Hoje começa uma série de cinco textos escritos por Alexandre Nix, produtor do Overcast (pai de programas como os podcasts Verdades Absurdas [apresentado por Caio Teixeira], Muito Amor e vídeos como Rompantes, com Nigel Goodman), sobre a sua experiência com o (beta do) jogo Elite: Dangerous. O conteúdo é autoral e será publicado semanalmente, todas quartas-feiras. Acompanhe conosco o que sai da mente doentia – ou robotizada – do Nix.

– Caio Teixeira

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As más-línguas dizem que uma das coisas ruins do novo Elite: Dangerous é a falta de narrativa. Bobagem. O enredo em Elite: Dangerous, assim como muita coisa no jogo, é opcional. Elite não tenta empurrar por sua garganta uma história. Ela está por ali, mas você pode ignorá-la. Fatos importantes no universo ficcional aconteceram e estão acontecendo, mas você pode dar as costas para tudo isso, apontar para a segunda estrela à direita e seguir com a sua nave até descobrir aquele sistema. Ou não. É opcional.

A desenvolvedora do jogo, Frontier Developments, tem uma filosofia diferente com a história do universo ficcional de Elite que remonta desde sua edição inicial. O jogo de 1984 vinha com uma “novelleta” que servia como ambientação desse universo. A versão atual de Elite ainda nem foi lançada e já possui uma coleção de livros à venda que refletem e dão informações extras sobre fatos que aconteceram na galáxia.

Talvez a melhor maneira de entender o jogo, o que se passa no seu universo e aproveitá-lo seja fazendo sua própria história extrapolando o sandbox gargantuesco e quase inimaginável de Elite: Dangerous e registrando seu próprio caminho. Alguns jogadores já estão fazendo isso na versão beta de Elite, indo além da fanfiction, mas criando um registro pessoal de atos que podem influenciar mesmo que minimamente a dinâmica e o equilíbrio da galáxia para todos os outros jogadores.

Agora você lê o primeiro dos cinco trechos selecionados por mim sobre a experiência Elite: Dangerous

 

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Eu odeio Freeport. Eu não sou um contrabandista e tenho uma boa reputação. Não é uma grande reputação, mas é uma boa reputação e cada segundo nessa estação é uma enorme perda de tempo para qualquer comandante que prefere não sujar seus dedos em troca de créditos fáceis. Maldita hora que peguei essa encomenda em Chu Hub! O pagamento era bom: 45.000 créditos por 9 toneladas de Bertrandite em duas horas. Com sorte eu poderia encontrar essa mercadoria facilmente em apenas um salto para Dahan. Não tenho muita sorte. Ninguém no mercado de Dahan Gateway tinha um grama sequer de Bertrandite e quase me amaldiçoei por ter abandonado minhas atividades na mineração. Quase.

Eu havia acabado de comprar minha Cobra MK III. Não é uma nave realmente bonita, mas é a nave que você precisa quando você não sabe exatamente o que deseja. Depois de algumas semanas juntando créditos como “correio expresso” e mercador de pequeno porte entre os sistemas locais, eu havia conseguido o suficiente para ingressar na carreira de minerador. Nada muito glamoroso, mas prometia ser um trabalho fácil e lucrativo. Fácil foi com certeza, mas lucrativo? Se você não acha tedioso flutuar em velocidade mínima enquanto observa as lentas rotações de cada moroso asteroide de um cinturão durante horas, talvez dias… esse é o trabalho para você. Bastou três horas queimando aquelas malditas pedras para que eu vendesse meu laser de mineração e minha refinaria modular.

A verdade é que eu estava à procura de encrenca: queria caçar recompensas. Por que não? Eu já possuía créditos o suficiente para investir em um scanner especialmente desenhado para verificar infrações nas fichas criminais de contraventores e ainda me sobrara algum dinheiro para comprar um módulo de interrupção de hiperespaço (caso os fugitivos tentassem err…fugir). Peguei a minha primeira missão como caçador de recompensas… e dois dias depois eu estava novamente me envolvendo com transporte e minério. O que diabos deu errado?

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Chu Hub é uma estação interessante. Se você estiver em Styx, você precisa visitá-la. Ela é quase tudo o que Freeport não é. Uma boa seleção de naves e mercadorias à venda, missões variadas sendo oferecidas. Você não precisa de muito mais do que isso. A variedade no mercado de módulos e armas não é uma maravilha, mas para alguém entre carreiras como eu, é mais do que o suficiente. É uma estação bonita também.

Após uma breve olhada nos anúncios publicados em Chu Hub, achei o que procurava: Alguém queria a cabeça de um tal Brizra. Ele havia sido avistado em algum lugar do sistema de Eranin e aparentemente estava causando um certo caos na rota para as estações de Azeban. Eu precisava matá-lo em 25h e a recompensa de 60.000 créditos seria minha. Tempo de sobra e créditos suficientes para pagar o seguro da minha nave. Ouvi dizer que ter seguro é importante nesse tipo de ramo. O contratante não dava mais informações, mas não era minha primeira vez em Chu Hub e depois de fuçar um pouco os fóruns descobri que ele pilotava uma Eagle e trabalhava sozinho. Era tudo o que eu precisava saber. Agora só precisava encontrá-lo.

Um salto depois, estava em Eranin rodeando o farol de navegação. É uma, talvez a única, porta de entrada do sistema e se algum pirata estiver na redondeza, é possível que ele esteja por perto. Cinco minutos depois meu scanner padrão detectou um sinal não identificado próximo. Desliguei o frameshift e saltei para a velocidade normal de vôo. Os primeiros segundos de entrada são os mais tensos. Assim que o radar detectou uma embarcação meu coração deu um pulo. Seria Brizra? Me posicionei de frente para a direção da nave que vinha ao meu encontro e percebi que aquilo não era uma Eagle. Era uma enorme Federal Dropship. Fiz um scan rápido enquanto nos cruzávamos a poucos metros.

Aparentemente ela não era procurada, mas tinha a reputação de ser perigosa. Uma mensagem simples e direta surgiu nos comunicadores: “Você não tem como escapar e será destruído”. Infelizmente não tive tempo para ler, pois acabei me distraindo com o disparo de quatro pulse lasers simultâneos atingindo meu escudo. Os três tiros seguintes o destruíram completamente enquanto eu xingava o scanner defeituoso e acelerava a toda velocidade manobrando evasivamente. Li a mensagem. Ignorei a mensagem. Mais uma série de disparos e meu casco perdera 23 por cento de integridade. Eu perdia 40 por cento de dignidade. “Você não tem como escapar e será destruído” – Desviei a energia da minha Cobra para as turbinas e iniciei uma série de impulsos extras enquanto desviava dos disparos da Dropship.

– Esse monstro não vai me alcançar. Eu vou escapar e não serei destruído. Esse monstro não pode ver o futuro. É só uma nave grande… muito grande.

– Não entendi, Comandante Nix. – disse a voz feminina.

Eu mencionei que converso com minha nave? Não é insanidade causada pela solidão do espaço. Eu programei uma inteligência artificial. Ainda não está exatamente pronta, mas digamos que é um “processo orgânico de desenvolvimento”.

Os sistemas de escudo se preparavam para reiniciá-lo, mas eu não tinha o menor desejo de estar ali quando ele se recuperasse. Os feixes vermelhos do laser do monstro estavam passando cada vez mais perto do meu casco.

– Saltar! Saltar!

– Não entendi, Comandante Nix. – repetiu a nave.

– Saltar.

– Iniciando sequência de salto.

Uma coisa irritante no reconhecimento de voz que programei é a incapacidade de reconhecer qualquer comando que dou com uma voz ligeiramente “alterada”. Preciso reprogramar essa A.I. Talvez dar um nome para ela.

A contagem regressiva de cinco segundos da nave se iniciou quase simultaneamente com uma outra mensagem direta. Dessa vez vinda dos sensores internos e piscava serelepe em vermelho no visor principal: “Míssel Se Aproximando!”. Dane-se! Era tarde demais para o monstro. Saltei para a hipervelocidade imaginando um “mísselzinho” solitário e sem um alvo de calor vagando errante por Eranin. Não tive tempo nem de anotar o nome do comandante da Dropship, mas tenho a sensação que terei outra chance no futuro.

Naquele momento a minha questão era: “Continuo a procurar por Brizra nessa região caótica ou retorno após consertar o estrago feito? Eu poderia ir até a Azeban City e depois retornar até aqui passando o pente-fino na rota principal do sistema.” Parecia o mais sensato a se fazer… Até meu scanner detectar outro sinal não identificado. Um sinal bem próximo.

 

(Segunda parte)

  • Fabiano

    Droga, queria ler o resto agora. Por isso que não acompanho seriados, pqp.

  • PedroPBO

    Muito bom!! Podem preparar mais, cinco vai ser pouco. xD

    Estou querendo muito esse jogo, mas o preço ainda é meio alto e se eu comprar provavelmente vou morrer na praia com esse meu PCzinho. Quem sabe um dia… Um dia…

  • Jonas S. Marques

    Puta texto fodido, como diriam alguns.
    Parabéns Nix.

    • Fabiano

      Alguns = Teixeira

  • Gau, o Gárgula

    Realmente o texto ficou muito bom! A postagem no formato de um diário de borde deixa ela mais envolvente. Espero ansioso os “próximos capítulos” do que acontecerá com o Comandante Nix.

    E malditos sejam vocês, primeiro os comentários do Tota sobre esse jogo, agora esse texto. Se pelo menos ele fosse mais barato… 🙁
    Por hora vou ter que ficar contemplando aventuras alheias, mas ele definitivamente está na minha wishlist!

  • Pingback: Nota sobre o Diário de Bordo()

  • thales_cr

    Adorei como você incluiu as críticas na narrativa. Este texto só me faz ter mais vontade de jogar esse jogo.
    Parabéns e obrigado Nix, esperando pelo próximo texto.

  • Eu queria lembrar o nome daquele jogo que o Rique colocou o nome dos exs…

    • Heitor De Paola

      Eu creio que foi em Xcom.

    • Rafael de Souza

      Foi FTL.

  • Diego

    Bom texto e excelente direção que o Overloadr está tomando! Quero mais textos assim!

  • Bruno Araujo

    Eu ia perguntar se é recomendável jogar o jogo antes de ler, mas pelos comentários parece que não.

  • Textão! Queria muito poder meter as mãos nesse jogo, mas meu PC não deixaria. Rezar pra aparecer uma grana extra, parece realmente “inspirador”.

  • Pingback: DIÁRIO DA ELITE: Odeio Eagles()

  • Luiz Augusto Pereira Rodrigues

    Eu tava gostando mas teve uma hora que começou a falar sobre coisas do jogo em sí como lugares e entao eu começei a boiar