Qual é a semelhança entre Overcooked, Sim City e Papers, Please, além do fato de todos serem jogos eletrônicos? Bem, há algumas. A gente pode dizer que todos eles são, de uma forma ou outra estressantes, colocando o jogador para agir sob pressão. Também dá pra dizer que eles representam profissões: cozinheiro, prefeito e agente de imigração. Mas o ponto que eu quero chegar é que todos eles são sistemas inspirados pela realidade.

Antes de criarem Overcooked, Phil Duncan e Oli DeVine trabalharam juntos na cozinha de um restaurante. Lucas Pope teve a ideia de Papers, Please a partir de suas experiências com a imigração e a sempre tensa checagem de passaporte em aeroportos. Will Wright… não, ele nunca foi prefeito e nem urbanista, mas sua fascinação por sistemas naturais complexos e adaptativos o levou a olhar para a maneira como a inteligência coletiva se organizava, e acabou criando diferentes jogos sobre isso, incluindo Sim City.

O que esses designers fizeram foi olhar para aspectos da vida comum, com os quais eles tinham alguma relação e interpretá-los na forma de sistemas. Basicamente um sistema é composto por objetos com propriedades individuais e que interagem entre si, dentro de certos contextos. E jogos são sistemas por natureza.

Se olharmos ao nosso redor, estamos cercados de sistemas. Como cidadãos de um país, somos objetos dentro de sistemas econômicos, políticos, sociais etc. Mas se a gente se focar em um escopo menor, como uma sala de aula, um almoço em família de domingo ou um bar, outros padrões emergem das dinâmicas sociais. Um bom game designer é capaz de interpretar esses padrões e transformá-los em sistemas, em vez de apenas se basear naqueles que já existem nos videogames.

Russian Subway Dogs, do estúdio independente canadense Spooky Squid, é um excelente exemplo de como um aspecto curioso da realidade pode se tornar um jogo original. Um dos mais originais de 2018, eu diria.

Moscou, a capital da Rússia, é conhecida por muitas coisas: pelo Kremlim, a sede do poder executivo do governo, pela Catedral de São Basílio, pelo teatro Bolshoi e, de alguns anos para cá, por um fenômeno interessante que se tornou viral nas redes sociais: os cachorros de rua que andam de metrô.

A população de cães de rua de Moscou é consideravelmente grande, tal qual sua extensa malha metroviária, de aproximadamente 360 quilômetros de extensão. Em comparação, a maior rede de metrô do Brasil, a de São Paulo, tem aproximadamente 90 quilômetros de extensão.

Uma parte desses cachorros, inclusive os selvagens, se adaptou à realidade urbana e aprendeu a usar o metrô, aumentando assim sua chance de sobrevivência. Eles se misturam aos humanos, muitas vezes compartilhando o mesmo assento dentro dos trens, enquanto aguardam a próxima estação. Pesquisadores dizem que os cães aprenderam a reconhecer as estações a partir do cheiro, do nome dito pelo anunciante no sistema de rádio e pelo tempo de viagem entre uma parada e outra.

Os cães que moram nas estações costumam andar em bandos e elaborar estratégias para conseguir comida, como latir atrás de pessoas para que elas se assustem e derrubem o que estejam comendo.

Apesar disso a população simpatiza tanto com os animais que, em 2001, quando um cão que morava em uma das estações foi atacado e morto por uma mulher, uma estátua de bronze foi erguida em sua homenagem. Em uma outra estação, as pessoas que passam por uma estátua de um soldado com seu cão possuem o hábito de tocar no focinho do animal, acreditando que o gesto lhes trará sorte.

O cão Malchik ganhou um monumento na estação de Mendeleyevskaya, em Moscou, após ser morto por uma passageira

Essa curiosa relação entre cães e humanos no metrô de Moscou serviu de inspiração para os canadenses Miguel Sternberg e Alina Sechkin, que adaptaram as dinâmicas desse ecossistema em regras para seu jogo Russian Subway Dogs.

Controlando um cãozinho faminto, seu objetivo é conseguir comida e se manter vivo na plataforma do metrô. Conforme os trens estacionam, pessoas e outros animais desembarcam, trazendo oportunidades de alimentação mas também concorrência e certos perigos.

A abordagem da dupla é a mesma dada a jogos como Zelda: Breath of the Wild, Watch Dogs 2 e Far Cry 5, em que todos os objetos de um sistema podem interagir entre si, às vezes sem qualquer input do jogador. A diferença é que em Russian Subway Dogs, o sistema é limitado a uma única tela fixa, com os trens, de momento a momento, adicionando novos elementos a esse sistema.

Você precisa latir atrás de pessoas pra fazê-las derrubar o que estiverem segurando, exatamente como fazem os cães russos. A shawarma, que embora seja um prato árabe, é uma comida de rua bem popular em Moscou, enche um pouco de sua barra de fome e te dá uma quantidade pequena de pontos. Já o hamburguer enche um bocado e te dá muitos pontos, mas os poucos passageiros que andam com ele passam correndo pela plataforma.

Conforme você pega a comida no ar sucessivamente, sem deixá-la tocar no chão, um multiplicador crescente não apenas aumenta seus pontos como também potencializa o efeito da comida. Um segundo multiplicador pode ser aplicado tostando a comida com as explosões causadas por garrafas de vodka, sendo que quanto mais você a arremessa para o alto, maior se torna seu valor. Então a combinação dessas ações pode fazer com que uma shawarma de meros 20 pontinhos valha dezenas de vezes mais e sacie muito mais a sua fome. Você só precisa evitar que outros comam a comida antes de você.

A abordagem sistêmica de Russian Subway Dogs o torna muito mais profundo do que aparenta

Mas isso é só o básico, porque a abordagem sistêmica dada por Miguel e Alina ao jogo faz com que inúmeras outras coisas absurdas possam acontecer. Com exceção dos outros cães, todos os animais atingidos podem ser assados e virar comida disputadas pelos próprios animais. Então, sim, há possibilidade de canibalismo. Powerups consumidos pelo jogador, como molho de pimenta ou café, também podem ser consumidos por outros animais, o que gera situações hilárias como pombos que fazem cocô de fogo ou poodles fritadíssimos de cafeína.

O modo campanha é onde o jogo explora essas combinações, com fases limitadas a certos tipos de animais, comidas ou itens, fazendo o jogador se adaptar e explorar diferentes possibilidades estratégicas. Há até umas fases bônus e um chefe bem legal. Já no modo infinito seu objetivo é sobreviver o máximo de tempo possível enquanto a dificuldade vai aumentando. Aqui você quer botar em prática tudo o que aprendeu no modo campanha para obter a melhor performance possível e competir nas tabelas de pontuação.

Embora ele seja um jogo arcade aparentemente simples, com partidas curtas, a abordagem sistêmica dele faz com que você queira explorar todas as possibilidades de interação entre os componentes para ver como o jogo reage. Assim, você vai entendendo o que é benéfico ou não para sua performance.

Alina, a artista do jogo, me disse via Twitter que eles não chegaram a visitar Moscou para estudar o comportamento dos cachorros, não apenas devido o custo da viagem, mas também porque a intenção deles não era criar um jogo realista e sim, brincar com essa história tão curiosa. Apesar disso, eles me contaram que estudaram um bocado o fenômeno dos cães e se dedicaram especialmente em recriar algumas das incríveis estações de metrô de Moscou.

Embora o jogo aborde um fenômeno russo, seus criadores, Miguel Sternberg e Alina Sechkin, são canadenses

Mas mesmo que Russian Subway Dogs não seja exatamente preciso na recriação dos fatos, ele ainda é uma forma de nos conectar a essa história real tão curiosa, seja nos apresentando uma versão pixelada da magnífica arquitetura do metrô de Moscou, seja nos botando na pele de cãezinhos famintos, seja nos aproximando um pouquinho da cultura russa, mesmo que passada por um filtro ocidental.

Talvez seu único problema seja não contar como essa história termina.

Para evitar que a mídia internacional mostrasse o descaso da Rússia com sua população de cachorros abandonados durante as Olimpíadas de Sochi e da Copa do Mundo, nos últimos anos o governo autorizou o massacre de animais sem dono. Embora algumas medidas humanas tenham sido tomadas em certas cidades, como a castração, a necessidade de um resultado imediato levou o governo a contratar serviços de extermínio.

Sem uma lei federal que os protegesse, milhares de cães foram mortos por envenenamento na Rússia, muitos deles largados pelas ruas até serem congelados. Apesar dos esforços de ativistas, das campanhas de adoções e das denúncias feitas pela imprensa, que ganharam repercussão internacional, o governo russo não interrompeu a matança. Ironicamente, este foi o mascote da Copa do Mundo de 2018.

Hoje os cães abandonados do metrô da Rússia são apenas uma história com final triste. Estranhamente, para uma população tão simpática a esses animais, nenhuma estátua foi levantada em nome deles, mas, com sorte, Russian Subway Dogs não deixará que as pessoas se esqueçam dessa história.