Agora você lê o terceiro dos cinco textos escritos por Alexandre Nix, produtor do Overcast (pai de programas como os podcasts Verdades Absurdas [apresentado por Caio Teixeira], Muito Amor e vídeos como Rompantes, com Nigel Goodman), sobre a sua experiência com o (beta do) jogo Elite: Dangerous. O conteúdo é autoral e será publicado semanalmente, todas quartas-feiras. Acompanhe conosco o que sai da mente doentia – ou robotizada – do Nix. Caso queira mais informações sobre o jogo, acesse o site de Elite: Dangerous que o Nix criou.

– Caio Teixeira

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Data Estelar 3113300-4

– Energia máxima para as armas.

– Armas ao máximo.

Péssima ideia. Fazendo isso eu tiro energia das turbinas. Ele consegue manobrar mais rápido do que eu gostaria e agora se vira de frente para mim. Seus três lasers já esfriaram e ele dispara agressivamente. O painel esquerdo da nave entra em pane. Faíscas. Um sinal de alerta se repete em loop. Eu atiro de volta e superaqueço novamente minhas armas. Ele passa raspando por mim. Aproveito para fugir no sentido oposto.

– Energia máxima para as turbinas.

– Turbinas ao máximo.

“Fugir” é uma palavra forte. Eu na verdade manobro minha nave para uma distância aceitável, redirecionando um pouco a energia das turbinas de volta para os escudos. A Eagle pode ser manobrável, mas seria preciso de uma Viper para me alcançar agora. Brizra não tem uma Viper, mas aparentemente ignora esse detalhe técnico. Ele dá meia-volta e vêm em minha direção.

Dou alguns impulsos extras e aumento nossa distância. “Você não tem uma Viper, Brizra!”. Meus escudos se recuperam pela metade e quando sinto que posso retornar para mais um embate, ele desaparece do radar. Oh, não. Me afastei muito. Não posso também perder a recompensa. Acelero na direção oposta repetindo: “60.000 créditos. 60.000 créditos.” Ele ressurge. É agora. Ambos aceleramos de encontro ao outro. Desvio toda a energia de suporte para as armas. Acho que ele fez o mesmo. Ainda tenho alguns segundos antes do caos. Ativo meu scanner para verificar infrações em sua ficha criminal. Se ele está causando problemas por Eranin, ele tem de ter uma recompensa local por aqui. Bingo! Duas recompensas pequenas. Uma aqui e outra em LP 98-132. Isso será um bom bônus se eu sobreviver. Não! Eu tenho de sobreviver.

Rajadas múltiplas correndo em direções opostas. Ele desvia primeiro. Dessa vez eu não vou deixar passar. Meu cockpit está saindo fumaça. Olha, que interessante! Fumaça!

– Socorro!

– Não entendi, Comandante.

Redireciono rapidamente a energia para as turbinas e me posiciono melhor para o novo looping que ele inicia. Ele destruiu novamente meus escudos e me atingiu um pouco. Estou com 63 por cento de casco funcional, mas dessa vez ele também está sem escudos e eu estou bem na sua traseira. Não vou repetir o mesmo erro. Desativo meus lasers e ativos meus multicannons. Canhões notavelmente gastam pouca energia. Eu deveria ter feito isso antes, mas sou avesso a gastar munição a troco de nada. Agora que sei que tem um bônus me esperando, não vou me sentir no prejuízo. No calor da batalha você pode ficar mais mão aberta. E o que importa é o calor. Brizra entenderá isso agora: Dou uma boa rajada e ele perde 50% de funcionalidade em seu casco. Ainda não está totalmente aleijado, mas isso aumenta minhas chances. Ele desvia toda sua energia para as turbinas e surpreendentemente consegue se livrar de mim momentaneamente. Tento encontrar a velocidade ideal para conseguir diminuir sua vantagem, mas é em vão. Ele gira no próprio eixo e estamos novamente de frente um para o outro. Dessa vez será nossa última troca de tiros.

Disparamos insandecidamente ao passarmos um pelo outro em toda velocidade. Ele sobrevive. Eu sobrevivo. Ele está aleijado… eu estou… Céus! Eu estou com o vidro do meu cockpit rachado!

– Canopy em estado crítico.

– Eu sei! Tá rachado!

“Crack crack crick”

– Minto. Está rachando! Está rachando!

Está muito avariado, mas não está destruído… assim como Brizra. É preciso aproveitar o momento. A Eagle não tem mais forças para manobrar como antes. Ela está apenas com 12 por cento de casco funcional. Brizra foge, mas ele sabe que sou mais rápido. Principalmente se eu usar um impulso extra.

– Impulso.

Dessa vez o som dos motores ao ativar o impulso extra foram acompanhados de um som terrível: “Crack crack crick”. É tarde demais para desativar o impulso. Minha nave se aproxima da Eagle em fuga, mas fico estático esperando o pior.

– Canopy em estado crítico.

– Eu seeei!

Minha velocidade se reduz e Brizra ganha mais distância. Ok. Não posso utilizar o impulso então? Ou será que foi coincidência e o vidro racharia mais da mesma forma? Não importa. Eu preciso terminar isso agora. Eu disparo uma rajada de tiros com os canhões e sei que atinjo o alvo. Três segundos depois vejo a Eagle explodir. Missão cumprida. Eu só não respiro aliviado porque estou com um problema.

– Canopy em estado crítico.

– Exato.

Infelizmente não há saída. Eu precisarei saltar em hipervelocidade. Em velocidade cruzeiro e com a nave danificada, não só serei alvo fácil de qualquer pirata pilotando uma mera Sidewinder, como posso morrer antes de percorrer vários anos-luz como uma lesma. Morrer de frio ou sem ar se esse vidro ceder. A estação mais próxima é Azeban City. Defino o curso para lá, aponto o nariz da Cobra na direção correta e dou a ordem:

– Saltar.

A contagem regressiva começa e cruzo os dedos. 5… 4…3…2…1… e salto.

– Canopy em estado crítico.

– E?

Nada acontece. Nada? Nada! A propulsão hiperespacial aumenta gradativamente. Relaxo um pouco. Agora só preciso me preocupar com a reentrada. Mesmo que o vidro parta, eu tenho alguns minutos de oxigênio no meu traje.

Azeban City e Azeban Orbital já estão visíveis entre as rachaduras do vidro. Reduzo a velocidade para não comprometer minha reentrada para a velocidade padrão (isso faria com certeza o vidro explodir). Ordeno o salto no momento correto e a mensagem sobre o canopy se repete, mas nada acontece. Somente quando aporto em Azeban City é que lembro que existe uma recompensa local pela morte de Brizra para ser coletada: 1.700 créditos. O suficiente para compensar o consumo de combustível e os danos na minha Cobra MK III, mas não o suficiente para pagar o gasto com munição. Não reclamo. Lembro que existe outra recompensa de 1.304 créditos em LP 98-132 e o pagamento do contratante me aguardando em Chu Hub.

Abasteço a nave e pago por uma mão de tinta nova após seu conserto. Decido que será melhor passar em LP 98-132 e pegar minha recompensa primeiro. No entanto seria bobagem ir até lá de mãos vazias. Minha Cobra MK III tem 36 toneladas de capacidade de carga (depois de uns upgrades feitos quando achei que seria minerador) e decido verificar o quadro de oportunidades de trabalho. Um anúncio salta nos meus olhos quase imediatamente: 40.000 créditos para transportar 16 toneladas de peixe para LP 98-132! Em duas horas! Duas horas? Eu consigo chegar lá em 8 minutos dependendo da estação de destino. Verifico a estação.

Já te falei sobre Freeport?

 

 

 

 

(Segunda parte)                                                                                                (Quarta parte)