O Overloadr entende que, mais do que nunca, a hora é de falar de política, e como acreditamos na importância cultural dos videogames, sabemos que eles podem contribuir com o assunto, gerando reflexão sobre o momento em que vivemos. Com a intenção de ampliar esse debate, nos unimos à CartaCapital, veículo especializado na cobertura política, para a publicação conjunta e divulgação de vídeos da nossa série Games e Política.

A produção continua 100% do Overloadr: totalmente independente e com o mesmo cuidado que aplicamos em todos nossos vídeos. Com a parceria, você poderá encontrar os conteúdos da série Games e Política não apenas no Overloadr, mas também no site da CartaCapital.

Assista ao primeiro vídeo dessa parceria a seguir. Você também pode ler o texto na íntegra, abaixo.

No momento em que brasileiros tentam convencer a embaixada alemã de que o Holocausto nunca existiu ou que o nazismo era um regime de esquerda, mais do que nunca precisamos de materiais para nos lembrar dos horrores desse período tão sombrio da história da humanidade.

My Memory of Us, lançado no início de outubro, é um jogo polonês que nos coloca na pele de duas crianças durante a invasão do exército nazista na Polônia. A menina é judia, o garoto não. Eles se conhecem em meio ao clima tenso da Segunda Guerra Mundial e, com a ocupação dos alemães, são separados de seu único vínculo familiar. Órfãos, eles são enviados para o gueto de Varsóvia, onde foi construído um muro para separar os judeus do resto da população. E, de lá, são deportados para o campo de extermínio de Treblinka, onde cerca de 300 mil pessoas foram enviadas para morrer em câmaras de gás. Apesar de tudo, é uma história de esperança: o próprio menino, sobrevivente da guerra, é quem narra a história para uma garotinha nos dias atuais — daí o tom infantil.

Mas tal como Maus fez nos quadrinhos, My Memory of Us recorre às alegorias para retratar essa história. Aqui os nazistas são robôs e, portanto, sem alma ou sentimentos; os judeus são chamados de “povo de vermelho”, a única cor que se destaca em sua paleta monocromática. Mais do que representar uma identidade, a maneira como o jogo usa a tinta vermelha para pintar os cidadãos indesejados pelo regime dos robôs remete à solução gráfica tomada pelos nazistas para identificar e segregar judeus, comunistas, homossexuais, imigrantes e qualquer pessoa que não se enquadrasse em sua ideologia. Um indivíduo marcado com esses triângulos era automaticamente considerado inimigo e passava a ser hostilizado pela população. Os judeus recebiam dois triângulos amarelos sobrepostos, formando a Estrela de Davi.

Em My Memory of Us, a cor vermelha representa a intolerância e a perseguição

My Memory of Us transforma essa história real de horror em uma fábula infantil com tons muitas vezes cômicos, mas ele é bastante sensível e cuidadoso em retratar esses eventos. A tentativa dos nazistas de apagar a identidade polonesa, com a remoção dos símbolos e destruição dos monumentos locais, o preconceito e perseguição sofrido pelos judeus, a luta dos grupos de resistência: tudo isso está no jogo.

Apesar do véu de fantasia, há personagens e cenários históricos, como o médico e pedagogo Janusz Korczak e seu orfanato de crianças judias, e a ativista dos direitos humanos Irena Sendler, que salvou aproximadamente 2.500 crianças do gueto de Varsóvia. Esses e outros heróis e heroínas importantes aparecem como cartas colecionáveis, escondidas pelo cenário, trazendo detalhes de suas histórias — na maioria das vezes, trágicas.

Há aqui muito em comum com Valiant Hearts, jogo de 2014 da Ubisoft que também tinha esse propósito documental e educativo, porém, focado na Primeira Guerra Mundial. Curiosamente, até suas qualidades e defeitos são parecidos: ambos os jogos são visual e sonoramente excelentes, mas possuem falhas de design.

Os desafios normalmente envolvem a solução de quebra-cabeças.

Ao menos durante o período de lançamento, a jogabilidade de My Memory of Us tem diversos problemas: os controles são pouco responsivos, as animações são duras e algumas tarefas são inexplicavelmente burocráticas, como o simples ato de pular uma caixa. A necessidade de controlar os dois personagens paralelamente, sem que eles tenham qualquer autonomia, também implica, em certos momentos, em realizar uma mesma ação duas vezes, o que é apenas enfadonho.

Mas há uma mecânica que, mesmo subaproveitada, representa muito bem o poder de My Memory of Us: a ação de dar as mãos. Essa é a única maneira de mover os dois personagens ao mesmo tempo e, se há uma mensagem que o jogo está tentando promover é que, juntas, pessoas tão vulneráveis quanto duas crianças órfãs podem se tornar tão fortes quanto seus opressores.

Em um momento tão delicado quanto o que estamos vivendo, com a perseguição violenta a certos grupos sociais e jornalistas por motivos políticos, My Memory of Us é um convite à reflexão. Ao abordar o Holocausto de um ponto de vista infantil, ele dispensa os nomes e ideologias que tanto tem nos afastado para se focar na única linguagem realmente universal: o sentimento humano. E a criança é o maior símbolo dessa linguagem porque, distante do mundo dos adultos que segregam e discriminam, alheias às construções sociais, é mais fácil para elas olharem para o outro com empatia.

My Memory of Us está disponível para PC, PlayStation 4, Xbox One e Switch. No Steam ele custa R$ 37,99.