Agora você lê o segundo dos cinco textos escritos por Alexandre Nix, produtor do Overcast (pai de programas como os podcasts Verdades Absurdas [apresentado por Caio Teixeira], Muito Amor e vídeos como Rompantes, com Nigel Goodman), sobre a sua experiência com o (beta do) jogo Elite: Dangerous. O conteúdo é autoral e será publicado semanalmente, todas quartas-feiras. Acompanhe conosco o que sai da mente doentia – ou robotizada – do Nix. Caso queira mais informações sobre o jogo, acesse o site de Elite: Dangerous que o Nix criou.

– Caio Teixeira

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Data Estelar 6113300-0

Certas pessoas acreditam que o espaço é frio. Essas pessoas estão certas. O que separa sua nave ou outras do resto do espaço é a temperatura. Tudo o que importa é o calor. As armas de eixo cardã e alguns tipos de mísseis travam em alvos que produzem calor, os sensores detectam outras embarcações através de suas assinaturas de calor, os escudos das naves produzem alta quantidade de calor (principalmente ao se regenerarem). Por essas razões o que farei nesse momento requer que eu permaneça o mais frio possível. Até porque “calculista” eu aparentemente não consigo ser.

– Ninja.

– Modo de corrida silenciosa ativado. – A nave responde com sua habitual calma e ignorando completamente o que eu farei nos próximos segundos. Não sinto necessidade de contar tudo para ela. Ainda não estamos nesse estágio da relação.

Dizer “Ninja” é mais rápido do que dizer: “Desligar sistemas não-essenciais e rezar” e faz mais sentido do que dizer “ativar modo de corrida”. É idiota esse termo. Eu não preciso necessariamente correr ao desligar os sistemas não-essenciais. Eu posso desejar ficar quietinho atrás de um asteroide para não ser detectado. É um termo estúpido. Onde eu estava mesmo? Ok. Nesse momento eu vou correr. Só um pouco e em linha reta. Dessa vez não tem ninguém me caçando e não estou caçando ninguém. É um pouco complicado explicar o que aconteceu, mas eu juro que não foi intencional. Hoje, por incrível que pareça, o bandido sou eu.

– Requisitar pouso.

A I.A. da nave passeia entre telas de menu rapidamente e estabelece contato com a estação espacial. Sou autorizado a entrar e pousar na plataforma 16. A entrada está distante, mas bem na minha frente… pelo menos é o que eu acho.  Lá vamos nós.

– Velocidade máxima!

Os motores da Cobra ronronam lindamente seguidos pelo ruído metálico do casco se ajustando enquanto expande. Clack, clack, clack. Agora é rezar para que nenhuma outra nave esteja saindo no momento em que estiver entrando. Nessa velocidade será praticamente impossível desviar. Eu deveria estar entrando com cuidado, mas preciso ser rápido e evitar o scanner de carga da estação.

– Desativar assistência!

– Assistência de voo… desativada. – A inteligência artificial fez uma pausa? É quase como se ela fosse perguntar: “Tem certeza disso?” Oh, droga! Estou desalinhado. Muito baixo! Muito baixo! Sobe! Sobe! Sobe!

Reajusto precariamente e o eixo direcional da nave e dou três breves toques nas turbinas inferiores como quem começa a pedir um S.O.S. de um jeito completamente inútil. Me distraí a 30 metros da entrada. Será que outra nave está saindo? Não. Ótimo. A temperatura da nave cai para zero por cento. Eu nunca entendi o que essa porcentagem significa em graus Célsius, mas tenho uma boa noção quando vejo os vidros do cockpit congelando. Tudo bem. Falta pouco. É só pousar e religar os sistemas. Plataforma 16. Plataforma 16. Onde? Ali!

– Trem de pouso.

– Trem de pouso ativado.

– Obrigado.

– De nada, Comandante Nix.

Ela parece aliviada. Eu também. O pior já passou. Religo os sistemas não-essenciais e a assistência de voo. Me reconforto com o calor do escudo se regenerando. Se as autoridades locais não realizaram a leitura do meu compartimento até agora é problema deles! Eu sei como isso funciona. Estou sentindo fedor de peixe? Impossível. A voz rude de um operador ecoa no ambiente artificial. Uma gravação automática informa às embarcações que por razões de segurança devemos manter uma velocidade mínima ao entrar e sair da estação. Ceeerto. Pouso nervosamente. Quando finalmente solto os controles sinto a dor nas mãos. Isso foi tenso. Me acalmarei depois. Primeiro preciso visitar o mercado negro da estação. Eu me odeio por tudo isso. E acima de tudo, eu odeio Freeport.

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Data Estelar 5113300-4

Consertei minha nave ainda em Azeban City, Eranin. Não exatamente depois de fugir da Federal Dropship. Não pude evitar de verificar aquele sinal não identificado. Saltei da hipervelocidade e encontrei seis rebeldes da Federação em suas Vipers caçando uma pobre Sidewinder solitária. Fingi que não vi nada e saltei novamente. Não tenho nada a ver com essa guerra e continuo fazendo vista grossa para essas atividades. Não tenho poder de fogo ou disposição para entrar em uma guerra no momento… mas um combate contra uma Eagle? Bem, eu estava confiante que poderia fazer isso tranquilamente mesmo com 87 por cento de casco funcional.

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Data Estelar 3113300-3

– Saltar.

Um sinal não identificado. E bem perto. Cruzo os dedos para não dar de cara com uma Anaconda pirata ou assassina (tanto faz. Qualquer Anaconda atirando é mortal). Comandante Nigel certa vez me contou uma história que fugiu de uma saltando para um outro sistema desconhecido. Infelizmente ele não teve tanta sorte e não percebeu que saltara para um farol de navegação próximo demais de uma anã branca e acabou fritando sua nave em alguns segundos. Comandante Nigel é um cara engraçado. Por onde será que ele anda? O radar capta uma embarcação na minha lateral superior direita. Manobro minha nave me posicionando de frente para a origem do sinal e, por precaução, acelero ao máximo em sua direção, mas… no sentido oposto. Quero utilizar o scanner de identificação e navegando “de ré” eu talvez consiga me preparar melhor caso tenha encontrado um pirata qualquer que deseja atirar em… não. Tarde demais. Já está atirando. Vamos, scanner sucateado! Meus escudos não vão segurar muito esse… Brizra? Brizra!

SIM! Eu achei meu alvo! Achei o bandido! SIM! SIM! SIM!

– Falha nos escudos.

– NÃO!

Acelero dando um impulso extra na esperança de correr direto por baixo dela e escapar dos próximos disparos de burst lasers.

– O que diabos eu sei sobre Eagles? Eu nunca pilotei uma!

– Afirmativo. Eagles.

– O que?

A Inteligência Artificial começa a tocar “Hotel California” nos auto-falantes do cockpit. Maldição! Eu programei isso. Eu deveria saber.

Tento recapitular o que ouvi dizer sobre Eagles: Elas possuem três armas frontais. Sim. – “On a dark desert highway, cool wind in my hair…” – É isso. Uma das armas pode ser tão forte quanto as minhas duas principais. – “Warm smell of colitas, rising up through the air…” -A Eagle tem quase a metade do tamanho da Cobra, portanto não pode ter uma usina de força que suporte o aquecimento das armas por muito tempo… e tudo o que importa é o calor. – “Up ahead in the distance, I saw a shimmering light. My head grew heavy and my sight grew dim…” – Ela precisa esfriar o sistema de armas. – I had to stop for the night. There she stood in the doorway…”.

Tento manobrar para ficar em sua retaguarda. Ela não facilita. – “I heard the mission bell, and I was thinking to myself…” – Outra coisa muito importante sobre a Eagle: ela é a nave mais manobrável do universo. Esse é o tipo de informação que eu deveria ter considerado bem antes de aceitar essa missão. “This could be Heaven or this could be Hell“.

Desvio a energia para as armas, consigo alguns segundos de disparo contra Brizra. Reduzo seus escudos pela metade. – “Then she lit up a candle and she showed me the way…” – Desvio a energia para os escudos que começam a se preparar para reiniciar. – “There were voices down the corridor…” – Brizra percebe a manobra e inicia um looping me deixando para trás. Xingo o desgraçado e desvio energia para as turbinas. Os escudos terão de ficar para outro momento. “I thought I heard them say…”

– Desligar rádio.

Odeio esse refrão e não sei o que são “colitas” ou como elas cheiram. Mais uma rajada de pulse lasers na Eagle e ela perde os escudos. Continuo atirando, mas minhas armas superaquecem. Calor. Sempre o calor!

 

(Primeira parte)                                                                                                (Terceira parte)

  • Mauricio Ermel

    Nooooo, muito bom o texto, que vontade de jogar isso. Deve ser muito louco com rift e um manche.

    • Gau, o Gárgula

      Rift + Manche + Elite Dangerous = Você nunca mais precisará ver a luz do dia novamente

  • Isso é inacreditável. Esse Nix é um monstro na escrita. Quero ler mais!

  • Pingback: DIÁRIO DA ELITE: Uma Nova Alvorada()

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  • Gau, o Gárgula

    “e não sei o que são “colitas” ou como elas cheiram” nunca pensei nisso, mas pensando agora, concordo plenamente com o Nix!
    Realmente texto incrível, Nix está de muito parabéns!