Basta você olhar para uma ou duas imagens de Jettomero: Hero of the Universe para ser convencido de que ele é um dos jogos mais únicos e visualmente marcantes do momento. Vê-lo em movimento, com todas suas animações procedurais, é um espetáculo à parte. Para complementar a experiência, a trilha sonora relaxante e hipnótica não deve muito a alguns dos melhores álbuns do Boards of Canada.

O mais impressionante disso tudo é que ele foi criado basicamente por um único cara. O canadense Gabriel Koenig levou três anos criando arte, código, design e música para seu jogo, lançado para PC, Mac e Xbox One no dia 15 de setembro. Para não dizer que ele fez tudo sozinho, ele recebeu ajuda na criação de efeitos sonoros e modelos em 3D.

Em Jettomero, somos um robozinho desengonçado que nutre uma enorme empatia pela humanidade, muito embora os seres humanos pareçam detestá-lo, ou não o recepcionariam com naves de guerra e mísseis teleguiados.

Seu objetivo é descobrir seu propósito, voando de planeta em planeta em busca de respostas, em uma galáxia inteira aberta à exploração. Mas o que o gigante tem de pacífico e adorável, ele tem de desastrado. Caminhar por uma área habitada significa quase sempre acidentalmente pisotear humanos e destruir seus lares, o que vem acompanhado de pedidos sinceros de desculpas do robô.

Jettomero tem muito dos jogos de Keita Takahashi, criador de Katamari Damacy. Ele é muito mais sobre exploração, experimentação e apreciação do que desafio, tanto que sequer é possível morrer, mesmo que você quase sempre esteja sendo alvejado por mísseis. Seu loop de gameplay rapidamente se torna familiar e você percebe que, apesar da imensidão inicial, é um jogo bastante contido em escopo — ainda que isso não o torne menos complexo e original. Mas, tal como Noby Noby Boy, do Takahashi (uma das inspirações de Gabriel), há sempre algo em sua estrutura procedural que torna os planetas únicos e pequenas surpresas que deixam essa jornada mais colorida e instigante.

Em entrevista ao Overloadr, Gabriel explica que a ideia de um robô que tenta ajudar as pessoas mas acaba acidentalmente atrapalhando já estava em seu protótipo. “Originalmente ele seria um jogo simples em 2D baseado em física, sobre um robô gigante tentando ajudar pequenas vilas”, diz. “A premissa era que os controles seriam tão sensíveis e imprevisíveis que cada fase iria resultar no robô acidentalmente esmagando todo mundo. Eu realmente gostava da ideia dos jogadores sendo incapazes de obter sucesso em seu objetivo mas sendo forçado a continuar, sem a possibilidade de tentar novamente.”

 

O desenvolvedor aproveitou que trabalhava desenvolvendo aplicativos na engine Unity em um emprego em período integral para usar esse conhecimento e progredir com o desenvolvimento de Jettomero nas horas vagas. Somado às habilidades de Gabriel, um auto-didata, Jettomero rapidamente ganhou forma.

“Era criativamente revigorante dar um tempo da programação para compor músicas ou brincar com os aspectos visuais se eu precisasse de um intervalo com a escrita da trama do jogo”, explica Gabriel. “Eu não me considero um profissional em tudo que eu faço mas minha combinação de habilidades geralmente significa que o que quer que eu invente será algo menos convencional. É uma maneira divertida de desenvolver projetos, que geralmente resulta em soluções criativas para trabalhar dentro das minhas próprias limitações. Algo que eu não necessariamente tenho em uma equipe grande cheia de pessoas que sabem exatamente o que estão fazendo.”

Para o visual de alto contraste, Gabriel tomou inspiração de Mike Mignola, criador de Hellboy, e Jack Kirby, um dos pais das histórias de quadrinhos norte-americana. A pegada é tão forte que toda a interface do jogo é inspirada em HQs. Um dos meus filtros favoritos do Photo Mode (que usei em algumas das imagens da galeria abaixo) simula retículas de impressão de quadrinhos e jornais. Já para o som, Gabriel usou sintetizadores analógicos, o que contribuiu para que ele capturasse a atmosfera de Boards of Canada.

Jettomero é um jogo curtinho, que não deve durar mais do que três horas — isso, se para cada minuto de jogo você não gastar dois no Photo Mode, buscando o melhor ângulo para tirar uma foto, que irá compor o quadrinho imaginário em sua cabeça. Eu assumo que tenho uma queda por modos de fotografia, pois amo criar composições e encontrar perspectivas dramáticas com uma câmera virtual, mas, por alguma razão, o de Jettomero virou uma obsessão, como você pode ver na galeria abaixo. O próprio Gabriel notou.

Inclusive, eu nunca fiquei tão feliz com uma atualização quanto esta que foi aplicada nesta quinta-feira (28):

Se você preza por experiências relaxantes e visualmente impactantes, ou se você apenas aprecia robôs melancólicos que parecem ter mais humanidade que os próprios humanos, Jettomero: Hero of the Universe certamente merece sua atenção.

Jettomero: Hero of the Universe está disponível para PC, Mac e Xbox One. No Steam, ele custa 25,99.

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