Este artigo estreia a coluna mensal Gamecraft no Overloadr, escrita por Gilliard Lopes, produtor dos games da série FIFA na Electronic Arts.

No meio da indústria de games AAA, sobretudo a norte-americana, é costume celebrar o fim de um projeto com uma badalada wrap party – a festa de encerramento. Geralmente, quanto mais cópias do jogo são vendidas em suas primeiras semanas, mais glamourosa é a festa. Então, a julgar pelo local – uma das mais conhecidas casas noturnas de Vancouver – e pelos canapés, filé e champagne servidos, o projeto mais recente do qual participei deve ter tido um lançamento acima de todas as expectativas.

Wrap parties são uma das experiências mais bizarras que já tive. Programadores, artistas e designers se tornam uma só massa, bebendo, dançando e cantando como se tivessem acabado de sobreviver ao apocalipse. É quase isso: os últimos meses de um projeto de games frequentemente significam crunch time, as horas extras e fins de semana dedicados à correção dos últimos bugs e ao polimento do jogo.

BGS 2014

BGS 2014

E como o time desse projeto precisava dessa festa! Transição entre gerações, o dobro de plataformas para cuidar, a eternamente crescente expectativa dos jogadores: tudo isso tinha ficado finalmente para trás, embalado em caixinhas de plástico brilhantes ou resumido em uma imagem e dois parágrafos em uma loja online.

Euforia, realização, alívio. Estas eram as emoções estampadas nos rostos dos meus colegas, amigos, pessoas que eu aprendi a respeitar e admirar. Mas não era o que eu estava sentindo. E olha que eu merecia curtir esse momento tanto quanto qualquer um deles: compartilhei cada minuto de crunch, lamentei cada sábado ensolarado de trabalho, dividi cada pizza requentada. Mas, estranhamente, havia no meu peito um aperto que transcendia à alegria da festa, ao game que desenvolvemos, à indústria da qual, com muito orgulho, eu tenho participado.

* * *

Dezenas de milhares de gamers se espremem nos pavilhões do Expo Center Norte no dia mais cheio da Brasil Game Show 2014. No palco, Matando Robôs Gigantes e Jovem Nerd recebem a mim e a outros desenvolvedores convidados para conversar e jogar. Centenas de fãs preenchem o espaço à frente do palanque, apertando os olhos e desviando das cabeças à sua frente para não perder nenhum detalhe. A conversa é animada, as risadas são estridentes, mas ali do alto, olhando para o público, respondendo a cada pergunta, rindo de cada piada, eu ainda não consigo me livrar desse sentimento esquisito, meio vergonha, meio culpa, que vem me perseguindo.

Bem ali, no meio do evento que deveria celebrar a cultura gamer, o amadurecimento do mercado de jogos no Brasil, tal como na festa que deveria fechar com chave de ouro o mais recente ciclo de produção do nosso game, há um elefante branco que, uma vez tendo se feito presente, é impossível ser ignorado. Finalmente descubro o motivo da minha inquietude: como posso comemorar esses momentos de sucesso, de reconhecimento, de glória de uma indústria que, nas últimas semanas e meses, se viu tão manchada pela intolerância, pela violência em sua forma mais pura, pelo terrorismo?

Como me sentir à vontade frente àquela multidão na qual podem estar presentes as mesmas pessoas que são capazes de ameaçar de forma tão terrível uma colega de profissão que apenas decidiu usar a nossa mídia – não, a nossa forma de arte – para expressar aquilo que sentem as vítimas, como ela própria, da terrível doença chamada depressão? Como posso relaxar e aproveitar os drinks e a música da festa, se ela comemora as milhões de cópias vendidas para esse público-alvo que fez de seu alvo a jornalista engajada em denunciar a misoginia gritante que assola a nossa indústria, a indústria de Custer’s Revenge?

“Espera aí, não é bem assim”, buzina no meu ouvido o meu lado otimista, “essas pessoas da platéia não são iguais às que fizeram do Gamergate o capítulo mais asqueroso da história dos vídeogames”. E quem me garante isso? Ora, de onde podem ter saído esses criminosos, capazes de forçar profissionais de games a fugirem de suas próprias casas, senão desse mesmo público há anos inerte e condicionado ao preconceito e ao sexismo?

Quando tento, na minha cabeça, defender de alguma forma o público gamer, separá-lo dessa suposta minoria responsável pelas atrocidades que estamos presenciando, eu me lembro de Phil Fish. De Mass Effect 3. Dos falsos amigos que ganho toda vez que algum game feito por mim é lançado, somente para perdê-los novamente quando descobrem que eu não lhes darei cópias grátis do jogo, ou moeda virtual dentro do game.

BGS 2014BGS 2014Estande da Devolver Digital na Brasil Game Show 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014BGS 2014Brasil Game Show

Mas eu preciso acreditar que ser gamer não é, em essência, ser um egoísta insensível, apesar de os argumentos contrários serem muitos. Se eu não puder acreditar nisso, como vou acordar todos os dias para ir desenvolver os produtos que alimentam esse público? Como posso justificar pra mim mesmo que essas pessoas são a razão do meu trabalho, da minha paixão, aquilo que paga as minhas contas e dá sentido ao que eu faço por pelo menos metade do meu dia?

É por isso que a luta contra a intolerância na indústria e no meio dos games tem que se intensificar mais do que nunca. Desenvolvedores e jogadores, unamo-nos, não para defender uma falaciosa identidade gamer que não passa de uma subcultura oportunamente inventada, mas para provar o que somos: gente do bem. Emma Watson, aqui estamos. Obrigado pelo convite.

(Já estou pressentindo que não vou conseguir dormir bem hoje à noite. De novo.)

Gilliard Lopes é produtor dos games da série FIFA na Electronic Arts, em Vancouver, Canadá, e colabora de forma independente com o Overloadr, além de participar do PodQuest, um podcast sobre desenvolvimento de games na indústria internacional. As opiniões expressadas aqui são unicamente do autor e não representam necessariamente a visão da Electronic Arts ou do Overloadr.

  • André Luz

    excelente texto, irei acompanhar essa coluna com certeza

  • Vinicius Domingues

    Muito bom, ansioso pro próximo texto!

  • Bem vindo ao Overloadr, cara.

  • Esse texto só comprova mais ainda a minha tese: se um texto em alguma parte cita o nome do Phil Fish, esse texto tem treta. Nisso inclui-se meu comentário.

  • Belo texto. O mais triste é que sim, provavelmente tinha gente no meio daquela galera que deve fazer coisas piores na frente de uma tela, e só de pensar já dá calafrios.

    E seja bem vindo ao Overloadr !

  • Marcelo Hagemann

    Agora fiquei curioso a respeito do Gamecraft se terá um autor fixo ou se terá um convidado a cada edição.

    De todo modo, excelente texto. Às vezes penso que nós brasileiros estamos fora, que somos ponto fora da curva, quando se trada de movimentos como o Gamesgate, mas a internet uniu pessoas de lugares tão distantes, criou comunidades virtuais de todos os tipos, que não dá mais para dizer coisas como “os gamers brasileiros não estão participando disso”, somos cada vez menos gamers brasileiros e cada vez mais gamers…

    De um jeito ou de outro, seja bem vindo Gilliard Lopes.

    • Heitor De Paola

      Oi Marcelo, tudo bem?

      A coluna Gamecraft será a coluna do Gilliard, ou seja, autor fixo. Mas temos outras coisas planejadas para o site, que deverão abrir portas para mais pessoas postarem coisas no Overloadr.

  • Grillo

    Muuuuuuuuuuuuuuuuuuito bem vindo, que belíssimo texto 🙂

  • Henrique Alves

    Caramba que texto envolvente!!!!! Eu li e ao mesmo tempo parecia que eu estava vendo o cara la na hora tendo os pensamentos dele…

  • Sapulha_himself

    E thepodquest que é bom nada né, Dr. Gilliard?

    • guilherme oliveira

      Sério que você veio aqui pra cobrar o podquest? Não vá dizer que quer seu dinheiro de volta heim!

      • Sapulha_himself

        😀 Just kidding.

        Aguardo ansiosamente o retorno e adorei o seu texto.

  • #voltapodquest

  • Gustavo Araujo

    Belo e uma ótima adição para o time do Overloadr

  • Renan Klopper

    Cara, parabéns!
    Sensacional!
    Não lembro de ter lido nada parecido com isso em nenhum portal de games em lugar nenhum.
    Lembro de ter ouvido a entrevista que o Caio Corraini fez contigo (se não me engano na E3) e passei a te admirar muito.
    Fico feliz de agora poder acompanhar mais por aqui. Que sua coluna dure, assim como seus trabalhos. 🙂

  • Rodrigo Soares

    Ótima iniciativa essa coluna! Ainda mais q ue admiro e acompanho o trabalho do Gilliard. Aguardarei ansioso pelos próximos textos. Ah, e #VoltaPodquest hehe

  • Zé Luiz

    Que boa surpresa!

    Já faz um bom tempo que eu leio sobre o Gilliard na mídia, ouço suas entrevistas, e sempre me pareceu um sujeito digno de respeito e atenção. É realmente muito bom ver ele agora “disponível como DLC gratuita” no Overloadr, falando sobre suas experiências dentro da indústria e impressões pessoais.

    Parabéns à equipe pela ideia, e seja bem vindo, Gilliiard.

  • Membro Desmembrado

    Entendo este ponto de que o comportamento é ofensivo e que traz uma ameaça a solidariedade desta ‘facção-cultural’. Mas não consigo entender a razão achar que, esta cultura tendo se expandido tanto, não estaria vulnerável a reflexos de aspectos sociais. O gamergate prova que dentro de um nicho cultural pode existir conflitos e fracionar este espaço ainda mais. Gosto de pensar que este tipo de conflito ira gestar movimentos contra-culturais que serão ricos para a cultura; ai então esta paspalhice pode ter um lado bom!
    Ninguém nasce sabendo o que é ética. É preciso ensinar (ou até definir o que é).

    • Gilliard Lopes

      Entendo que conflitos são normais e esperados, ainda mais com o crescimento e amadurecimento do mercado, mas não dá pra ficar quieto quando a questão “descamba” para a violência como tem acontecido. Infelizmente, qualquer discussão válida sobre ética que poderia ocorrer está sendo floodada por alguns criminosos.

      Não consigo ter a frieza de pensar no Gamergate como uma forma de “gestar movimentos contra-culturais que serão ricos para a cultura” enquanto o que realmente está acontecendo é o uso dele como desculpa para aterrorizar pessoas.

      • Membro Desmembrado

        Mas isso está presente em todos aspectos da sociedade. Não quero que você aceite isso e sinta que não há nada o que fazer da maneira mais estoica, mas entender que estes que oprimem não são uma casta especiais. São assim como cidadãos; são assim como ser humanos (por mais que eu odeie admitir).

  • Lukas Leite

    Nossa, tô impressionado.

  • Victor Massao

    E lá vai o Overlodr, sinto que quando olhar de novo, já terá se tornado o maior site de games do Brasil.

    • Fabiano

      Já é o melhor!

  • guilherme oliveira

    Excelente argumento.
    Lendo me lembrei das discussões sobre o final de ME3 e quanto eu fui babaca em criticar tanto o final do jogo quanto aquele texto do Marcus Oliveira publicado no kotaku.
    Tenho a impressão de a cada discussão mais séria que acompanho na indústria eu amadureço não só como gamer mas como pessoa.
    Obrigado por isso caras!

  • Fabiano

    A indústria de videogames está finalmente amadurecendo como uma forma de arte legítima, e a transição está criando essa gente que ainda quer a infantilidade do passado, e ameaçando quem tenta fugir dela. É um problema meio dificil de esquivar: quanto maior o grupo, maior a chance de atrair idiotas, mas o importante é não deixarmos eles se tornarem a nossa imagem.

    • Gilliard Lopes

      É quase inevitável, Fabiano, que esses poucos idiotas manchem a imagem de todos, EXCETO quando os não-idiotas se mexem para isolá-los e deixar bem claro que eles não passam de uma minoria vocal. É nesse ponto que a anonimidade da Internet atrapalha.

      (Não me entendam mal, sou amplamente a favor de uma Internet anônima, mas a realidade é que essa anonimidade acaba sendo uma plataforma para que as discussões sejam dominadas por minorias)

  • Gilliard Lopes

    Obrigado pelos comentários, pessoal! E sobre o PodQuest, em Novembro estará de volta com novidades.

  • Luiz Augusto Pereira Rodrigues

    Lagrimas virtuais caem dos meus olhos :,)

  • Victor Domiciano

    A indústria de jogos é a mais nova se comparado com outras de entretenimento como cinema, música, livros e quadrinhos porém hoje está chegando ao mesmo patamar de crescimento e abrangência que estas. Todas tiveram o seu período turbulento de amadurecimento e consolidação, mas o problema é que a de jogos está atravessando essa fase numa época em que a comunicação é global.

    O debate e a opinião está mais limitado a um grupo de discussão, em que a ideia vai sendo crescendo de maneira orgânica, porém com as redes sociais essa ideia cresce de forma desordenada e em escala inimaginável, muitas vezes distorcidas. Se não gostei de tal jogo não vou debater de maneira consistente, mas sim reclamar e querer que aquele produto seja do meu gosto – senão está tudo errado!…

    Até mesmo esse comportamento nos influencia de maneira negativa – quantas vezes não repenso o que respondi de forma reativa um jogo ou final dele de maneira infundada…

    Estamos num período em todos querem dar sua opinião (até mesmo a minha agora), a maioria de nós não somos especialistas mas queremos que essas opiniões sejam relevantes – a ponto de seja a verdade total.

  • Parabéns por tomar uma posição sobre o assunto, Gilliard. É uma situação que está explodindo tanto do “lado gamer” quanto dentro da indústria. Acho de extrema importância a exposição e discussão sobre esse assunto ao invés de fingirmos que não é real ou não se importar só porque “não me afeta.

    • Gilliard Lopes

      O ponto é: ela afeta sim! Ou pode vir a afetar. Imagine um mundo onde desenvolvedores só fazem os games que lhes parecem agradar aos chamados “gamers”, com medo de represálias desse tipo (ou, no mínimo, de um fracasso comercial devido ao poder dessas minorias falantes). Imagine governos querendo regular a indústria como forma (errada!) de reagir à violência prometida por esses bandidos. Não é muito difícil de imaginar…

      • Sim, afeta todos os dias e em diversos níveis (inclusive esse “engessamento” é bastante comum). Mas tem gente com essa visão de “ah, mas isso não existe, nunca vi no estúdio onde trabalho” ou simplesmente por não se enquadrar em algum dos “grupos” que sofrem com esse tipo de coisa. Esse tipo de discussão é importante exatamente por expandir essa ótica fechada que muitas pessoas têm. Bacana mesmo.

  • Diego Barboza

    Grande Gilliard, se não fosse torcedor do Fluminense seria uma grande adição para o site :p

    • Gilliard Lopes

      E eu que achei que tinha me livrado dos flamenguistas chatos mudando pro Canadá… Xô, urubu! 🙂

  • Luiz Eduardo Freitas

    Excelente!

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  • jprbessa

    Parabéns, Gilliard. Muito bom o texto.
    Só sinto que existe uma “inocência” sem tamanho na indústria. Alguém já pensou por meio segundo que, tanto quanto o cinema e música, jogos tem uma exposição enorme dos profissionais? Vejo a toda hora a indústria batendo no peito e falando que o rendimento é o maior do meio de entretenimento, mas, talvez, por ser uma mídia nova não parece ter maturidade para lidar com esse tipo de situação. Talvez seja um problema inerente a produção artística e que as pessoas não estão se dando conta de que, por pior que seja, esse problema nunca vai deixar de existir.

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  • Capitão Nascimento

    Bandido bom é bandido morto.