O 31 Gaems é um projeto em que toda sexta-feira, por sete meses, temos o texto de um autor convidado sobre um jogo que tenha marcado sua vida. São game designers, artistas, programadores, jornalistas, quadrinistas e músicos, todos eles diretamente envolvidos com o cenário de jogos no Brasil, expondo seus sentimentos, memórias e personalidade em textos livres e pessoais. São 31 textos, de 31 autores, sobre 31 jogos.

O projeto, idealizado por Diego Castillo, da equipe indie Loud Noises, é inspirado pelo livro Songbook, também conhecido como 31 Songs, de Nick Hornby, (autor de Alta Fidelidade), no qual ele descreve as músicas que mais o impactaram, juntamente com toda a carga emocional que elas despertam ou despertaram. Além da publicação no Overloadr, os ensaios farão parte também do projeto Glitch Gazette, um zine digital e impresso em desenvolvimento pelo Loud Noises, que busca arrecadações para sua produção. Conheça a campanha do projeto no IndieGoGo.

Sem mais delongas, fiquem com o segundo ensaio do 31 Gaems, do game designer Marcos Venturelli. Dê também uma olhada nos textos já publicados do 31 Gaems.

– Heitor De Paola

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“O Homem e o Universo”, apresentado ao conhecimento comum pelo astrônomo Camille Flammarion mas, talvez poeticamente, envolto em mistério quanto às suas origens.

“O Homem e o Universo”, apresentado ao conhecimento comum pelo astrônomo Camille Flammarion mas, talvez poeticamente, envolto em mistério quanto às suas origens.

O cetro girou no ar por um momento e eu prendi minha respiração.

Sabe-se lá por qual motivo, naquele momento eu tinha certeza que não podia deixá-lo cair. Com um movimento rápido ele estava em minhas mãos e o tempo pareceu parar. Ao meu redor, a sala piscou algumas vezes e desapareceu, dando lugar a um céu escuro e nublado enquanto eu caía, embalado por uma música tão suave quanto a minha queda. Toquei o solo, e o cetro saltou, rodopiando algumas vezes antes de parar, seguro, nas mãos do rei. Mágica.

Eu vou acabar denunciando a minha idade se disser que já faz vinte anos que isso aconteceu, mas derrotar o primeiro chefe de Super Mario Bros. 3 ainda traz à memória a mesma sensação de deslumbre e, bem, mágica.

Hoje eu trabalho com entretenimento. Mais especificamente videogames – mas eu não diria que foi por causa do tal cetro, embora ele tenha certamente contribuído. Na verdade, eu não saberia dizer ao certo se você me segurar pelos ombros e exigir uma resposta. Mas eu sei que tem a ver com essa mágica, esse não-sei-o-quê que algumas obras têm e outras não, e por mais que eu tenha passado uma boa parte da última década estudando design de jogos e entretenimento em geral, ela ainda me elude completamente.

Nós humanos (com todo respeito aos eventuais leitores que não se encaixem na definição) somos particularmente habilidosos em detectar padrões. Não é à toa – fomos treinados ao longo de milhões de anos de evolução, até o ponto em que o nosso cérebro derrama deliciosos hormônios sobre nós para celebrar o reconhecimento de um novo padrão. Aprendizado. Esse prazer nos apontou a direção para a espada, o telescópio, o livro, o videogame.

Mas há um efeito colateral. Nós gostamos tanto de aprender como as coisas funcionam que às vezes, quando a compreensão nos escapa, inventamos nossas verdades. O céu é a morada dos deuses, cruzado pelo Sol em sua carruagem de fogo. As estrelas são marcas no corpo de uma mãe gigante que carrega o peso do céu sob suas costas, pessoas queridas que já se foram, um augúrio sobre nosso passado e futuro. Mágica.

E é por isso que o estudo “frio” do entretenimento sempre irá levá-lo apenas até a fronteira dessa mágica. Técnicas e descrições formais são tão capazes de definir e construir magia quanto uma partitura de música pode fazer alguém chorar. A técnica é importante para construção, mas que importância tem a construção se não apenas para delimitar o que não está construído? É nesses espaços vazios do que não é ou que apenas poderia ser, onde não entendemos exatamente o que está acontecendo – é lá que a mágica acontece.

Então o que é essa tal mágica? Se não posso dizer como reproduzi-la, posso pelo menos apontar quando ela acontece. E ela acontece muito em Super Mario Bros 3. Talvez não tivesse acontecido se a queda do cetro não fosse acompanhada por aquela música curtinha, criada para existir apenas naquele momento. Ou se não fosse possível pular e agarrar o cetro no ar quando você derrota o vilão. Ou se o tempo não parasse por apenas um instante, com todo o ambiente hostil desaparecendo após algumas piscadas.

Seja lá o que for, causou uma pane geral no meu cérebro – um marco cataclísmico, jamais registrado em seus oito anos de história. Na tradição de nossos antepassados, explico o mistério pegando emprestado um outro: acho que o ingrediente principal para alcançarmos essa mágica no entretenimento é o amor. Quando o eu de oito anos de idade se maravilhou com Super Mario Bros 3, não era o tipo de magia que eu sinto até hoje quando olho para o céu noturno e seus mistérios. Era um tipo diferente de magia, uma que eu senti em um espetáculo de marionetes um ano mais tarde, ou assistindo a TV Colosso. É uma conexão entre seres humanos, um ato de comunicação, uma via de mão dupla.

A mágica acontece em Super Mario Bros 3 porque o que está ali não é uma sucessão de tarefas de programação, e sim o amor de outras pessoas, que depositaram ali um pedaço delas mesmas para comunicar, através de barreiras de linguagem e tempo, algo fundamental, embora fundamentalmente simples: “é nisso que eu acredito”.

E, vinte anos depois, eu ainda acredito em Super Mario Bros 3.

Sobre o autor

Marcos VenturelliMarcos Venturelli trabalha atualmente sob o marca Rogue Snail e é designer de Dungeonland, Chroma Squad e Relic Hunters. Amante de pessoas bonitas e legais, é frequentemente visto em boa companhia como a brasiliense Behold Studios

  • H.C. Andersen

    Que texto simplesmente foda!!

  • Zé Luiz

    Tenho uma relação muito particular com Super Mario 3. Foi o primeiro jogo de videogame que “pude chamar de meu”. Naqueles tempos, lá pelos meus sete ou oito anos, minhas experiências com games eram limitadas aos raros momentos em que conseguia achar uma desculpa minimamente significativa pra visitar os vizinhos, e ficar encantado com aqueles pixels amontoados que se transformavam em carros de corrida, aviões, lutadores de boxe, aventureiros na selva… Tudo o que o Atari deles poderia proporcionar.

    A inveja acabou numa tarde chuvosa de quarta-feira, quando, numa visita ao supermercado, meu pai se compadeceu de meu olhar pidão a um anúncio gigante de “promoção” de um Nintendinho de 8 bits, com um controle, e um jogo. Super Mario 3.

    E é justamente por lembrar com riqueza de detalhes toda a expectativa e a euforia que tive naquele dia, do momento em que abri a caixa do videogame até o primeiro pulo desastrado dado com aquele baixinho bigodudo, que posso dizer que esse texto do Marcos é precioso e preciso ao focar exatamente o sentimento que tomou conta da minha alma de menino durante aquela experiência: magia. E posso dizer que, mesmo 20 anos depois de ter sentido isso, pensar em como me diverti e me encantei durante todas as centenas de horas dedicadas àquele mundinho ainda despertam um gostinho semelhante ao daqueles tempos.

    Parabéns pelo texto, Marcos, e obrigado por me fazer reviver isso durante estes minutos de leitura. Foi mágico.

  • Vinicius SS

    Sou capaz de descrever com precisão de minutos o dia que peguei meu Super Mario 3. A mãe de um amigo meu (nem tão amigo assim) trouxe de Miami dias depois do lançamento. Lembro até hoje do coração disparando ao segurar aquela caixa amarela enquanto meu amigo (repito, nem tão amigo) jogava meu jogo sob o argumento de querer ver como era. Concordei por puro medo de começar uma briga e ele desistir de me entregar o jogo.

    Já em casa pude jogar por mais ou menos uma hora e passei o resto do dia lendo cada cantinho da caixa e do manual.

    Entendi perfeitamente o termo “magia” presente no texto e afirmo que raríssimas vezes revivi esta sensação (Mario World repetiu isso e Mario Galaxy chegou muito perto mas aqui talvez o fator “ser adulto” tenha jogado contra).

    Até hoje não consigo dizer entre 3 e World qual é meu Mario preferido.

    Abraço

  • Danilo2k14

    Algumas bactérias possuem a capacidade de “pegar” pedaços no material genético, no caso genes, de outras bactérias, incorporar ao seu próprio DNA e podem “fabricar” a enzima a partir desse gene adquirido.

    “A mágica acontece em Super Mario Bros 3 porque o que está ali não é uma
    sucessão de tarefas de programação, e sim o amor de outras pessoas, que
    depositaram ali um pedaço delas mesmas para comunicar”. Caro Marcos, nunca alguém definiu tanto o que acredito nos video games que essa frase dita por você! Muito obrigado!

    Só um pedaço, não me de tudo, só um pedaço, que eu produzo o resto. Phil Fish me deu um pedaço do puzzle, eu resolvo. Kojima me deu uma mensagem contra a guerra, eu entendo. Miyamoto me mostrou um pedaço de criatividade, eu sonho…

    Cada autor passou a sua maneira uma história, um sentimento, uma ideia, um objetivo. As vezes leva-se tempo para decodificar essa mensagem, as vezes leva-se tempo para saber se a mensagem existe. Talvez hoje visualizar apenas o número de vendas pode embaçar o que na verdade deveríamos ver nos jogos de video game, mas os bons autores conseguem mesmo assim nos fazer enxergar sua mensagem. Cabe a nós incorporar essa informação, transcreve-la e produzir algo de bom!

    Muito obrigado Marcos, te devo um Sonho…de padaria é claro!!!

    • Fabiano

      “Phil Fish me deu um pedaço do puzzle, eu resolvo. Kojima me deu uma mensagem
      contra a guerra, eu entendo. Miyamoto me mostrou um pedaço de
      criatividade, eu sonho”
      CLAP CLAP CLAP

  • Fabiano

    Eu sempre sinto muita, mas MUITA, inveja de todos vocês. Quando criança meus pais sempre se recusaram de me dar um videogame, alegando que isso ia diminuir minhas notas na escola (que sempre eram perfeitas, mas ok). De forma que a primeira vez que eu pude jogar alguma coisa foi em 2009 (aos 19 anos), quando comprei um PC positivo tão ruim que só rodava emulador de SNES e N64 (PS1 nem pensar, isso era avançado demais pra ele).
    Portanto eu nunca tive essas experiências mágicas de infância que vocês tanto falam. Não conheço essa magia que vocês tanto falam quando jogaram Mario 3 pela primeira vez, nem consigo imaginar. Talvez eu tenha sentido a mesma coisa em outros jogos, ou com os mesmos jogos porém de uma forma diferente. Mas eu realmente acho que eu perdi uma experiência de vida ao não jogar esses jogos em sua época, com a minha mente infantil criando mil histórias para aqueles píxels na tela. Invejo muito isso de todos vocês, mesmo.

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  • André Carvalho

    Ótimo texto. Trouxe excelentes lembranças 🙂

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