em canalizá-lo.

Mas ao colocarmos de lado esse fato, Hover se torna um jogo bastante único, que traz uma jogabilidade pacífica baseada em performance em mapas persistentes, compartilhados por múltiplos jogadores. Com a estrutura de mundo aberto, em ambientes bem mais verticais que os de Jet Set Radio, você realiza múltiplas missões e desafios que envolvem navegar pela cidade em alta velocidade, deslizando pelo chão e pelo ar. O grafite, tão simbólico em Jet Set Radio, ganha um peso muito menor aqui, em pequenas missões em que é preciso desenhar sobre propagandas do regime ditatorial.

Hover: Revolt of GamersHover: Revolt of GamersHover: Revolt of GamersHover: Revolt of GamersHover: Revolt of Gamers

O foco está mesmo no controle do personagem, que se comporta como se fosse um veículo, ganhando até mesmo um acelerômetro. Seus movimentos são afetados de tantas formas que manter controle sobre o personagem em alta velocidade é um dos grandes prazeres (e dificuldades) de Hover. Um pulo mal calculado pode significar um erro tremendo, especialmente considerando que, em um mundo vertical, a gravidade é sua principal inimiga. Com a possibilidade de retroceder seus movimentos, porém, você consegue refazer manobras e corrigir saltos em instantes. Se comparado a Jet Set Radio, dá para afirmar com facilidade que os controles, bem como sua câmera, são mais precisos e gostosos que os do jogo da Sega.

Há toda uma camada de RPG, com progressão de níveis e personalização de avatares, com cartinhas conquistadas pelo jogador de acordo com sua performance nos desafios. Elas modificam seu personagem consideravelmente, melhorando seus atributos básicos e tornando-o mais ágil e veloz.

Em minhas partidas, o aspecto MMO tem ficado em segundo plano. É verdade que, assim que o jogo foi liberado a todos nesta quarta-feira, o mapa que antes parecia o de um jogo single-player foi povoados com outros jogadores saltando de um lado para o outro. Porém, com exceção de algumas corridas (que começam e terminam em tempo real, bastando você se aproximar da linha de partida enquanto os jogadores esperam por mais participantes), o jogo não me impeliu a interagir com ninguém. Para piorar, a performance do jogo caiu muito com a abertura dos servidores.

Talvez o que mais tenha me desagradado em Hover seja seu visual. Enquanto Jet Set Radio primava por um certo minimalismo, Hover faz o contrário e enche seus cenário com tantos elementos e cores, muitas delas fluorescentes, que é difícil reparar em uma única coisa por mais de alguns segundos. A interface é uma profusão de ícones, setas, números, mensagens, barras, medidores… um tremendo caos visual que chega a desnortear, o que pode ser bastante frustrante quando tudo o que você precisa é de timing e precisão.

Hover: The Revolt of Gamers está disponível no Steam por R$ 36,99. Durante o período de lançamento, ele recebe um desconto de 20%, saindo por R$ 29,59.