Sempre achei o conceito de “gamer com orgulho” estranho. Não por sua concepção social, mas sim pela própria lógica da coisa: do meu ponto de vista, eu gostar de videogame não exigiu nenhum esforço da minha parte, nenhuma luta para que esse gosto prevalecesse sobre outros. Games são simplesmente  algo que eu gosto e isso tem muito mais a ver com minha química cerebral do que qualquer decisão consciente que tomei sobre o assunto – a real é que, normalmente, parto do pressuposto que ter orgulho de qualquer coisa que você não se esforçou para ter é algo meio bobo, salvo exceções, mas digresso.

Isto posto, acho que nunca vi uma comunidade tão orgulhosa de si própria quanto as pessoas que encontrei na BlizzCon 2014. Durante os dias 07 e 08 de novembro, segundo assessoria da Blizzard, mais de 25 mil pessoas compareceram ao Centro de Convenções de Anaheim, na California, e foi certamente uma das experiências mais interessantes que tive desde que comecei a cobrir a área de videogames.

BlizzCon

Se você não ficou sabendo do evento, relaxe, você não é o público dela. A BlizzCon é feita para um grupo extremamente específico de pessoas: fãs da Blizzard. Obviamente, o anúncio de Overwatch, nova propriedade intelectual da Blizzard (a empresa levou 17 anos para fazer isso), pode ter chamado a atenção de quem não é um fã da desenvolvedora, mas isso foi efeito colateral. Se você não adora a empresa com todo o seu coração, se não sente orgulho de fazer parte de sua comunidade de amantes de World of Warcraft, StarCraft ou Diablo, provavelmente achará tudo o que eu escrever a partir de agora um grande exagero. Caramba, eu mesmo pensei isso, “cara, vocês estão exagerando forte”, quando colegas jornalistas que já haviam visitado o evento me alertaram para essa diferença. Ou até mesmo quando um dos executivos da Blizzard afirmou categoricamente durante o jantar de boas-vindas que participamos um dia antes da abertura do evento: “entrar na BlizzCon é como entrar em uma igreja (tamanha a devoção daquelas pessoas à empresa)”. Tudo isso, todas essas afirmações que eu considerei hiperbólicas, até mesmo cafonas, comecei a repetir eu mesmo logo após a cerimônia de abertura.

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BlizzCon 2014

Antes de chegar aos finalmente e falar de onde vem todo esse sentimento, preciso explicar minha relação com a Blizzard rapidamente. Joguei todos os WarCrafts freneticamente – não fechei o terceiro título pois a frustração na batalha contra Cenarion foi demais para minha mente de 16 anos –, só conheci StarCraft “pessoalmente” após começar a trabalhar com videogames, Diablo foi uma efêmera paixão que nunca me deixou terminar nenhum dos títulos e World of Warcraft me fez passar horas andando para lá e para cá nos últimos anos, sem nunca entender exatamente a adoração destinada ao título, o que me rendeu um Priest level 60 e poucos que passou por todas as expansões desde Burning Crusade. Mas, por algum motivo que apenas um psicólogo seja capaz de explicar, paguei conscientemente e religiosamente por anos a mensalidade de World of Warcraft. Tentando racionalizar essa minha relação com WoW, talvez eu o tratava como Netflix: acho um serviço tão legal que nunca me importei muito em deixar de pagar, mesmo quando não o utilizo por meses. Pago mais pela ideia do que pelo uso da mesma.

A Árvore da Vida

– E agora, posso ouvir vocês? FOR THE HORDE!

Um pouco a frente um pai levava seu filho, que deveria ter cerca de 10 anos, nos ombros e ambos, a plenos pulmões:

– FOR THE HORDE!

A Blizzard que conhecemos hoje foi fundada em 1994 – antes era conhecida como Silicon & Sinapse. A BlizzCon 2014 marcou o vigésimo aniversário da empresa e o décimo de World of Warcraft. Sério, pare um pouco e deixe essa informação ser processada. Nós vivemos em um mundo no qual um jogo está ativo, apresentando novidades frequentemente e com milhões de jogadores há 10 anos. Tomemos o exemplo acima: a criança sobre os ombros do pai teve, possivelmente, durante toda a sua vida, a influência de um jogo que cresceu junto com ela.

A primeira BlizzCon aconteceu em 2005, e desde então ela mantém um calendário basicamente fixo de acontecer uma vez por ano (pulando 2006 e 2012). E mesmo que StarCraft, WarCraft e Diablo sejam jogos enormes, seria uma injustiça não apontar que boa parte dos participantes do evento (e dos fãs da Blizzard?) compareça à BlizzCon por causa de World of Warcraft.

BlizzCon 2014

BlizzCon 2014

Então, voltando ao evento deste ano, a coisa que mais me chamou a atenção foi a pequena quantidade de crianças. A maioria dos presentes eram adultos que dedicaram boa parte de sua vida a jogar títulos de uma só empresa. Aponto isso pois estou acostumado a cobrir eventos como BGS, campeonatos de League of Legends e E3 – sendo que este último não tem muito como comparar, já que é um evento fechado para imprensa e indústria.

Nos exemplos acima, o normal é que o público seja esmagadoramente adolescente, com alguns adultos meio perdidos e claramente em uma sintonia completamente diferente da maioria dos presentes. E é engraçado notar isso quando já temos uma geração com mais de 30 anos que cresceu em um mundo no qual videogames eram uma forma legítima e “normal” de diversão, não algo saído diretamente da ficção cientfífica.

Logo, estar em um ambiente apinhado de adultos, em sua maioria acima dos 25 anos, e todos eles amando o videogame é uma novidade por si só. É interessante ver pessoas da sua idade expressando um legítimo amor por algo, um orgulho enraizado por fazer parte de uma comunidade consciente de si própria: todos ali sabem que são velhos demais para estarem gritando “STRENGTH AND HONOR” um para o outro, todos possuem outras preocupações mais importantes do que saber se Turalyon e Alleria irão voltar algum dia… Muitos ali estavam com aquelas preocupações “maiores”, os filhos, junto deles. E mesmo com tudo isso, durante aqueles dois dias eles estão focados apenas em celebrar aquilo, aquele gosto em comum.

BlizzCon 2014

BlizzCon 2014

Não, eles não voltaram a ser adolescentes. São adultos funcionais legitimamente amando algo. Não é uma paixão, algo que queima brilhante e rapidamente, mas sim um amor consciente. Que sabe onde começa e onde acaba e não tem problema em saber disso.

Conversando com participantes do evento algo fica claro rapidamente: para a maioria, o videogame não é idealizado. Eles não estão tentando escapar de algo do dia-a-dia dentro dos mundos criados pela Blizzard, as frustrações da vida não são descontadas naqueles universos, elas são compartilhadas.

Camaradagem

“Muitos têm sido violentos, vimos mulheres sendo insultadas, nosso amor sendo acusado de intolerante. Vamos mostrar a estas pessoas que não concordamos com isso e que gostar de videogame é algo incrível”, disse Mike Morhaime, presidente e co-fundador da Blizzard, em seu discurso de abertura da BlizzCon. O executivo dirigia suas palavras aos problemas que o mundo dos videogames têm sofrido: misoginia, sexismo, abuso e violência que já abordamos aqui no Overloadr.

“Esperamos que gostem do evento deste ano e divirtam-se! Ah sim, cuidem um dos outros, vocês estão aqui pela mesma coisa!”, gritou Chris Metzen, Vice-Presidente Sênior da empresa.

Outras empresas podem não ter a sorte de contar com jogos tão famosos quanto os da Blizzard, mas algo que elas realmente deveriam ter inveja é da comunidade que se formou em torno da marca. O que mais notei foi a camaradagem entre todos no evento.

BlizzCon

BlizzCon

Mulheres sendo tratadas como iguais, diversos deficientes físicos ganhando espaço, abraços e sorrisos, risadas para todo o lado. Até mesmo quando Overwatch foi anunciado que estava no showfloor para todos jogarem, o que se viu não foi uma manada ensandecida como eu estava acostumado. Quem queria jogar o novo título se levantou e foi para uma fila organizada e esperou sua vez.

Além disso tudo, a franqueza e abertura que os integrantes – celebridades? – da equipe de desenvolvimento da Blizzard lidava com todos era invejável. Tive a oportunidade de entrevistar Samwise Didier, diretor de arte e vocalista da banda da Blizzard, e foi uma das raras vezes que tive uma conversa agradável com alguém da indústria, não algo treinado e engessado. Algo como “vamos falar sobre algo que gostamos? Vamos!”

Outra oportunidade de presenciar essa abertura dos executivos da empresa foi quando um Metzen claramente cansado deu uma coletiva de imprensa sobre Overwatch sem esconder sua exaustão, parecendo abrir seu coração para a imprensa: “Caras, se eu falar algo sem sentido ou me perder durante uma resposta, por favor, me perdoem. Esconder Overwatch por tanto tempo e horas de apresentação antes deste nosso papo me atingiu como eu não imaginava.”

E todo esse texto foi escrito apenas para embasar uma afirmação na qual cheguei nestes dias de cobertura: eu reencontrei os “gamers”. Mesmo odiando o título e a carga babaca que ele consegue levar consigo, também sei que ele abarca uma série de coisas boas. Companheirismo, um amor meio bizarro por coisas que só existem em uma tela, num universo completamente diferente do nosso.

A BlizzCon é o que temos de mais próximo de uma comunidade gamer de verdade hoje.

P.s.: Eu não sou fã de Metallica,mas, caceta, eles fecharem a BlizzCon 2014 só deixou a experiência ainda mais surreal.

*Caio Teixeira foi convidado pela Blizzard para cobrir o evento BlizzCon 2014

  • Antônio Arnaldo Ferreira Xavie

    1º Meus parabéns pelo texto, muito bem escrito e capaz de transmitir com muita emoção uma experiência incrível que você deve ter passado.
    2º Todos os termos são meio que pedantes por si só. todos carregam sua parcela de pré conceito ou de pessoas babacas que se identificam com eles, mas a culpa não é do termo, ser gamer não é mais senão que gostar de games, fazer deles um passatempo legitimo e agradável, e as vezes, os que tem sorte, até o seu trabalho.

    Meus parabéns, sempre acompanho o trabalho de vocês e os admiro muito, vida longa ao Overloadr e que mais textos assim venham…

    • caio_o_teixeira

      Valeu, Antônio! =)

    • Matheus Rodrigues

      Concordo e assino embaixo o que você disse @antnioarnaldoferreiraxavie:disqus.

      E @caio_o_teixeira:disqus, caramba cara sempre que eu olho essa sua foto me lembra muito o Diogo Braga do Matando Robos Gigantes, desculpe o comparativo e propaganda gratuita, mas realmente lembra rsrs.

      Aprecio e admiro muito o trabalho de vocês, espero que tenham muito sucesso com o Overloadr.

  • rodrigo

    texto belo este, deu aquele orgulho de ser ~gamer~ que por vezes esquecemos

  • Ótimo texto Caio. De longe a BlizzCon é o evento em que eu mais tenho expectativas de participar. Eu não sou lá tão fã da Blizzard, mas todo esse amor que a comunidade tem pela empresa e por seus jogos acabam me contagiando, sendo assim sou um fã por osmose kkkkkkkk!

  • Felipe Brito

    Fiz um comentário no post sobre o documentário “Looking for raid” em que eu dizia coisas parecidas com o que você diz aqui, e isso de me deixa infinitamente feliz, pois indica que eu não estou agindo apenas como um fanboy cego. O comportamento da Blizzard nos últimos tempos, simbolizado especialmente pela Blizzcon desse final de semana, acabou gerando esse efeito hiperbólico em minhas opiniões sobre a empresa e seu legado histórico. Se você for parar pra pensar, eles tem um Hearthstone, jogo que assusta em seu constante crescimento, que foi criado primariamente para celebrar uma das franquias deles. Podemos dizer o mesmo de Heroes of the Storm, apesar de ainda não termos ideia de como será sua participação no mercado dos mobas. Eles sabem que o que a empresa tem de mais valor são todas essas pessoas que os seguem, e reconhecendo isso, conseguem retribuir da melhor forma.

    Enfim, Warlords of Draenor estréia daqui a pouquinho, e eu me vejo reativando minha conta e comprando a expansão para matar a saudade daquele universo, e claro, das pessoas dentro dele.

  • Sérgio Figueiredo

    Caio, o seu texto conseguiu passar uma emoção única que poucos textos jornalísticos conseguem. Não sei porque, mas por ter vivido momentos da vida em alguns dos “universos” da Blizzard, o seu texto me fez valorizar cada um dos momentos passados neles, me dando vontade de retornar à estes lugares.
    Foi gratificante ler este texto! Parabéns ao Overloadr.

  • Eikani

    É engraçado pra mim, fã assumida e parte ativa da comunidade da Blizzard, pensar que esse sentimento de comunidade e tudo mais que descreveu tão bem em seu texto é algo ‘nosso’. Confesso que jogo muito pouco de outras empresas por falta de tempo – maldito WoW – mas todos esses sentimentos são tão naturais pra mim, tão parte do que eu gosto e admiro, que é difícil entender como algo tão bom não é universal simplesmente por ser uma ótima experiência.

    Uma coisa que vou levar dessa Con, especificamente, foi um papo com o Ion Hazzikostas, um dos lead game designers do WoW. Depois de uns minutos rondando ele em um evento antes do jantar pra imprensa, criei coragem e fui dar um oi (superstars, vc disse? hahaha) e claramente nervosa, disse que não era uma pessoa lá muito sociável. Ele respondeu com “Eu normalmente, na vida real, sou uma pessoa muito anti social, não tenho jeito pra isso. Mas na BlizzCon… tudo que eu quero é conversar com o maior número de pessoas possível, porque todo mundo estar aqui pelos mesmos motivos é incrível, e estamos em casa”. E é isso.

    E foi um prazer te conhecer, Caio <3

  • Xikospipous

    Meus parabéns, acompanho vocês a pouco tempo, começei no final do Game on the Rocks quase. e cara, é dificil para mim escrever algo, mas esse texto me fez dar os parabéns a vocês. Ao final do texto eu tive de me segurar para não deixar as lágrimas escorrerem, fiquei muito emocionado com o que foi dito. Após a leitura fiquei ainda mais animado de tentar ir para a blizzcon ano que vem, acompanhei o evento pelo Virtual Ticket, mas com certeza, não é a mesma coisa de estar acompanhando ao vivo.

    Muito sucesso para vocês, parabéns por essa nova empreitada, e continuem assim. Muito sucesso e saúde para vocês.

  • Fabiano

    A Blizzcon acaba sendo o que todos nós (adultos pelo menos) gostariam que eventos nerds em geral fossem: um lugar para conhecer pessoas como você, um lugar legal apenas de se estar, onde niguém te julga pelos seus gostos e hobbies. O mais próximo disso aqui no Brasil são os eventos de animes, mesmo que a maioria das pessoas do evento sejam adolescentes, ele acaba sendo um oásis da realidade onde as pessoas te julgam imaturo pelos seus gostos. Gostaria muito de ir para a Blizzcon algum dia, mesmo que minha experiência com a empresa se resuma a Starcraft e um pouco de Diablo apenas, só pelo clima do lugar.

    E que ótimo texto, são tão poucos os sites que usam de uma franqueza tão grande com os leitores. Meus parabéns, vocês já são o melhor site de games que eu já acessei (e o site que eu mais acesso no dia).

    PS: o Baga não estava por lá?

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  • Gustavo Freitas

    Emocionado com o Texto…

    Me sinto feliz em ver outras pessoas carregando esse “orgulho de ser gamer” de uma maneira tão saudável… Pessoas que se divertem sem se perder em tantos mundos e universos.

    Parabéns pelo texto Teixeira.

  • Arenaox

    Gostaria de agradecer pelo texto parabéns o/ e apenas afirmar uma coisa sobre a Blizzcon 2014 Blizzard sendo Blizzard.

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